– É parte da ordem da natureza que uma garota como essa tenha seguidores – disse Holmes, enquanto fumava, pensativo, o seu cachimbo –, mas não em bicicletas em estradas desertas do campo. Algum apaixonado secreto, sem dúvida. Mas há detalhes curiosos e sugestivos nesse caso, Watson.

– Que ele só apareça naquele trecho?

– Exatamente. Nossa primeira providência será descobrir quem são os donos de Charlington Hall. E sobre a ligação entre Carruthers e Woodley, já que parecem ser homens de tipos tão diferentes. Por que ambos estavam tão interessados em procurar os parentes de Ralph Smith? Mais um detalhe. Que espécie de família é esta que paga o dobro do preço normal a uma governanta mas não tem um cavalo, embora more a 10 quilômetros da estação? Estranho, Watson – muito estranho!

– Irá até lá?

– Não, meu caro amigo, você irá até lá. Isto pode ser alguma intriga sem importância, e eu não posso parar minha outra pesquisa importante por causa desta. Na segunda-feira, você chegará bem cedo em Farnham; irá esconder-se perto de Charlington Heath; observará os fatos por si mesmo e agirá segundo o seu próprio julgamento. Então, depois de obter informações sobre os ocupantes do Hall, voltará e me contará tudo. E agora, Watson, nem uma palavra sobre o assunto até que tenhamos algumas rochas sólidas onde possamos pisar para encontrar uma solução.

Verificamos com a moça que ela tomava, na segunda-feira, o trem que saía de Waterloo às 9:50h; então, saí cedo e peguei o de 9:13h. Em Farnham, não tive dificuldade para saber onde ficava Charlington Heath. Era impossível errar o local da aventura da jovem, pois a estrada passa entre o campo aberto de um lado e um velho bosque de teixos do outro, circundando um parque cheio de árvores magníficas. Havia um portão principal de pedras cobertas de musgo, cada pilar lateral encimado por emblemas heráldicos emoldurados, mas além dessa passagem central para carruagens, observei muitos pontos onde havia falhas na sebe e trilhas que passavam por elas. A casa era invisível da estrada, mas os arredores mostravam tristeza e decadência.

O campo tinha moitas douradas de tojos floridos, brilhando magnificamente sob a luz do sol da primavera. Fiquei atrás de uma dessas moitas, a fim de poder ver tanto o portão da casa como um bom pedaço da estrada de cada lado. Estava deserta quando saí dela, mas agora eu via um ciclista vindo na direção oposta daquela por onde eu havia chegado. Estava vestido com um terno escuro, e notei que tinha uma barba negra. Chegando ao final do terreno de Charlington, pulou da bicicleta e entrou por uma abertura na sebe, desaparecendo de minha vista.

Quinze minutos depois um segundo ciclista apareceu. Desta vez era a jovem, que vinha da estação. Eu a vi olhar em volta ao chegar à sebe de Charlington. Um instante depois o homem surgiu de seu esconderijo, pulou na sua bicicleta e a seguiu. Em todo o vasto campo, estas eram as únicas figuras móveis, a graciosa garota sentada bem reta em seu veículo, e o homem atrás dela, curvando-se sobre o guidom com um traço curiosamente furtivo em cada movimento. Ela olhou para trás e diminuiu a velocidade. Ele diminuiu também. Ela parou. Ele também parou na mesma hora, mantendo a distância de 200 metros atrás dela. O movimento seguinte dela foi tão inesperado quanto inteligente. De repente, ela fez a volta e correu na direção dele. Mas ele foi tão rápido quanto ela e saiu correndo numa fuga desesperada. Então ela voltou à estrada, sua cabeça altiva no ar, não se dignando a tomar conhecimento de seu admirador silencioso. Ele também se virara, e ainda mantinha a mesma distância até que a curva da estrada os escondeu de minha vista.

Continuei no meu esconderijo, e foi bom ter feito isso, pois logo depois o homem reapareceu, pedalando de volta, lentamente. Entrou no portão do Hall e desmontou da bicicleta. Durante alguns minutos pude vê-lo de pé entre as árvores. Suas mãos estavam erguidas e ele dava a impressão de estar ajeitando a gravata. Depois montou na bicicleta e se afastou de onde eu estava, pelo caminho que ia na direção do Hall. Corri pelo campo e olhei por entre as árvores. Lá longe eu podia vislumbrar o velho prédio cinzento, com suas chaminés Tudor, mas o caminho passava por entre uns arbustos densos, e não vi mais o ciclista.

Entretanto, achei que já tinha feito um bom trabalho naquela manhã, e voltei contente para Farnham. O corretor de imóveis local não pôde me dizer nada sobre Charlington Hall, e me recomendou uma firma conhecida em Pall Mall. Parei ali quando voltava para casa, e esbarrei na polidez do representante. Não, não poderia ter Charlington Hall para o verão. Eu chegara atrasado. Fora alugada um mês atrás. Sr. Williamson era o nome do locatário. Era um cavalheiro idoso e respeitável. O agente, muito gentil, lamentava não poder dizer mais nada, porque os negócios dos clientes eram assuntos que ele não podia comentar.

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