- Ontem pela manhã estava sentado em meu escritório no banco quando um dos empregados trouxe um cartão. Tive um sobressalto quando vi o nome, pois era... bem, talvez mesmo para os senhores seja melhor dizer somente que era um nome conhecido no mundo inteiro, um dos nomes mais altos, mais nobres, mais exaltados da Inglaterra. Fiquei assombrado com tanta honra e quando ele entrou, tentei expressar meus sentimentos, mas ele começou logo a falar de negócios com o ar de quem quer se livrar rapidamente de uma tarefa desagradável.
- "Sr. Holder", disse, "fui informado que o senhor tem o costume de emprestar dinheiro".
"A firma faz isso quando a garantia é boa", respondi.
"È absolutamente essencial para mim" disse, "conseguir cinqüenta mil libras imediatamente. Poderia, é claro, obter essa soma insignificante com meus amigos, mas prefiro que seja um negócio e tratar desse negócio eu mesmo. Em minha posição, o senhor há de compreender que não convém uma pessoa ficar devendo favores a ninguém".
- "Por quanto tempo, se me permite perguntar, vai precisar dessa quantia?" perguntei.
- "Na próxima segunda-feira devo receber uma grande quantia que me é devida e certamente lhe pagarei então o que me adiantar agora, e mais os juros que acho de direito cobrar. Mas é absolutamente essencial que eu tenha esse dinheiro imediatamente".
- Teria o maior prazer de adiantar-lhe essa quantia do meu próprio bolso sem mais dizer", eu disse, "se não fosse um pouco acima de meu alcance. Por outro lado, se for fazer isso em nome da firma, para ser justo com meu sócio devo insistir que, mesmo em seu caso, todas as precauções comerciais sejam tomadas".
- "Prefiro mil vezes que seja assim", disse, levantando uma caixa de couro preto, quadrada, que depositara ao lado da cadeira. "Sem dúvida já ouviu falar da coroa de berilos?"
- "Um dos bens públicos mais preciosos do Império", observei.
- "Exatamente". Abriu o estojo e dentro, engastada em veludo macio cor-de-came repousava a magnífica jóia a que se referira. "São trinta e nove berilos enormes", disse, "e o preço do trabalho em ouro é incalculável. A avaliação mais baixa é o dobro do que lhe pedi. Estou pronto a lhe deixar a coroa em garantia'.
Peguei o precioso estojo em minhas mãos e olhei um tanto perplexo da coroa para meu ilustre cliente.
- "Duvida de seu valor?" perguntou.
- "De maneira nenhuma. Duvido somente..."
- "Se é correto deixá-la aqui. Pode ficar descansado quanto a isso. Nunca faria uma coisa dessas se não tivesse certeza absoluta de que dentro de quatro dias posso reavê-la. É simplesmente uma questão de tempo. A garantia é suficiente?"
-"Amplamente".
- O senhor compreende, Sr. Holder, que estou dando uma grande prova da confiança que deposito no senhor, com base em tudo que me disseram a seu respeito. Confio no senhor não só para ser discreto e não dizer uma só palavra sobre esse negócio, como também para cercar essa coroa com todas as possíveis precauções, pois é desnecessário dizer que causaria um enorme escândalo público se alguma coisa acontecesse com ela. Qualquer dano seria tão grave quanto sua perda total, pois não há no mundo inteiro berilos iguais a esses e seria totalmente impossível substituí-los. Vou deixá-la com o senhor, entretanto, com toda a confiança, e virei buscá-la pessoalmente segunda-feira de manhã.
- Vendo que meu cliente estava ansioso para ir, nada mais disse. Chamei o caixa e dei ordem para que pagasse a quantia de cinqüenta mil libras em notas de mil. Quando fiquei novamente sozinho, com o precioso estojo à minha frente, não pude deixar de pensar com algum receio na imensa responsabilidade que representava para mim. Não havia dúvida que, já que se tratava de um bem nacional, haveria um escândalo horrível se acontecesse qualquer coisa com a jóia. Cheguei a me arrepender de haver consentido em ficar com ela. Era tarde demais, no entanto, para mudar de idéia. Tranquei o estojo em meu cofre pessoal e voltei a meu trabalho.
- Quando terminou o dia, achei que seria imprudente deixar uma coisa tão preciosa no escritório. Cofres de banqueiros já haviam sido arrombados no passado, por que não aconteceria o mesmo com o meu? Se isso acontecesse, em que posição terrível iria me encontrar! Decidi, por conseguinte, que nos próximos dias iria carregar o estojo comigo de um lado para outro, de modo que nunca ficasse longe de meus olhos. Tendo resolvido isso, chamei um carro e fui para minha casa em Streaffiam, carregando a jóia comigo. Só respirei livremente quando a levei para meus aposentos e a tranquei em uma gaveta no meu quarto de vestir.
- Agora preciso dizer algo sobre minha casa, Sr. Holmes, pois quero que compreenda bem a situação. Meu empregado e meu lacaio dormem fora de casa, e podem ser postos de lado completamente. Tenho três empregadas que estão comigo há muitos anos e que são de absoluta confiança. Uma outra, Luroy Parr só trabalha para mim há alguns meses.