— Só quero o melhor para ele — acrescentou Angelique, e depois indagou, pois precisava saber: — Por quanto tempo ele ficará assim?

— Confinado à cama e praticamente impotente?

— Isso mesmo. Por favor, diga-me a verdade.

— Não sei. Duas ou três semanas no mínimo, talvez mais, e depois disso ainda não terá mobilidade por um ou dois meses. — Ele fitou o homem inerte por um momento. — Prefiro que não lhe diga nada disso. Só serviria para preocupá-lo, sem necessidade.

Angelique balançou a cabeça, contente e tranqüila agora, com tudo ajustado.

— Não se preocupe. Não direi nada. Rezo para que ele se recupere depressa, e prometo que ajudarei por todos os meios ao meu alcance.

Ao deixá-la, o Dr. Babcott pensava: Por Deus, que mulher maravilhosa! Quer Struan viva ou morra, é um homem afortunado por ser tão amado assim.

9

A salva de vinte e um tiros de canhão, disparada pelos seis navios de guerra, ancorados ao largo de Iedo, acompanhando a nave capitânia, ressoou interminável. Todo o pessoal na esquadra sentia-se excitado, orgulhoso de seu poderio, e porque chegara o momento para a retaliação.

— Não será preciso mais nada além disso, Sir William — exultou Phillip Tyrer, parado ao lado dele, na amurada, inebriado pelo cheiro de cordite.

A cidade era vasta. Silenciosa. O castelo dominante.

— É o que veremos.

Na ponte de comando da nave capitânia, o almirante disse ao general:

— Isso deve convencê-lo de que nosso Pequeno Willie não passa de um presunçoso com mania de grandeza. E que se dane a saudação real. É melhor tomarmos cuidado com a nossa retaguarda.

— Tem toda razão. Acrescentarei isso ao meu relatório mensal para o Ministério da Guerra.

No convés da nave capitânia francesa, Henri Seratard fumava seu cachimbo, e ria junto com o ministro russo.

Mon Dieu, meu caro conde, este é um dia feliz! A honra da França será vingada pela arrogância inglesa habitual. É inevitável o fracasso de Sir William. A pérfida Albion se mostra mais pérfida do que nunca.

— E verdade. Só é lamentável que seja a esquadra deles, e não a nossa.

— Mas muito em breve a sua esquadra e a nossa irão substituí-los.

— É verdade. Quer dizer que nosso acordo secreto está confirmado? Depois que os ingleses partirem, nós ficamos com a ilha Norte do Japão, mais Sakhalin, Kurilas e as ilhas que se estendem até o Alasca russo... e o resto é da França.

- Isso mesmo. Assim que Paris receber meu memorando, tenho certeza de que Será ratificado, secretamente, pelos mais altos escalões. — Seratard sorriu. — ainda existe um vácuo, é nosso dever diplomático preenchê-lo...

Com certeza um medo profundo espalhou-se por Iedo. Todos os moradores restantes se juntaram às massas que atulhavam cada rua, estrada e ponte, fugindo com os poucos bens que podiam carregar — sem o uso de rodas em parte alguma, é claro —, cada um esperando que a qualquer momento as granadas e foguetes de que haviam ouvido falar, mas sem jamais terem visto, chovessem sobre a cidade, que pegaria fogo, matando seus habitantes.

— Morte aos gai-jin! — era um grito que se ouvia a todo instante.

— Depressa!

— Saiam da frente!

— Depressa!

O pânico era geral, umas poucas pessoas eram pisoteadas ou empurradas do alto das pontes, a maioria continuava a seguir em frente, estoicamente... mas sempre para longe do mar.

— Morte aos gai-jin! — gritavam os japoneses, enquanto fugiam.

O êxodo começara naquela manhã, embora no momento em que a esquadra levantara âncora da enseada de Iocoama, três dias antes, os mercadores mais prudentes já tivessem contratado os melhores carregadores e deixado a cidade com suas famílias e seus bens mais valiosos, logo depois que os rumores sobre o lamentável incidente — e os consequentes protestos e exigências dos estrangeiros — espalharam-se por toda parte.

Só permaneceram em seus postos os samurais no castelo e os que guarneciam as defesas externas. E, como sempre, por toda parte, os abutres das ruas, animais e humanos, que espreitavam e farejavam as casas sem trancas, à procura do que podia ser roubado e mais tarde vendido. Bem pouco era roubado. O Saquê era considerado um crime hediondo, e desde tempos imemoriais que os culpados eram implacavelmente perseguidos, até serem apanhados e depois crucificados. Qualquer forma de roubo era punida da mesma maneira.

Dentro do castelo, o xógum Nobusada e a princesa Yazu tremiam de medo por trás de um frágil biombo, abraçados, seus guardas, criados e cortesãos prontos para a partida imediata, só aguardando a permissão do guardião para irem embora. Por todo o castelo, homens aprontavam as defesas, outros arreavam cavalos, empacotavam os bens mais valiosos dos anciãos para a evacuação, no instante em que o bombardeio começasse, ou o conselho recebesse o aviso de que as tropas haviam desembarcado.

Na câmara do conselho, numa reunião dos anciãos, convocada às pressas, Yoshi estava dizendo:

— Repito, não acredito que eles nos ataquem à força ou...

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