– Vamos! – disse Sherlock Holmes bruscamente. – O caso está ficando sério! – observou enquanto nos dirigíamos à Scotland Yard. – Aquela gente seqüestrou Melas de novo. Ele é um homem sem coragem física, como eles sabem pela experiência da noite passada. O bandido conseguiu aterrorizá-lo com sua simples presença. Querem, sem dúvida, os seus serviços profissionais, mas depois de usá-lo vão querer castigá-lo pelo que devem considerar uma traição.
Nossa esperança era que, tomando o trem, pudéssemos chegar a Beckenham tão depressa ou mais que de carruagem. Mas, ao chegarmos à Scotland Yard, levamos mais de uma hora para encontrar o inspetor Gregson e cumprir as formalidades legais que nos permitiriam entrar na casa. Eram 21:45h, portanto, quando chegamos a London Bridge e levamos mais meia hora para saltarmos na plataforma de Beckenham. Um percurso de 1 quilômetro levou-nos a – uma casa ampla e escura, separada da estrada pelos jardins que a cercavam. Dispensamos a carruagem e percorremos juntos a alameda.
– As janelas estão todas fechadas – observou o inspetor. A casa parece deserta.
– Os pássaros abandonaram o ninho – disse Holmes.
– Por que pensa assim?
– Uma carruagem pesada, carregada de bagagens, passou por aqui há uma hora.
O inspetor riu.
– Vi as marcas das rodas à luz do portão. Mas como sabe da bagagem?
– Deve ter observado as mesmas marcas seguindo na direção oposta. Mas as que saem são bem mais profundas, a ponto de podermos dizer com certeza que o veículo levava um peso considerável.
– O senhor é um pouco complicado demais para mim – disse o inspetor, dando de ombros. – Não será fácil forçar aquela porta. Mas tentaremos se ninguém nos atender.
Bateu com força a aldrava, puxou a campainha, mas inutilmente. Holmes, que havia desaparecido, voltou daí a instantes.
– Abri uma janela – anunciou.
– Ainda bem que está do lado da lei e não contra ela, sr. Holmes – observou o inspetor, quando percebeu a habilidade com que meu amigo havia forçado a fechadura. – Creio que, nestas circunstâncias, podemos entrar sem esperar convite.
Um após outro penetramos no salão que era, evidentemente, aquele em que havia estado o sr. Melas. O inspetor acendeu a lanterna e vimos as duas portas, a cortina, a lâmpada e a armadura de malha japonesa que ele havia descrito. Na mesa viam-se dois copos, uma garrafa vazia de e osrestos de uma refeição.
– O que é isto? – perguntou Holmes de repente.
Imóveis, ouvimos um som baixo, semelhante a um gemido, vindo de algum lugar acima de nossas cabeças. Holmes correu para a porta e foi até o vestíbulo. O ruído vinha do segundo andar. Ele subiu a escada correndo, seguido de perto pelo inspetor e por mim, enquanto Mycroft nos acompanhava tão depressa quanto seu corpo volumoso lhe permitia.
No segundo andar ficamos diante de três portas. Era da porta do meio que saíam os sons sinistros, que às vezes passavam de um murmúrio rouco a um lamento agudo. Estava trancada, mas com a chave do lado de fora. Holmes abriu-a e entrou correndo. Mas saiu no mesmo instante, com a mão na garganta.
– É carvão! – ele gritou. – Vamos esperar um pouco. Ele se dissipará.
Espiando para dentro, vimos que a única luz existente no quarto provinha de uma chama azul, baça, que ardia num pequeno tripé colocado no centro. A chama lançava um círculo lívido e estranho sobre o assoalho e, nas sombras mais adiante, vislumbramos duas silhuetas agachadas contra a parede. Pela porta aberta saía um horrível cheiro venenoso, que nos fez arquejar e tossir. Holmes correu para o alto da escada, a fim de aspirar ar fresco e, entrando novamente no quarto, escancarou a janela e atirou o tripé ao jardim.
– Entraremos dentro de um minuto – arquejou, saindo outra vez às pressas. – Onde encontraremos uma vela? Duvido que seja possível riscar um fósforo naquele ar. Mantenha a lanterna perto da porta e nós os tiraremos de lá, Mycroft. Agora!
Entramos correndo, agarramos os homens envenenados e os arrastamos para o patamar. Estavam ambos de lábios azulados e inconscientes, rostos inchados e congestionados, olhos saltando das órbitas. As fisionomias estavam tão alteradas que, se não fosse pela barba preta e a silhueta atarracada, não teríamos reconhecido o intérprete grego, que se despedira de nós horas antes no Clube Diógenes. Tinha mãos e pés amarrados e sobre um olho havia marcas de um golpe violento. O outro homem, amarrado de modo idêntico, era alto e estava no último estágio da magreza. Tinha no rosto várias marcas de esparadrapo formando um desenho grotesco. Parou de gemer quando o deitamos no chão, e uma olhada de relance para ele mostrou-me que, pelo menos no seu caso, havíamos chegado tarde demais. O sr. Melas, porém, estava vivo, e em menos de uma hora, com a ajuda de amônia e , tive a satisfação de vê-lo abrir os olhos e saber que minha mão o havia trazido de volta do vale sombrio onde todos os caminhos se encontram.