— Pelo mesmo correio, enviei uma mensagem urgente ao governador de Hong Kong, comunicando o que planejava fazer, e indagando que reforços de navios e homens estariam disponíveis, em caso de necessidade. Também perguntei pelo estado de saúde do Sr. Struan.

— É mesmo? Quando despachou essa mensagem, Sir William?

— Ontem. A Struan tinha um clíper disponível e o Sr. McFay concordou que o problema exigia toda urgência possível.

Ketterer comentou, em tom cáustico:

— Todo esse incidente parecer ser uma causa célebre da Struan. O homem assassinado mal é mencionado, só ouço falar em Struan, Struan, Struan.

— O governador é amigo pessoal da família, e a família... hum... é muito bem relacionada, muito importante para os interesses comerciais de sua majestade na Ásia e na China.

— Sempre achei que não passavam de um bando de piratas, contrabandeando armas e ópio, qualquer coisa pelo lucro.

— As duas coisas são legais, meu caro almirante. A Struan é altamente respeitável, almirante, com ligações muito importantes no Parlamento.

O almirante não se mostrou impressionado.

— Há muita gente que não presta ali, se não se importa que eu o diga. Uns idiotas, durante a maior do tempo tentando cortar as verbas da marinha, reduzir nossas esquadras... uma estupidez, já que a Inglaterra depende do poder marítimo.

— Concordo que precisamos da melhor marinha, com os oficiais mais competentes, para executar a política imperial — declarou Sir William.

Marlowe, perto do almirante, percebeu a farpa mal disfarçada. Um rápido olhar para a nuca do seu superior confirmou que a farpa fora registrada. Ele se preparou para o inevitável.

— Política imperial? — repetiu o almirante. — Parece-me que a marinha passa a maior parte do seu tempo livrando civis e mercadores de enrascadas, quando sua ganância e hipocrisia os levam a situações em que nunca deveriam se meter, em primeiro lugar. Quanto aos bastardos ali... — o dedo grosso apontou para Iocoama, a bombordo. — ...são os piores canalhas que já conheci.

— Alguns são, a maioria não, almirante. — Sir William empinou o queixo. — Sem mercadores, sem comércio, não haveria dinheiro, nem império, nem marinha.

O pescoço vermelho se tornou púrpura.

— Sem a marinha não haveria comércio e a Inglaterra não teria se tornado a maior nação do mundo, a mais rica, com o maior império que o mundo já conheceu!

“Isso é besteira”, Sir William teve vontade de gritar, mas sabia que se o fizesse ali, no tombadilho superior da nave capitânia, o almirante teria um ataque apoplético. Marlowe e todos os marujos nas proximidades ficariam furiosos. O pensamento divertiu-o e removeu a maior parte do veneno que as noites insones pelo incidente na Tokaidô haviam causado, permitindo-lhe ser diplomático.

— A Marinha é a força principal, almirante, e muitos partilham sua opinião. Posso supor que chegaremos no prazo previsto?

— Claro que chegaremos.

O almirante relaxou os ombros, um tanto apaziguado, com dor de cabeça devido à garrafa de porto que consumira depois do jantar, somando-se à de clarete.

O navio desenvolvia uma velocidade de cerca de sete nós, contra o vento, o que o retardava. Ele verificou a disposição da esquadra. Agora a H.M.S. Pearl se mantinha bem na popa, com as chalupas de roda, cada uma equipada com dez canhões, a bombordo. A nave capitânia francesa, uma fragata de três mastros, toda revestida de ferro, vinte canhões, navegava descuidadamente a boreste.

— O timoneiro deles devia ser posto a ferros! Aquele navio precisa de uma nova camada de tinta, um novo massame, uma fumigação para acabar com o cheiro de alho, uma boa esfregada nos conveses e um severo castigo para toda a tripulação. Não concorda, Sr. Marlowe?

— Claro que concordo, senhor.

Depois de se certificar de que tudo estava correto, o almirante tornou a se virar para Sir William.

— Essa família Struan e sua Casa Nobre são mesmo tão importantes assim?

— São sim. O comércio que promovem é enorme, sua influência na Ásia, em particular na China, não tem comparação, exceto pela Brock & Sons.

— Conheço os clíperes que eles usam. São bem construídos e muito bem armados. — Uma pausa e o almirante acrescentou, abruptamente: — Por Deus, espero que não tentem negociar ópio ou armas de fogo aqui.

— Pessoalmente, eu concordo, embora não seja contra a atual lei.

— Mas é ilegal, pela lei chinesa. Ou pela japonesa.

— Tem razão, mas há circunstâncias atenuantes — disse Sir William, cansado, pois já dera aquela explicação dezenas de vezes.— Tenho certeza de que sabe que os chineses só aceitam pagamento à vista, em prata ou ouro, pelo chá que precisamos importar, nada mais. Por outro lado, a única mercadoria pela qual Pagam à vista, em prata ou ouro, é o ópio. Uma situação lamentável.

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