Tyrer inclinou-se e contou sobre o ultimato.

— Por Deus, não é de admirar! Mas que desfaçatez! Na verdade, até que é bom, pois agora teremos alguma ação. Todo esse suspense só serve para irritar o general, junto com suas hemorróidas.

Ele riu, mais de nervosismo do que pelo gracejo antigo. Nesse momento, Hoag chegou ao cais, ofegante, ainda usando a sobrecasaca de operar, as mangas e o peito rígidos de sangue ressequido, cartola na cabeça, carregando valises e pacotes.

— Pensei que tinha me atrasado. Qual é a graça?

— Tem bastante tempo — disse Tyrer.

E ele especulou, assim como Pallidar, o que haveria na carta de Angelique, cuja assinatura Sir William testemunhara, e que Hoag levaria para Hong Kong. Todos sabiam apenas que era uma resposta à carta, também ainda um mistério, entregue a Angelique quando Hoag tivera a certeza de que ela não esperava uma criança de Malcolm. Desde o primeiro dia do retorno de Hoag, as linhas gerais do ultimato de Tess eram do conhecimento geral e tema de acalorados debates particulares.

— Espero que faça uma boa viagem. Viajará para a índia em seguida, não é?

— Isso mesmo. Estarei lá no mês que vem. — O rosto feio desmanchou-se num sorriso. — Mal posso esperar. Podem ir me visitar. Garanto que vão adorar.

Pallidar disse:

— A Índia é meu próximo posto. Acabo de ser informado. A fronteira, Hindu Kush, passo Khyber.

Embora falasse em tom jovial, Pallidar odiara secretamente a perspectiva. Havia mortes demais naquele inferno, uma bala disparada do nada, uma adaga surgindo no meio da noite, poços envenenados, nenhuma glória ali, apenas violência e morte, tentar permanecer vivo naquela paisagem rochosa e árida, onde nada vicejava, a não ser a morte. E, no entanto, era um lugar vital para o império, pois passava por ali a rota histórica de invasão da índia britânica, por hordas mongóis, persas ou russas. Uma terrível premonição o dominou e ele não pôde resistir à tentação de acrescentar:

— Não há sepultamentos no mar ali, doutor.

— Não, nenhum, absolutamente nenhum — respondeu Hoag, interpretando errado o comentário. Depois, ele passou o braço pelos ombros de Pallidar, num gesto afetuoso. — Você é um bom sujeito, Settry. Se eu puder ajudá-lo na índia, será fácil me encontrar. Vai adorar aquilo lá. Boa sorte.

Ele se afastou, para cumprimentar Gornt e Angelique.

— O que foi? — indagou Tyrer, tendo notado a súbita mudança em Pallidar, O oficial deu de ombros, irritado com sua ansiedade e lapso, experimentando abrupta inveja de Hoag.

— O doutor Hoag me disse que não gosta de sepultamentos no mar e que se sentiu contente por perder o de Malcolm em Hong Kong.

Ele exibiu um sorriso irônico. Depois de relatar a Sir William o estranho comportamento de Hoag com os caixões, em Kanagawa, testemunhado pelo sargento, e de receber instruções e jurar segredo, Pallidar, sem ser observado, efetuara a troca de posição dos caixões, depois de examiná-los. Não havia qualquer diferença entre eles, ao que pudesse perceber. Assim, o caixão enviado para Hong Kong, a bordo do Prancing Cloud, continha o corpo de Malcolm, enquanto o outro. o que Hoag, Angelique, Jamie e Skye haviam sepultado, era o do aldeão, como Sir William ordenara.

— É uma pena que Malcolm tenha morrido — murmurou ele, a voz rouca. — A vida é curiosa, não acha? Nunca se sabe quando vai acontecer.

Tyrer acenou com a cabeça. A depressão de Pallidar era insólita. Gostando dele, Tyrer baixou sua guarda.

— Qual é o problema, meu velho?

— Não há nenhum. Você teve muita sorte ontem à noite, conseguindo escapar...

Sombras passaram pelo rosto de Tyrer e Pallidar censurou a si mesmo por sua estupidez.

— Desculpe, Phillip. Não tinha a intenção de transtorná-lo. Não sei o que acontece comigo esta noite.

— Já soube de... de...

Nem por sua própria vida, Tyrer seria capaz de dizer o nome de Fujiko, sua dor ainda intensa, empurrando-o para profundezas insondáveis, em que nunca estivera antes. Sua boca disse, enquanto ele tentava se mostrar bravo:

— Quando acontece uma coisa assim, tão terrível, meu velho costumava dizer... Tive uma irmã que pegou sarampo e morreu aos sete anos de idade, uma menina linda, que todos nós amávamos... Meu velho sempre dizia: “Essas coisas nos são enviadas para nos testar. Você chora e chora e depois... depois se recupera, diz que foi a vontade de Deus e tenta não odiá-lo.

Ele sentiu as lágrimas escorrendo pelas faces e não se importou. Os pés o levaram para a praia e ali, sozinho com as ondas, o céu e a noite, pensou de fato em Fujiko, lembrou-a com toda a sua paixão e, em seguida, a guardou numa pequena caixa, que pôs ao lado de seu coração.

A bordo do Atlanta Belle, o capitão Twomast estava dizendo:

— Muito bem, Jamie, deixarei que eles viajem, independente do que a Sra. Struan decidiu. Mas você a conhece, sabe que ela não é dada a generosidades.

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