Nos dias que se seguiram, chegaram corvos de outras casas senhoriais, trazendo pedidos de desculpa. O bastardo do Forte do Pavor não viria; os Mormont e os Karstark tinham ido todos para o sul com Robb; Lorde Locke era idoso demais para arriscar a viagem; a Senhora Flint estava com a gravidez avançada, havia doença na Atalaia da Viúva. Por fim, todos os principais vassalos da Casa Stark tinham dado notícias, exceto Howland Reed, o cranogmano, que não punha os pés para fora dos seus pântanos havia muitos anos, e os Cerwyn, cujo castelo ficava a meio dia de viagem de Winterfell. Lorde Cerwyn era cativo dos Lannister, mas seu filho, um rapaz de catorze anos, chegou uma bela manhã à frente de duas dúzias de lanças. Bran montava a Dançarina no pátio quando atravessaram o portão. Foi a trote encontrá-los para lhes dar as boas-vindas. Cley Cerwyn sempre foi amigo de Bran e dos irmãos.
– Bom dia, Bran – Cley gritou alegremente. – Ou será que tenho de chamá-lo agora de Príncipe Bran?
– Só se quiser.
Cley soltou uma gargalhada.
– E por que não? Todo mundo é rei ou príncipe nos dias que correm. Stannis também escreveu para Winterfell?
– Stannis? Não sei.
– Ele também é agora um rei – Cley confidenciou. – Diz que a Rainha Cersei se deitou com o irmão, e, portanto, Joffrey é um bastardo.
– Joffrey, o Mal-Nascido – rosnou um dos cavaleiros dos Cerwyn. – Não é de admirar que seja desleal, com o Regicida como pai.
– Sim – disse outro –, os deuses detestam o incesto. Veja como derrubaram os Targaryen.
Por um momento, Bran sentiu-se incapaz de respirar. Uma mão gigantesca esmagava seu peito. Sentiu-se caindo e agarrou-se desesperadamente às rédeas da Dançarina.
Seu terror deve ter transparecido no rosto.
– Bran? – Cley Cerwyn o chamou. – Está se sentindo mal? É só mais um rei.
– Robb também o derrotará.
Virou a cabeça da Dançarina na direção dos estábulos, sem notar os olhares confusos que os Cerwyn lhe dirigiram. O sangue rugia em suas orelhas e, se não estivesse preso à sela, poderia muito bem ter caído.
Naquela noite, Bran rezou aos deuses do pai, pedindo um sono sem sonhos. Se os deuses ouviram, zombaram da sua esperança, pois o pesadelo que enviaram foi pior do que qualquer sonho de lobo.
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Tyrion
–Já não durmo como dormia quando era novo – disse-lhe o Grande Meistre Pycelle, em tom de desculpa pela reunião à alvorada. – Prefiro estar de pé, mesmo que o mundo esteja escuro, a deitar inquieto na cama, preocupado com tarefas a cumprir – ele disse, embora seus olhos de pálpebras pesadas fizessem-no parecer meio adormecido enquanto falava.
Nos arejados aposentos sob o viveiro de corvos, a criada lhes serviu ovos cozidos, ameixas em compota e mingau de aveia, enquanto Pycelle pontificava.
– Nestes tristes tempos, quando tantos passam fome, penso ser adequado que mantenha minha mesa frugal.
– Louvável – Tyrion admitiu, quebrando o grande ovo marrom que lhe lembrava muito a cabeça calva e manchada do Grande Meistre. – Eu adoto um ponto de vista diferente. Se há comida, eu como, para o caso de não haver nenhuma amanhã – sorriu. – Diga-me, seus corvos também são madrugadores?
Pycelle afagou a barba branca como a neve que caía pelo seu peito abaixo.
– Com certeza. Devo mandar buscar pena e tinta depois de comermos?
– Não há necessidade – Tyrion pousou as cartas na mesa ao lado do mingau, pergaminhos gêmeos bem enrolados e selados com cera em ambas as extremidades. – Mande sua moça embora para que possamos conversar.
– Deixe-nos, filha – Pycelle ordenou, e a criada apressou-se em sair da sala. – Então, essas cartas…
– São para os olhos de Doran Martell, Príncipe de Dorne – Tyrion tirou a casca rachada do ovo e deu uma mordida. Estava sem sal. – Uma carta, em duas cópias. Envie suas aves mais rápidas. O assunto é de grande importância.
– Vou enviá-las assim que quebrarmos o jejum.
– Envie-as já. Ameixas em compota podem esperar. O reino talvez não. Lorde Renly está trazendo sua tropa pela estrada das rosas, e ninguém sabe dizer quando Lorde Stannis zarpará de Pedra do Dragão.
Pycelle pestanejou.
– Se o senhor prefere…
– Prefiro.