– Muito bem. Mas o bilhete pode ter sido escrito na segunda-feira e posto no correio só hoje.
– Isso pode ser.
– Se for assim, muita coisa pode ter acontecido de lá para cá.
– Oh, o senhor não deve me desanimar, sr. Holmes. Sei que está tudo bem com ele. Há uma compreensão tão grande entre nós que eu saberia se algum mal tivesse acontecido. No mesmo dia em que o vi pela última vez ele se cortou no quarto e, embora eu estivesse na sala de jantar, fui correndo lá para cima, pois tive certeza de que havia acontecido alguma coisa. Então acha que eu teria essa reação por uma coisa tão insignificante e iria ignorar sua morte?
– Minha experiência é grande demais para negar que a impressão de uma mulher pode ser mais valiosa que as conclusões de um raciocinador analítico. E esse bilhete realmente é uma prova muito forte para sustentar sua opinião. Mas se seu marido está vivo e pode escrever cartas, por que tem de ficar longe da senhora?
– Não posso imaginar o motivo.
– E na segunda-feira não disse nada antes de sair?
– Não.
– E a senhora ficou surpresa de vê-lo em Swandam Lane?
– Muito.
– A janela estava aberta?
– Sim.
– Então ele podia ter chamado a senhora?
– Podia.
– No entanto, pelo que entendi, só deu um grito indistinto?
– Sim.
– Um pedido de socorro, foi o que a senhora pensou?
– Sim. E acenou com as mãos.
– Mas poderia ter sido um grito de espanto. A surpresa de ver a senhora inesperadamente poderia tê-lo feito erguer as mãos.
– É possível.
– E a senhora acha que ele foi puxado para trás?
– Ele desapareceu tão de repente.
– Poderia ter saltado para trás. A senhora não viu mais ninguém no quarto?
– Não, mas aquele homem horrível confessou que estava lá, e o eurasiano estava ao pé da escada.
– Exatamente. Seu marido, pelo que pôde ver, vestia suas roupas comuns?
– Sim, mas sem o colarinho e a gravata. Vi nitidamente a camisa aberta no pescoço.
– Ele já havia falado algum dia em Swandam Lane?
– Nunca.
– Mostrou alguma vez sinais de ter tomado ópio?
– Nunca.
– Muito obrigado, sra. St. Clair. Eram estes os pontos principais que eu queria esclarecer. Vamos agora comer alguma coisa e depois nos recolher, porque amanhã poderemos ter um dia muito ocupado.
Um quarto amplo e confortável com duas camas havia sido posto à nossa disposição e fui logo para a cama, pois estava cansado depois dessa noite de aventuras. Sherlock Holmes, entretanto, era um homem que, quando tinha um problema a resolver, podia passar dias, até uma semana, sem descansar, pensando, analisando e reordenando os fatos, examinando-os sob todos os aspectos, até chegar a uma solução ou convencer-se de que não tinha dados suficientes. Era evidente que estava se preparando para ficar sentado a noite inteira. Tirou o casaco e o colete, vestiu um roupão azul e ficou andando pelo quarto, recolhendo os travesseiros da cama e as almofadas do sofá e das poltronas. Com eles, construiu uma espécie de divã oriental, no qual se sentou de pernas cruzadas, com uma bolsa de fumo e uma caixa de fósforos na sua frente. À luz mortiça da lâmpada, eu o vi sentado, com um velho cachimbo na boca, os olhos fixos no canto do teto, a fumaça azul subindo no ar, silencioso, imóvel, com a luz se refletindo em suas feições aquilinas. Ficou sentado ali enquanto eu adormecia e continuava sentado ali quando uma exclamação súbita me acordou e vi o sol de verão invadindo o aposento. O cachimbo ainda estava na sua boca, a fumaça ainda subia em espirais e o quarto estava cheio de fumaça, mas não restava um fiapo do fumo que enchia a bolsa na noite anterior.
– Acordado, Watson? – ele perguntou.
– Sim.
– Está disposto a dar um passeio?
– Certamente.
– Então vista-se. Ninguém acordou ainda, mas sei onde dorme o rapaz da cocheira e logo o cabriolé estará pronto. – Sorria para si mesmo enquanto falava, os olhos brilhavam, e parecia um homem diferente do sombrio pensador da noite anterior.
Enquanto me vestia, olhei o relógio. Não era de estranhar que estivesse todo mundo dormindo. Eram 4:25h. Mal terminara quando Holmes voltou com a informação de que o rapaz estava atrelando o cavalo.
– Quero testar uma teoria minha – disse, calçando as botas. – Acho, Watson, que você está diante de um dos maiores idiotas de toda a Europa. Mereço ser chutado daqui até Charing Cross. Mas acho que encontrei a chave do caso agora.
– E onde está? – perguntei, sorrindo.
– No banheiro – respondeu. – Oh, não, não estou brincando – continuou, vendo meu ar incrédulo. – Acabo de sair de lá, tirei-a de lá e coloquei-a nesta maleta. Vamos, meu rapaz, vamos ver se serve na fechadura.
Descemos o mais depressa possível e saímos para o sol que brilhava lá fora. Nosso carro e o cavalo estavam à espera na estrada, com o rapaz da cocheira, semivestido, segurando as rédeas. Pulamos para dentro do carro e fomos a toda a velocidade pela estrada de Londres. Algumas carroças levando hortaliças para a metrópole estavam na estrada, mas as casas dos dois lados estavam silenciosas e adormecidas, como em uma cidade fantasmagórica.