- Talvez seja mais interessante do que você pensa. Lembre-se que o caso da pedra azul, que parecia ser apenas um capricho à primeira vista, tomou-se uma investigação séria. Esse caso também pode ser assim.
- Espero que sim! Mas as dúvidas muito em breve se dissiparão, pois, se não me engano, aqui está a pessoa em questão.
Enquanto falava, a porta se abrira e entrara uma moça. Estava vestida modestamente mas bem arrumada e tinha um rosto alegre, alerta, cheio de sardas e a maneira enérgica de uma mulher que tem de ganhar a vida.
- Perdoe-me por incomodá-lo, - disse, dirigindo-se a meu companheiro, que se erguera para cumprimentá-la - mas passei por uma experiência muito estranha e como não tenho pais ou parentes a quem posta recorrer, achei que talvez o senhor pudesse ter a bondade de me dizer o que fazer.
- Tenha a bondade de se sentar, Srta. Hunter. Terei muito prazer em fazer o que estiver a meu alcance para ajudá-la.
Vi que Holmes ficara bem impressionado com a maneira e as palavras de sua nova cliente. Examinou-a detalhadamente como era seu costume e se preparou, de olhos fechados, juntando as pontas dos dedos, para ouvir sua história.
- Sou governanta há cinco anos - disse - da família do Coronel Spence Munro, mas há dois meses o Coronel foi transferido Para Halifax na Nova Escócia e levou seus filhos para a América com ele, de modo que fiquei sem emprego. Anunciei nos jornais e respondi a anúncios, mas sem sucesso. Finalmente o pouco dinheiro que economizara tinha quase ido embora e estava desesperada sem saber o que fazer.
- Há uma agência muito conhecida para governantas no West End chamada Westaway e lá ia mais ou menos uma vez por semana para ver se tinha aparecido qualquer coisa que me pudesse servir. Westaway era o nome do dono da agência, mas a gerente era a Srta. Stoper. Ela fica sentada em sua pequena sala e as senhoras que estão procurando emprego esperam em uma ante-sala e entram uma por uma quando ela consulta o livro de registro e vê se tem alguma coisa que possa servir.
- Quando estive lá a semana passada, fui levada à pequena sala, como de costume, mas vi que a Srta. Stoper não estava sozinha. Um homem imensamente gordo com rosto sorridente e papadas enormes que faziam dobras e dobras sobre o pescoço estava sentado a seu lado, com óculos pendurados no nariz, olhando intensamente cada moça que entrava. Quando entrei saltou na cadeira e virou rapidamente para a Srta. Stoper:
- "Essa serve", disse, "não poderia pedir coisa melhor. Excelente! Excelente! " Parecia muito entusiasmado e esfregava as mãos com alegria. Parecia tão satisfeito que era um prazer olhar para ele.
- "Está procurando um lugar, senhorita?" perguntou.
- "Sim, senhor".
- "Como governanta?"
- "Sim, senhor".
- "E quanto quer ganhar?"
- "Ganhava quatro libras por mês com o Coronel Spence Munro".
- "Que absurdo! Exploração... exploração!" exclamou, jogando as
mãos para o ar. "Como se pode oferecer essa miséria para uma moça com
todos os seus atrativos e dons?"
- "Meus dons, senhor, são menos que o senhor pensa", respondi. "Um
pouco de francês, um pouco de alemão, música, desenho..."
- "Ora, ora!" exclamou. Isso não interessa. A questão é, a senhora tem
ou não tem as maneiras e comportamento de uma dama? É isso, em resumo. Se não tem, não serve para criar uma criança que algum dia pode desempenhar papel importante na história do país. Mas se tem, então como pode um cavalheiro pedir que tenha a condescendência de aceitar uma soma tão insignificante? Seu salário comigo, minha senhora, começaria com cem libras por ano.
- O senhor pode imaginar, Sr. Holmes, que para mim, necessitada como estava, essa oferta parecia boa demais para ser verdade. o cavalheiro, entretanto, vendo talvez a expressão de dúvida em meu rosto, abriu a carteira e tirou urna nota.
- "É também meu hábito", disse sorrindo de maneira agradável até que os olhos se tomaram meras frestas entre as dobras de gordura do rosto, "fazer um adiantamento a minhas moças de metade de seu salário, afim de que possam enfrentar as despesas de viagem e de guarda-roupa".
- Pareceu-me que nunca havia conhecido um homem tão fascinante e com tanta consideração. Como já estava devendo a meus fornecedores, o adiantamento era muito conveniente, no entanto havia qualquer coisa de esquisito nessa transação, que me fez querer saber um pouco mais antes de me comprometer totalmente.
- "Posso perguntar onde o senhor mora?"
- "Em Hampshire. Um lugar rural encantador. As Faias Roxas, sete quilômetros além de Winchester. É lindo no campo, cara senhora, e a casa é uma velha casa de campo".
- "E minhas obrigações, senhor? Gostaria de saber quais são".
- "Uma criança. . . um garotinho de seis anos. Se pudesse vê-lo matar baratas com o chinelo! Bate! Bate! Bate! Três mortas em um piscar de olhos! Reclinou-se na cadeira e deu gargalhadas.
Fiquei um pouco espantada com esse tipo de diversão para uma criança, mas as gargalhadas do pai me fizeram achar que talvez estivesse brincando.