O vento suspirou pelo aposento, e na lareira as chamas estremeceram e rodopiaram. Ouviu as toras crepitarem e soltarem fagulhas. Quando Davos saiu da janela, a sua sombra seguiu à sua frente, alta e esguia, e caiu sobre a Mesa Pintada como uma espada. E ali permaneceu durante muito tempo, à espera. Ouviu as botas deles nos degraus de pedra ao subirem. A voz do rei chegou antes do rei.
– ... não é três – estava Stannis dizendo.
– Três são três – foi a resposta de Melisandre. – Juro, Vossa Graça, eu vi-o morrer e ouvi os lamentos de sua mãe.
– Na fogueira noturna. – Stannis e Melisandre atravessaram juntos a porta. – As chamas estão cheias de truques. O que é, o que será, o que poderá ser. Não pode me dar a certeza...
– Vossa Graça. – Davos deu um passo adiante. – A Senhora Melisandre viu a verdade. Seu sobrinho Joffrey está morto.
O rei não mostrou sinal de surpresa por encontrá-lo junto da Mesa Pintada.
– Lorde Davos – disse. – Ele não era meu sobrinho. Embora eu tenha julgado durante anos que fosse.
– Sufocou com um pedaço de comida no seu banquete de casamento – disse Davos. – Pode ter sido envenenado.
– É o terceiro – disse Melisandre.
– Eu sei contar, mulher. – Stannis caminhou ao longo da mesa, passando por Vilavelha e pela Árvore, subindo na direção das Ilhas Escudo e da foz do Vago. – Os casamentos tornaram-se mais perigosos do que as batalhas, ao que parece. Quem foi o envenenador? Sabe-se?
– O tio, segundo se diz. O Duende.
Stannis rangeu os dentes.
– Um homem perigoso. Fiquei sabendo disso na Água Negra. Como lhe chegou esse relatório?
– Os lisenos ainda negociam em Porto Real. Salladhor Saan não tem motivos para mentir para mim.
– Suponho que não. – O rei percorreu a mesa com os dedos. – Joffrey... lembro-me de uma vez, uma gata de cozinha... os cozinheiros gostavam de lhe dar restos e cabeças de peixe. Um deles disse ao rapaz que ela tinha gatinhos na barriga, achando que ele poderia querer um. Joffrey abriu o pobre bicho com um punhal para ver se era verdade. Quando encontrou as crias, levou-as para mostrar ao pai. Robert bateu no garoto com tanta força que julguei que o tinha matado. – O rei tirou a coroa e pousou-a na mesa. – Anão ou sanguessuga, esse assassino prestou um serviço ao reino. Agora
– Não o farão – disse Melisandre. – Joffrey tem um irmão.
– Tommen. – O rei proferiu o nome de má vontade.
– Coroarão Tommen e governarão em seu nome.
Stannis cerrou o punho.
– Tommen é mais gentil do que Joffrey, mas nasceu do mesmo incesto. Outro monstro por se formar. Outra sanguessuga sobre a Terra. Westeros precisa de uma mão de homem, não de criança.
Melisandre aproximou-se.
– Salve-os, senhor. Permita-me que acorde os dragões de pedra. Três são três. Dê-me o garoto.
– Edric Storm – disse Davos.
Stannis virou-se para ele numa fúria fria.
–
– O senhor é quem tem de se erguer perante o Outro. Aquele cuja vinda foi profetizada há cinco mil anos. O cometa vermelho foi o seu arauto. O senhor é o príncipe que foi prometido, e se cair, o mundo cairá junto. – Melisandre aproximou-se dele, de lábios entreabertos, com o rubi a latejar. – Dê-me este garoto – sussurrou – e eu darei o seu reino.
– Ele não pode – disse Davos. – Edric Storm partiu.
– Partiu? – Stannis virou-se. – O que quer dizer com
– Está a bordo de uma galé lisena, em segurança no mar. – Davos observava o rosto pálido e em forma de coração de Melisandre. Viu aí o tremeluzir do desânimo, a súbita incerteza.
Os olhos do rei eram hematomas azul-escuros nos buracos de seu rosto.
– O bastardo foi levado de Pedra do Dragão sem a minha autorização? Uma galé, você diz? Se esse pirata liseno pensa em usar o garoto para me extorquir ouro...
– Isso é obra da sua Mão, senhor. – Melisandre lançou a Davos um olhar sabedor. – Vai trazê-lo de volta, senhor. Vai fazer isso.
– O garoto está fora do meu alcance – disse Davos. – E fora do seu também, senhora.
Os olhos vermelhos da mulher fizeram-no contorcer-se por dentro.
– Devia tê-lo deixado no escuro, sor. Sabe o que fez?
– O meu dever.
– Alguns chamariam de traição. – Stannis dirigiu-se à janela e fitou a noite.