– Seis! Então meu cavalo está correndo! – exclamou o coronel, muito agitado. – Mas não o vejo. Minhas cores ainda não desfilaram.
– Só desfilaram cinco. Ele deve vir agora.
No momento em que eu falava, um vigoroso cavalo baio saiu do recinto de pesagem e passou por nós, trazendo nas costas as conhecidas cores do coronel – vermelho e preto.
– Aquele não é o meu cavalo – exclamou o proprietário. – Aquele animal não tem um só fio branco no corpo. O que foi que fez, sr. Holmes?
– Bem, bem, vamos ver como ele se sai – disse o meu amigo, imperturbável.
E ficou observando por alguns minutos com o meu binóculo.
– Ótimo! Um excelente páreo! – exclamou de repente. – Lá vêm eles fazendo a curva.
Da nossa carruagem podíamos vê-los muito bem quando se aproximavam da reta. Os seis cavalos estavam tão próximos que um só tapete cobriria todos eles, mas no meio do percurso, o amarelo do haras Mapleton começou a tomar a dianteira. Entretanto, antes de chegarem ao ponto onde estávamos, perdeu terreno e o cavalo do coronel, adiantando-se, ultrapassou a marca da chegada com uns seis corpos de vantagem sobre o seu rival, e , do duque de Balmoral, chegou em terceiro, com grande atraso.
– Ganhei a corrida, de qualquer modo – exclamou o coronel, passando a mão nos olhos. – Confesso que não entendo nada. Não acha que está na hora de revelar o mistério, Sr. Holmes?
– Sem dúvida, coronel. Saberá de tudo. Vamos todos dar uma espiada no cavalo. Aqui está ele – continuou, quando entramos no recinto da pesagem, onde só era permitido o ingresso dos proprietários e de seus amigos. – Basta lavar a cabeça e as pernas com álcool e encontrará o velho de sempre.
– Estou abismado!
– Encontrei-o nas mãos de um impostor e tomei a liberdade de fazê-lo correr do jeito como foi enviado.
– Meu caro, o senhor fez maravilhas. O cavalo parece muito bem. Nunca o vi melhor em toda a sua vida. Peço mil desculpas por ter duvidado da sua capacidade. Prestou-me um grande favor recuperando o meu cavalo. E faria um favor ainda maior se pudesse descobrir o assassino de John Straker.
– Já descobri – disse Holmes calmamente.
O coronel e eu olhamos para ele espantados.
– Já descobriu? Então, onde está?
– Aqui.
– Aqui! Onde?
– Em minha companhia, neste momento.
O coronel ficou vermelho de raiva.
– Reconheço que lhe devo favores, sr. Holmes, mas considero o que acaba de dizer uma piada de mau gosto, ou um insulto.
Sherlock Holmes riu.
– Garanto que não o associei ao crime, coronel. O verdadeiro assassino está exatamente atrás do senhor!
E avançando um passo, pousou a mão no pescoço brilhante do puro-sangue.
– O cavalo! – o coronel e eu gritamos.
– Sim, o cavalo. E sua culpa será menor se eu disser que agiu em defesa própria e que John Straker era totalmente indigno de sua confiança. Mas já soou o sinal. E como devo ganhar no próximo páreo, vou adiar a explicação mais detalhada para um momento mais conveniente.
Tínhamos uma parte de um vagão Pullman só para nós naquela noite, quando voltamos a Londres, e creio que a viagem foi curta tanto para o coronel como para mim, enquanto ouvíamos a narrativa dos fatos ocorridos no haras de treinamento de Dartmoor, na noite de segunda-feira, e como Holmes conseguira destrinchá-los.
– Confesso que todas as teorias que eu havia elaborado com base nas reportagens dos jornais eram totalmente equivocadas. Mas continham indícios e é pena que estes tenham sido ofuscados por detalhes que mascararam a sua verdadeira importância. Fui para Devonshire convencido de que Fitzroy Simpson era o verdadeiro culpado, embora percebesse que as provas contra ele não eram definitivas.
– Ainda na carruagem, no momento em que chegamos à casa do treinador, percebi a grande importância do carneiro ao . Talvez se lembrem de que eu estava distraído e continuei sentado depois que todos saltaram. Eu me perguntava como podia ter ignorado uma pista tão óbvia.
– Confesso que continuo sem saber de que modo isso nos ajudará – disse o coronel.
– Foi o primeiro elo na minha cadeia de raciocínio. O ópio em pó não é insípido. O sabor não é desagradável, mas é perceptível. Misturado a um prato comum, seria notado, e a pessoa certamente deixaria de lado a comida. O era exatamente o condimento que disfarçaria o gosto. Fitzroy Simpson, um estranho, não podia ser absolutamente responsável pelo fato de servirem esse prato naquela noite, e seria absurdo supor que, por coincidência, ele apareceria com o ópio em pó justamente na noite em que a comida disfarçaria o sabor. É inconcebível. Simpson fica, portanto, eliminado do caso, e a nossa atenção se concentra em Straker e sua mulher, as duas únicas pessoas que poderiam ter escolhido carneiro com curry naquela noite. O ópio foi acrescentado depois que o prato foi preparado para o cavalariço, já que os outros comeram o carneiro sem nenhum efeito desagradável. Quem se aproximaria daquele prato sem que a empregada percebesse?