Yoshi estava alerta, era bem treinado, notou o lapso e registrou-o para uso futuro, satisfeito por tê-lo percebido em seu inimigo.

— Eles não farão, pelo menos ainda não. Vão adiar, esbravejar, lamentar, e nunca nos ajudarão a acabar com Satsuma. Não têm coragem.

— Se não agora, quando?

A fúria de Anjo se dissipara, diluída pelo medo e a aversão a terremotos. Testemunhara um dos piores quando era pequeno, o pai se transformara numa tocha viva, a mãe e dois irmãos viraram carvão diante de seus olhos. Desde então, mesmo ao menor terremoto, revivia aquele dia, sentia o cheiro da carne queimando, ouvia os gritos.

— Temos de humilhar aquele cão, mais cedo ou mais tarde. Por que não agora?

— Porque temos de esperar até ficarmos melhor armados. Eles... Satsuma, Tosa e Choshu... possuem umas poucas armas modernas, canhões e fuzis, não Sabemos em que quantidade. E diversos barcos a vapor.

— Vendidos pelos gai-jin, contra a vontade do xogunato!

— Comprados por eles por causa de fraquezas anteriores. Anjo ficou vermelho.

— Não sou responsável por isso!

— Nem eu! — Os dedos de Yoshi se contraíram no cabo da espada. Aqueles feudos são mais bem armados do que nós, qualquer que seja o motivo. Assim, por mais lamentável que seja, temos de esperar. O fruto de Satsuma ainda não apodreceu o suficiente para que arrisquemos uma guerra que não podemos vencer. Estamos isolados, o que já não acontece com Sanjiro.

Yoshi fez uma pausa, e a voz saiu mais incisiva quando acrescentou:

— Mas concordo que em breve teremos de fazer um acerto de contas.

— Amanhã pedirei ao Conselho para emitir a ordem.

— Pelo bem do xogunato, seu e de todos os clãs de Toranaga, espero que os outros me escutem!

— Veremos o que acontece amanhã... a cabeça de Sanjiro deve ser espetada na ponta de um chuço e exibida como um exemplo para todos os traidores.

— Concordo que Sanjiro deve ter ordenado a morte na Tokaidô só para nos embaraçar — disse Yoshi.— Era inevitável que os gai-jin se enfurecessem. Nossa única solução é ganhar tempo, pois a missão à Europa deve voltar a qualquer dia agora e nossos problemas vão acabar.

Oito meses antes, em janeiro, o xogunato enviara a primeira delegação oficial do Japão, num navio a vapor, para a América e Europa, com ordens secretas para renegociar os tratados — o roju considerava-os “acordos experimentais não autorizados” — com os governos britânico, francês e americano, e cancelar ou adiar a abertura de novos portos.

— Suas ordens eram expressas — acrescentou Yoshi. — A esta altura, os tratados já devem ter sido revogados.

Anjo declarou, num tom sinistro:

— Ou seja, se não a guerra, você pelo menos concorda que chegou o momento de despachar Sanjiro.

O homem mais jovem era cauteloso demais para concordar abertamente, e se perguntou o que Anjo pensava em fazer ou já planejara. Ele ajeitou as espadas de uma maneira mais confortável e fingiu considerar a questão, descobrindo que muito lhe agradava a sua nova função. Mais uma vez, estou no centro do poder. É verdade que Sanjiro me ajudou a chegar aqui, mas apenas por causa de seus infames propósitos: queria me destruir, apontando-me publicamente como o responsável por todos os problemas que esses malditos gai-jin nos trouxeram, e assim me tornando um dos alvos principais dos miseráveis shishi... na tentativa de usurpar nossos direitos hereditários, nossa riqueza e o xogunato.

Mas nada importa. Estou a par do que ele e seu cão sarnento, Katsumata, planejam, quais são suas verdadeiras intenções contra nós, as de Tosa e Choshu. Ele não terá êxito, juro por meus ancestrais.

— Como pretende eliminar Sanjiro?

A expressão de Anjo se tornou sombria, ao recordar sua última e violenta discussão com o daimio de Satsuma, apenas uns poucos dias antes.

Anjo — dissera Sanjiro, autoritário — obedeça às ordens do imperador. — Convoque imediatamente uma reunião de todos os daimios, peça-lhes com toda vontade para formarem um conselho permanente, que vai aconselhar, reformar com o xogunato, revogue os infames e não autorizados acordos com os gai-jin, certifique-se que todos os portos sejam fechados aos Sai-jin, e se eles não quiserem ir embora, expulse-os sem a menor hesitação!

— Devo lembrá-lo de que é direito exclusivo do xogunato determinar a política externa, qualquer política, não do imperador, muito menos sua! — Ponderara Anjo, odiando Sanjiro por sua linhagem, suas legiões, suas riquezas, boa saúde abundante e óbvia. — Ambos sabemos que você o enganou. As sugestões são ridículas e inviáveis. Temos mantido a paz por dois séculos e meio...

— pelo engrandecimento de Toranaga. Se se recusa a obedecer a seu legítimo suserano, o imperador, então deve renunciar ou cometer seppuku. Você escolhe um menino para ser o xógum, aquele traidor Tairo Li assinou os “tratados”... é responsabilidade do Bakufu a presença dos gai-jin aqui, responsabilidade de Toranaga.

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