– Acha que ele permitiria que você vestisse o negro se não fosse do seu sangue e de Joanna? Tywin parece-lhe um homem duro, bem sei, mas não é mais duro do que tem de ser. Nosso pai era gentil e amigável, mas tão fraco que os vassalos caçoavam dele quando estavam de porre. Alguns acharam por bem desafiá-lo abertamente. Outros senhores pediam-nos ouro emprestado e nunca se incomodavam em pagá-lo. Na corte, faziam piadas a respeito de leões sem dentes. Até a amante o roubou. Uma mulher que mal estava um passo acima de rameira, e meteu no bolso as joias de minha mãe! Coube a Tywin devolver a Casa Lannister ao lugar que lhe é próprio. Tal como coube a ele governar este reino, quando não tinha mais de vinte anos. Suportou esse pesado fardo durante vinte anos e tudo que lucrou com isso foi a inveja de um rei louco. Em vez das honrarias que merecia, foi obrigado a suportar um sem-fim de afrontas, e no entanto deu aos Sete Reinos paz, abundância e justiça. É um homem justo. Faria bem em confiar nele.

Tyrion pestanejou, espantado. Sor Kevan sempre havia sido sólido, imperturbável, pragmático; nunca antes o ouvira falar com tal fervor.

– Você o ama.

– É meu irmão.

– Eu... eu pensarei no que disse.

– Então pense cuidadosamente. E rapidamente.

Naquela noite, pensou em poucas outras coisas, mas ao chegar a manhã não estava mais perto de decidir se podia confiar no pai. Um criado trouxe-lhe mingau de aveia e mel para quebrar o jejum, mas o único sabor que sentiu foi o da bílis ao pensar na confissão. Vão me chamar de assassino de familiares até o fim dos meus dias. Durante mil anos ou mais, se eu for lembrado, será como o monstruoso anão que envenenou o jovem sobrinho em seu banquete de casamento. Aquela ideia deixou-o tão furioso que atirou a tigela e a colher na parede oposta, deixando nela uma mancha de mingau. Sor Addam Marbrand olhou-a com curiosidade quando veio escoltar Tyrion até o julgamento, mas teve a boa educação de não fazer perguntas.

– Lorde Varys – disse o arauto –, mestre dos segredos.

Empoada, enfeitada e cheirando a água de rosas, a Aranha levou todo o tempo que falou esfregando as mãos uma na outra. Lavando a minha vida, pensou Tyrion, enquanto escutava o fúnebre relato do eunuco sobre como o Duende maquinara afastar Joffrey da proteção de Cão de Caça e conversara com Bronn a respeito dos benefícios de ter Tommen como rei. Meias-verdades são mais valiosas do que completas mentiras. E, ao contrário dos outros, Varys tinha documentos; pergaminhos meticulosamente cheios de notas, detalhes, datas, conversas inteiras. Tanto material que a sua récita durou o dia inteiro, e muito dele era condenatório. Varys confirmou a visita noturna aos aposentos do Grande Meistre Pycelle e o roubo de seus venenos e poções, confirmou a ameaça que tinha feito a Cersei na noite em que jantaram juntos, confirmou tudo e mais alguma coisa, menos o envenenamento propriamente dito. Quando o Príncipe Oberyn lhe perguntou como era possível que soubesse tudo aquilo sem ter estado presente em nenhum daqueles acontecimentos, o eunuco limitou-se a soltar uma risadinha e disse:

– Os meus passarinhos contaram-me. Saber é a função deles, e a minha.

Como é que eu questiono um passarinho? pensou Tyrion. Devia ter mandado cortar a cabeça do eunuco no primeiro dia que passei em Porto Real. Maldito seja. E maldito seja eu por toda a confiança que depositei nele.

– Já ouvimos tudo? – perguntou Lorde Tywin à filha enquanto Varys saía da sala.

– Quase – disse Cersei. – Peço licença para trazer até vocês uma última testemunha, amanhã.

– Como quiser – disse Lorde Tywin.

Oh, ótimo, pensou Tyrion, furioso. Depois desta farsa de julgamento, a execução será quase um alívio.

Naquela noite, enquanto bebia junto à janela, ouviu vozes do lado de fora da porta. Sor Kevan veio atrás de minha resposta, pensou de imediato, mas não foi o tio quem entrou.

Tyrion ergueu-se para fazer uma reverência trocista ao Príncipe Oberyn.

– É permitido aos juízes visitar os acusados?

– É permitido aos príncipes ir aonde bem entenderem. Ou pelo menos foi isso que eu disse aos seus guardas. – O Víbora Vermelha sentou-se.

– Meu pai ficará descontente com o senhor.

– A felicidade de Lorde Tywin nunca esteve numa posição elevada em minha lista de interesses. É vinho de Dorne que está bebendo?

– Da Árvore.

Oberyn fez uma careta.

– Água vermelha. Envenenou o garoto?

– Não. E você?

O príncipe sorriu.

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