Sir William, quando ler esta carta, eu já estarei morto. O que existe aqui só deve ser usado se eu sofrer uma morte violenta. Confesso que usei meu conhecimento para arrancar dinheiro de Angelique, isso mesmo, fiz chantagem, se quiser usar essa palavra, mas também a chantagem é um instrumento diplomático, que você também tem usado, como todos nós. Eu lhe passo estas informações porque posso ter sido assassinado ou talvez minha morte tenha parecido acidental, mas não foi necessariamente assim e, sim, provocada por ela ou com sua ajuda — outra verdade é a de que não seriam poucos os que cometeriam assassinato por ela (Babcott, McFay, Gornt) —, porque meu conhecimento e participação em seus... “crimes “ é uma palavra forte demais... em suas manipulações me transformam num alvo.

Estas páginas apresentam os indícios para pegar a pessoa que me matou e atribuir a culpa à responsável suprema. Não guardo qualquer ressentimento contra Angelique, eu a usei quando precisava, embora nunca tenha ido para a cama com ela. Minha morte pode parecer acidental, mas talvez não seja. Se assim for, muito bem, já fiz minha confissão (embora não tenha revelado nada disso ao padre Leo) e partirei para a maior aventura — tão impuro quanto a maioria, talvez mais do que a maioria, que Deus me ajude.

Por que tenho de entregar isto a você, e não a Henri? Por quê?

A assinatura era firme.

— Por que eu? — murmurou Sir William. — E como é possível que aquela moça fosse capaz de esconder tudo isso por tanto tempo, esconder de Malcolm Struan? E de George e de Hoag? Impossível, certamente impossível, André deve ter perdido o juízo... e, no entanto...

Além da carta do pai — e mesmo esta, fora do contexto, poderia ser um exagero da verdade —, o resto é apenas opinião de André, a menos que ela seja pressionada e confesse. Estas histórias poderiam ser invenções de uma mente demente. Claro que ele também a queria, não foram poucas as ocasiões em que todos notamos a maneira libidinosa como André a contemplava e ainda houve aquele estranho incidente, quando Vervene o encontrou no quarto de Angelique. E é bastante curioso que ele tenha usado a palavra “impuro” desse jeito, quando de fato o era, o pobre coitado.

Sir William estremeceu. Seratard lhe contara o segredo de André. A sífilis era endêmica em todas as camadas da sociedade, em todas as cidades e aldeias, em São Petersburgo, Londres e Paris, nos palácios e nas habitações mais vis da Casbá, podia espreitar de qualquer bordel, de qualquer dama da noite, na China ou em nosso mundo flutuante aqui.

Ah, André, por que me entregar tudo isso? É curioso que tenha morrido como morreu, de mãos dadas com a moça que comprou para destruir. Que coisa terrível! Só que ela teve uma opção, como somos levados a acreditar. Sua morte foi um acidente. Foi mesmo? Henri não tem certeza.

— É tudo muito estranho, William — dissera-lhe Henri naquela manhã.__

Os corpos... seria mais acurado falar esqueletos... davam a impressão de mortos antes do fogo chegar, sem qualquer sinal de que tentaram escapar. Apenas se encontravam estendidos lado a lado, de mãos dadas. E isso me espanta. Apesar de todos os seus defeitos, André era um sobrevivente, e num incêndio o instinto é tentar escapar, não continuar deitado, sem fazer nada. Seria impossível.

— Então qual é a resposta?

— Não sei. Pode ter sido um pacto de suicídio, consumado antes do incêndio. Veneno, nada mais se ajustaria. É verdade que ultimamente André se mostrava mórbido, ao ponto da insanidade, e precisava muito de dinheiro para pagar o contrato da mulher. Tirando isso, André um suicida? Acredita nessa possibilidade?

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