Naqueles tempos o mundo era mais simples, pensou Jaime, e tanto os homens como as espadas eram feitos de melhor aço. Ou seria apenas por ter então seus quinze anos? Agora estavam todos nas respectivas tumbas, o Espada da Manhã e o Cavaleiro Sorridente, o Touro Branco e o Príncipe Lewyn, Sor Oswell Whent e seu humor negro, o zeloso Jon Darry, Simon Toyne e a sua Irmandade da Mata de Rei, o velho e brusco Sumner Crakehall. E eu, aquele rapaz que era... quando será que ele morreu, pergunto-me. Quando pus o manto branco? Quando abri a goela de Aerys? Aquele rapaz queria ser Sor Arthur Dayne, mas em algum ponto ao longo do caminho transformou-se no Cavaleiro Sorridente.

Quando ouviu a porta abrir, fechou o Livro Branco e levantou-se para receber seus Irmãos Juramentados. Sor Osmund Kettleblack foi o primeiro a chegar. Ofereceu a Jaime um sorriso, como se fossem velhos irmãos de armas.

– Sor Jaime – disse –, se tivesse esse aspecto na outra noite, o teria reconhecido de imediato.

– Ah, sim? – Jaime duvidava. Os criados tinham lhe dado banho, barbeado e lavado e escovado seus cabelos. Quando olhava para o espelho, já não via o homem que atravessara as terras fluviais com Brienne... mas também não via a si mesmo. O rosto estava magro e encovado e tinha rugas sob os olhos. Pareço um velho qualquer. – Vá para junto de seu lugar, sor.

Kettleblack obedeceu. Os outros Irmãos Juramentados foram entrando um por um.

– Sores – disse Jaime num tom formal depois de se reunirem todos os cinco –, quem guarda o rei?

– Os meus irmãos Sor Osney e Sor Osfryd – respondeu Sor Osmund.

– E o meu irmão Sor Garlan – disse o Cavaleiro das Flores.

– Vão mantê-lo a salvo?

– Sim, senhor.

– Então sentem-se. – As palavras eram rituais. Antes dos sete poderem se reunir, era necessário assegurar a segurança do rei.

Sor Boros e Sor Meryn sentaram-se à sua direita, deixando uma cadeira vazia entre ambos para Sor Arys Oakheart, que se encontrava em Dorne. Sor Osmund, Sor Balon e Sor Loras ocuparam as cadeiras de sua esquerda. Os velhos e os novos. Jaime perguntou a si mesmo se aquilo poderia querer dizer alguma coisa. Tinha havido momentos durante a sua história em que a Guarda Real tinha se dividido contra si própria, e a mais notável e amarga dessas ocasiões fora durante a Dança dos Dragões. Seria isso algo que também teria de temer?

Parecia-lhe estranho sentar-se no lugar do Senhor Comandante, onde Barristan, o Ousado, se sentara durante tantos anos. E ainda mais estranho é me sentar aqui mutilado. Fosse como fosse, era o seu lugar, e agora aquela era a sua Guarda Real. Os sete de Tommen.

Jaime tinha servido durante anos com Meryn Trant e Boros Blount; lutadores capazes, mas Trant era dissimulado e cruel, e Blount, um saco de ar rosnador. Sor Balon Swann era mais digno de seu manto, e claro que o Cavaleiro das Flores era supostamente tudo que um cavaleiro devia ser. O quinto homem, aquele Osmund Kettleblack, era um estranho para ele.

Perguntou a si mesmo o que Sor Arthur Dayne teria a dizer daquele grupo. “Como foi que a Guarda Real caiu tão baixo?”, provavelmente. “Foi obra minha”, eu teria de responder. “Eu abri a porta, e nada fiz quando a ralé começou a entrar.”

– O rei está morto – começou Jaime. – O filho de minha irmã, um rapaz de treze anos, assassinado em seu próprio banquete de casamento, em seu próprio salão. Todos os cinco de vocês se encontravam presentes. Todos os cinco estavam a protegê-lo. E no entanto ele está morto. – Esperou para ver o que eles responderiam àquilo, mas nenhum chegou sequer a pigarrear. O rapaz Tyrell está zangado, e Balon Swann, envergonhado, notou. Nos outros três Jaime sentiu apenas indiferença. – Foi o meu irmão que fez isso? – perguntou-lhes sem rodeios. – Tyrion envenenou o meu sobrinho?

Sor Balon mexeu-se desconfortavelmente na cadeira. Sor Boros cerrou um punho. Sor Osmund deu de ombros indolentemente. Foi Meryn Trant quem acabou por responder.

– Ele encheu a taça de Joffrey de vinho. Deve ter sido então que despejou lá o veneno.

– Tem certeza de que era o vinho que estava envenenado?

– O que mais poderia ser? – disse Sor Boros Blount. – O Duende despejou os sedimentos no chão. Por quê, se não para se livrar do vinho que poderia ter provado a sua culpa?

– Ele sabia que o vinho estava envenenado – disse Sor Meryn.

Sor Balon Swann franziu a testa.

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