- É este mesmo! - exclamou Hatherley, profundamente excitado. - Ali está a estrada de saibro e as roseiras onde caí. A segunda janela foi de onde pulei.
- Bem, pelo menos - disse Holmes - o senhor teve sua vingança. Não há dúvida de que foi sua lâmpada de querosene que, quando comprimida pela prensa, tocou fogo nas paredes de madeira e certamente eles estavam ocupados demais em persegui-lo para notar. Agora fique de olhos abertos para ver se seus amigos de ontem à noite estão no meio da multidão, embora receie que a essas horas já estejam a muitos quilômetros de distância.
E os receios de Holmes se realizaram, pois desde esse dia não mais se ouviu falar da linda moça, o sinistro alemão ou o moroso inglês. Aquela manhã, muito cedo, um camponês vira uma carroça com várias pessoas e umas caixas volumosas indo rapidamente em direção a Reading, mas aí se perdia a pista dos fugitivos e nem mesmo a engenhosidade de Holmes conseguiu descobrir o menor indício de seu paradeiro.
Os bombeiros ficaram muito perturbados com as coisas estranhas que encontraram dentro da casa, especialmente quando descobriram um polegar humano recentemente decepado no peitoril de uma janela. Ao entardecer, finalmente, seus esforços foram recompensados e conseguiram dominar as chamas, mas aí o telhado já havia desmoronado e o prédio todo estava reduzido a ruínas, só se salvando uns cilindros retorcidos e canos de ferro, não restando nada mais da maquinaria que custara tanto ao nosso desafortunado engenheiro hidráulico. Descobriram grandes massas de níquel e estanho em um barracão, mas nenhuma moeda, o que pode explicar a presença das caixas volumosas na carroça.
Como nosso engenheiro hidráulico foi levado do jardim ao lugar onde recobrou os sentidos poderia ter sido um mistério para sempre se não fosse a terra macia, que contou sua história. Fora evidentemente carregado por duas pessoas, uma das quais; tinha pés excepcionalmente pequenos e a outra, excepcionalmente grandes. 0 que era mais provável é que o inglês silencioso, sendo menos audaz e também menos sanguinário que seu companheiro, tivesse ajudado a mulher a levar o homem inconsciente para fora de perigo.
- Bem, - disse nosso engenheiro, muito triste, ao tomarmos nossos lugares para voltar a Londres - que mau negócio eu fiz! Perdi meu polegar e perdi honorários de cinqüenta guinéus e, afinal de contas, o que ganhei?
- Experiência - disse Holmes, rindo. - Indiretamente, pode ser de muito valor. É só contar sua história e ganhará a reputação de excelente companhia para o resto de seus dias.
o nobre solteiro
O CASAMENTO DO LORDE ST. Simon, e a maneira curiosa por que terminou, há muito deixou de ser assunto de interesse nos círculos exaltados em que o infeliz noivo se movimenta. Escândalos novos o obscureceram e os detalhes picantes atraíram os bisbilhoteiros e os fizeram esquecer esse drama de quatro anos atrás. Como tenho razões para acreditar, entretanto, que os fatos verdadeiros nunca foram revelados ao público em geral, e como meu amigo, Sherlock Holmes, teve importante papel em esclarecer o mistério, acho que as memórias dele não ficariam completas sem um esboço desse episódio notável.
Faltavam poucas semanas para meu casamento, nos dias em que ainda compartilhava os alojamentos de Holmes na Rua Baker, quando ele chegou em casa uma tarde após ter saído para passear a pé e encontrou uma carta na mesa da entrada esperando por ele. Eu ficara em casa o dia todo, pois o tempo virara, de repente, e chovia com ventos fortes de outono e a bala que trazia na perna como relíquia da campanha do Afeganistão estava latejando persistentemente. Sentado em uma poltrona e com as pernas esticadas em uma cadeira, havia me rodeado de jornais até que, saturado com as notícias do dia, os jogara de lado e ficara parado olhando o enorme monograma em relevo, encimado de uma coroa, que estava sobre a mesa, pensando em quem poderia ser o nobre que escrevia a meu amigo.
- Aqui está uma epístola nobre - comentei, quando ele entrou. - A correspondência da manhã, se estou bem lembrado, consistia em contas da peixaria.
- É, minha correspondência pelo menos tem o encanto de ser variada - respondeu, sorrindo. - E as cartas dos mais humildes geralmente são as mais interessantes. Isso parece um desses convites sociais muito pouco desejáveis, que exigem que um homem minta ou que se caceteie.
Abriu o envelope e lançou um olhar no conteúdo.
- Ora, talvez isso seja interessante.
- Não é social, então?
- Não, estritamente profissional.
- E é de um cliente nobre?
- Um dos mais nobres da Inglaterra.
- Meu caro amigo, dou-lhe os parabéns.
- Asseguro-lhe, Watson, sem pretensões, que a posição social de meu cliente vale menos para mim do que o interesse de seu caso. É possível, entretanto, que as duas coisas existam nessa nova investigação. Você tem lido os jornais assiduamente nos últimos dias, não tem?
- É o que parece - disse com pesar, apontando a pilha de jornais no canto da sala. - Não tinha nada mais a fazer.