André olhou, os raios do sol se refletindo no anel de sinete de ouro que sempre usava. Os caracteres não se relacionavam com qualquer coisa que ele conhecia.

— Desculpe, mas nada significam para mim, nem mesmo parecem chineses... chineses ou japoneses, a escrita é a mesma.

Ele teve uma idéia súbita, virou o papel e ficou boquiaberto.

Tokaidô... é esse o significado! — A cor se esvaiu do rosto de Angelique enquanto André acrescentava: — Copiou ao contrário. Tokaidô junta tudo. Ele queria que você soubesse, que toda a colônia soubesse, o que teria acontecido se contasse a alguém o que ocorreu. Mas por quê?

Tremendo toda, ela levou os dedos às têmporas.

— Não sei. Talvez... não sei. Ele deve estar morto a esta altura. Monsieur Struan acertou-lhe um tiro. Ele já deve ter morrido.

André hesitou, apreensivo, avaliando as razões contra e a favor.

— Já que partilhamos tantos segredos, e é evidente que você sabe como guardá-los, creio que outro se torna necessário agora.

Ele falou sobre Hoag e a operação, arrematando:

— Não foi culpa de Hoag, que não tinha como saber. É irônico, os nossos médicos aconselharem a não se contar nada a você, para poupá-la de mais angústias.

— É por causa de Babcott e seu opiato que me encontro nesta situação — murmurou Angelique, a voz assustando-o. — Quer dizer que o homem está vivo?

— Não sabemos. Hoag disse que ele não tinha muita chance. Mas por que aquele demônio queria que seu crime fosse conhecido, Angelique?

— Há outros segredos sobre esse horror que você conheça e eu ainda ignore?

— Não. Por que ele queria que todos soubessem? Bravata?

Angelique contemplou por um longo momento os caracteres que desenhara. Imóvel, a não ser pelos seios, que subiam e desciam com a regularidade da respiração. Depois, sem dizer mais nada, ela saiu. Fechou a porta sem fazer barulho.

André balançou a cabeça, espantado, olhando para o papel.

Tyrer estava no pequeno bangalô ao lado da legação britânica, que partilhava com Babcott, praticando caligrafia com Nakama, o nome pelo qual conhecia Hiraga.

— Por favor, dê-me o japonês para: hoje, amanhã, o dia seguinte, a próxima semana, o próximo ano, os dias da semana e os meses do ano.

— Sim, Taira-san.

Com todo cuidado, Hiraga disse uma palavra japonesa, observou Tyrer escrevê-la, foneticamente, em letras romanas. Depois, Hiraga escreveu os caracteres no espaço ao lado, e tornou a observar, enquanto Tyrer os copiava.

— Você bom aluno. Sempre usa mesma ordem para traços, fácil, assim não esquecer.

— Estou começando a compreender. Obrigado. Você tem sido de grande ajuda.

Tyrer sentia-se satisfeito, gostava de escrever, ler e aprender... e ensinava em troca, notando que Nakama era muito inteligente, absorvia tudo bem depressa. Trabalhou toda a lista com ele e disse, ao final:

— Ótimo. Obrigado. Agora, por favor, procure Raiko-san e confirme meu encontro para amanhã.

— Confirme, por favor?

— Pergunte se meu encontro é certo.

— Ah, entender. — Hiraga coçou o queixo, já escuro da barba da noite para o dia. — Eu ir agora, confirmar.

— Voltarei depois do almoço. Por favor, esteja aqui, para podermos praticar mais conversação. Quero que me fale mais coisas sobre o Japão. Como se diz isso em japonês?

Hiraga pronunciou as palavras. Tyrer anotou-as foneticamente num caderno, agora repleto de palavras e frases, repetiu-as várias vezes, até se sentir satisfeito. Já ia dispensar Nakama quando se lembrou de uma coisa:

— O que é um roninl

Hiraga pensou por um momento, depois explicou da maneira mais simples que podia. Mas não disse nada sobre os shishi

— Quer dizer que você é um ronin, um proscrito?

Hai.

Pensativo, Tyrer agradeceu e deixou-o ir embora. Reprimiu um bocejo. Dormira mal à noite passada, seu mundo ao avesso com a inesperada rejeita de Raiko.

Que se dane Raiko, que se dane Fujiko, pensou ele, pondo a cartola, a fim de descer a High Street para um almoço leve no clube. Que se dane o aprendizado de japonês, que se dane tudo, minha cabeça dói, e nunca, mas nunca mesmo aprenderei essa língua horrivelmente complicada.

— Não seja ridículo! — disse ele, em voz alta.

Claro que vai aprender, conta com Nakama e André, dois bons mestres, e esta noite terá um excelente jantar, uma garrafa de champanhe, com alguém alegre e depois para a cama. E não censure Fujiko, pois em breve dormirei com ela de novo Oh, Deus, espero que sim!

O dia era agradável e a baía se encontrava apinhada de navios. Os mercadores convergiam para o clube.

— Olá, André. É um prazer vê-lo. Quer almoçar comigo?

— Não, obrigado.

Poncin nem parou.

— Qual é o problema? Você está bem?

— Não há problema nenhum. Vamos deixar para outra ocasião?

— Que tal amanhã?

André não costumava ser tão brusco.

— E eu queria lhe perguntar o que devo...

— Almoçarei com você, Phillip, se me permitir — disse McFay.

— Claro, Jamie. Parece de ressaca, meu caro.

— E estou mesmo. Você também parece. Foi uma festa e tanto.

— É verdade. Como está Malcolm?

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