– No seu caso, a principal dificuldade estava no excesso de evidências. Os elementos vitais estavam encobertos pelos irrelevantes. Entre todos os fatos que nos foram apresentados era preciso escolher os que julgávamos essenciais e depois colocá-los em ordem, a fim de reconstituir esta extraordinária cadeia de acontecimentos. Comecei a suspeitar de Joseph quando você disse que pretendia viajar para casa com ele naquela noite. Era muito provável, portanto, que ele passasse pelo Foreign Office – bem conhecido dele – a caminho da estação. Quando eu soube que alguém havia tentado entrar no quarto onde ninguém, exceto Joseph, poderia ter escondido alguma coisa – você nos contou que Joseph havia sido desalojado quando chegou com o médico –, minhas suspeitas transformaram-se em certeza, principalmente porque a tentativa foi feita na primeira noite em que a enfermeira estava ausente, mostrando que o intruso estava a par do que acontecia na casa.
– Como fui cego!
– Os fatos, conforme os concebi, são os seguintes: Joseph Harrison entrou no prédio do Foreign Office pela porta da Charles Street e, conhecendo o caminho, seguiu direto para a sua sala logo que você saiu. Não vendo ninguém, tocou a sineta e no mesmo instante reparou no papel que estava sobre a mesa. Um olhar de relance mostrou que a sorte havia colocado ao seu alcance um documento oficial de imenso valor. Guardou-o imediatamente no bolso e saiu. Passaram-se alguns minutos, conforme deve lembrar, antes que o contínuo sonolento chamasse a sua atenção para a sineta. Foi o suficiente para o ladrão escapar.
– Ele foi para Woking pelo primeiro trem e, depois de examinar o documento, certificou-se que era de fato de imenso valor e escondeu-o num lugar que julgou muito seguro, com a intenção de retirá-lo um ou dois dias depois e levá-lo à Embaixada da França, ou onde quer que obtivesse um bom preço. Mas então houve a sua chegada repentina. Ele, sem um aviso prévio, foi afastado do quarto e dali em diante sempre havia pelo menos duas pessoas presentes, impedindo-o de recuperar o tesouro. A situação deve ter sido de enlouquecer. Finalmente achou que chegara a oportunidade. Tentou entrar no quarto para pegar o documento, mas foi impedido pela sua vigília. Talvez recorde que não tomou o remédio habitual para dormir.
– Eu me lembro.
– Imagino que ele tomou alguma medida para que o remédio fosse eficaz e esperava encontrá-lo inconsciente. Compreendi que repetiria a tentativa sempre que pudesse fazê-lo com segurança. O fato de ter saído do quarto deu-lhe a oportunidade desejada. Mantive ali a srta. Harrison o dia inteiro para que ele não passasse à nossa frente. E então, dando-lhe a impressão de que o terreno estava livre, fiquei de guarda, como descrevi. Já sabia que os documentos estariam no quarto, mas não queria levantar todas as tábuas do assoalho para encontrá-los. Deixei que ele os tirasse do esconderijo, poupando-me um trabalho imenso. Há algum ponto que queira esclarecer?
– Por que ele entrou pela janela na primeira vez, quando podia ter entrado pela porta? – perguntei.
– Para chegar à porta teria que passar por sete quartos. Além disso, andaria pelo gramado com facilidade. Mais alguma coisa?
– Acha que ele tinha intenção de me assassinar? – perguntou Phelps. – A faca era um simples instrumento.
– É possível – disse Holmes, dando de ombros. – Só posso dizer com certeza que o sr. Joseph Harrison é um cavalheiro em cuja misericórdia eu não confiaria muito.
o problema final
É com o coração pesado que pego a pena para escrever as últimas páginas onde registrarei os talentos especiais que distinguiam meu amigo, o sr. Sherlock Holmes. De modo incoerente e, percebo-o, inteiramente inadequado, procurei narrar as minhas estranhas experiências em sua companhia, desde o acaso que nos reuniu por ocasião de , até a época de sua interferência na questão do , que teve o resultado inegável de impedir uma grave crise internacional. Era minha intenção parar ali, sem mencionar o acontecimento que gerou tamanho vazio em minha vida que nem mesmo a passagem de dois anos conseguiu amenizar. Mas fui obrigado, pelas cartas recentes em que o coronel James Moriarty defende a memória do irmão, a colocar diante do público os fatos exatamente como aconteceram. Só eu conheço a verdade absoluta a respeito do assunto, e estou certo de ter chegado o momento em que ocultá-la não
traz benefício a ninguém. Que eu saiba só houve três relatos na imprensa: o do de 6 de maio de 1891, o comunicado da Reuters nos jornais ingleses de 7 de maio, e finalmente as cartas recentes a que me referi. Destes, o primeiro e o segundo foram extremamente condensados, enquanto o último é, como mostrarei agora, uma distorção completa dos fatos. Cabe a mim contar pela primeira vez o que realmente aconteceu entre o professor Moriarty e Sherlock Holmes.