– O primeiro batalhão do Royal Munsters (o antigo 117o) está sediado em Aldershot há alguns anos. Os oficiais casados residem fora dos alojamentos e o coronel, quando era comandante, ocupava uma vila chamada “Lachine”,localizada a cerca de 1 quilômetro do Campo Norte. A casa é cercada de jardins, mas o lado oeste não fica a mais de 30 metros da estrada. A criadagem é formada por um cocheiro e duas criadas. Além dos patrões, são os únicos moradores de Lachine,pois os Barclays não têm filhos e não costumavam receber visitantes locais.
– Vamos agora aos fatos ocorridos em Lachine entre 21 e 22 horas da última segunda-feira.
– A sra. Barclay é membro da Igreja Católica e muito interessada no estabelecimento da Confraria de São Jorge, fundada em conexão com a Capela de Watt Street com o objetivo de distribuir roupas usadas para os pobres. Havia uma reunião da Confraria às 20 horas e a sra. Barclay jantou apressadamente para poder comparecer. O cocheiro ouviu-a fazer uma observação banal ao marido, garantindo-lhe que voltaria logo. Chamou então a srta. Morrison, uma jovem que mora na casa ao lado, e as duas saíram juntas para a reunião. Esta durou quarenta minutos, e eram 21:15h quando a sra. Barclay voltou, depois de deixar em casa a srta. Morrison.
– Em Lachine há um aposento usado como sala de estar, que dá para a estrada. Grandes portas de vidro abrem-se para um gramado, que tem 30 metros de extensão e é separado da estrada apenas por um muro baixo, encimado por uma grade de ferro. Foi para esta sala que a sra. Barclay se dirigiu ao chegar. As venezianas não estavam abaixadas, porque a sala raramente era usada à noite, mas a própria sra. Barclay acendeu um lampião e tocou a campainha, pedindo a Jane Stewart, a criada, que lhe trouxesse uma xícara de chá, o que era contrário aos seus hábitos. O coronel estava na sala de jantar, mas ao perceber que a mulher havia regressado, foi encontrá-la na sala de estar. O cocheiro viu quando ele atravessou o corredor e entrou na sala. Depois disso, ele não foi visto novamente com vida.
– O chá pedido foi levado dez minutos depois, mas a criada, ao aproximar-se da porta, surpreendeu-se ao ouvir as vozes dos patrões numa violenta discussão. Bateu sem receber resposta e chegou a girar a maçaneta. Percebeu então que a porta estava trancada por dentro. É natural que tenha ido correndo contar à cozinheira, e as duas, juntamente com o cocheiro, foram até o vestíbulo para escutar a discussão que prosseguia. Todos afirmam que só ouviram duas vozes, a de Barclay e a de sua mulher. As observações do coronel eram feitas em tom brusco e abafado, inaudível para os criados. As da senhora eram amargas, e quando ela ergueu a voz, ouviram-na com nitidez repetir várias vezes: “Covarde! Covarde!” Esses fragmentos de discussão terminaram num repentino grito medonho emitido pelo homem, seguido do ruído de uma queda, e no grito agudo da mulher. Convencido de que acabava de ocorrer uma tragédia, o cocheiro aproximou-se da porta e tentou arrombá-la, enquanto os gritos se repetiam lá dentro. Não conseguiu quebrar a fechadura e as criadas estavam aturdidas demais para ajudá-lo. De repente, teve uma idéia. Atravessou o vestíbulo e contornou a casa até o gramado, para onde se abriam as portas-janelas. Uma parte delas estava aberta, o que, pelo que soube, era comum agora no verão, e ele entrou na sala com facilidade. A patroa tinha deixado de gritar e estava desmaiada num sofá, enquanto o infeliz militar, os pés surgindo por cima do braço de uma poltrona, a cabeça no chão, junto à guarda da lareira, estava morto, banhado no próprio sangue.
– A primeira idéia do cocheiro, naturalmente, ao verificar que nada podia fazer pelo patrão, foi abrir a porta. Mas surgiu então uma dificuldade inesperada e estranha. A chave não estava do lado de dentro e ele não conseguiu encontrá-la em parte alguma da sala. Tornou a sair pela porta-janela, e voltou depois de chamar um policial e um médico. A senhora, sobre quem recaíam naturalmente as maiores suspeitas, foi levada para o quarto, ainda desmaiada. O corpo do coronel foi colocado no sofá e teve início um exame cuidadoso do local da tragédia.
– O infeliz veterano apresentava um ferimento irregular na parte de trás da cabeça, obviamente causado por um golpe violento de arma contundente. Não foi difícil adivinhar qual seria a arma. No chão, perto do corpo, havia um bastão de madeira entalhada com um cabo de osso. O coronel possuía uma coleção variada de armas trazidas dos diferentes países onde havia lutado, e a polícia levantou a hipótese de que a bengala era um dos seus troféus. Os criados negam tê-la visto antes, mas entre as numerosas curiosidades existentes na casa é possível que aquela tivesse passado despercebida. A polícia não constatou mais nada de importância na sala, exceto o fato inexplicável de a chave não ter sido encontrada com a sra. Barclay, nem com a vítima, e nem em qualquer lugar do recinto. A porta teve de ser aberta por um serralheiro de Aldershot.