Balancei a cabeça e fiquei ao lado da porta. Meu medo inicial passara, e agora ficava excitado com um sabor mais picante do que experimentara quando éramos os defensores da lei em vez de seus desafiantes. O nobre objetivo de nossa missão, a consciência de que era altruísta e cavalheiresca, o caráter infame do nosso adversário, tudo ampliava o interesse esportivo da aventura. Longe de sentir culpa, alegrava-me e exultava com nossos perigos. Com admiração, via Holmes desenrolar seu estojo de instrumentos e escolher sua ferramenta com a calma e a meticulosidade científica de um cirurgião que faz uma operação delicada. Sabia que a abertura de cofres era um hobby particular seu, e compreendia a satisfação que lhe dava enfrentar aquele monstro verde e dourado, o dragão que tinha em seu estômago a reputação de várias damas decentes. Arregaçando os punhos de sua casaca – colocara seu sobretudo numa cadeira –, Holmes tirou duas furadeiras, um pé-de-cabra e várias chaves-mestras. Fiquei na porta do centro, prestando atenção em cada uma das outras, pronto para qualquer emergência, embora, na verdade, meus planos fossem um tanto vagos a respeito do que deveria fazer se fôssemos interrompidos. Por meia hora, Holmes trabalhou com energia concentrada, deixando uma ferramenta, pegando outra, manuseando-as com a força e a delicadeza de um mecânico treinado. Finalmente ouvi um clique, a grande porta verde se abriu e dentro vi de relance vários maços de papéis, cada um selado, amarrado e identificado. Holmes tirou um, mas era difícil ler com o fogo bruxuleante, e pegou sua pequenina lanterna, pois seria muito perigoso, com Milverton no quarto ao lado, acender a lâmpada elétrica. De repente o vi parar, escutar atentamente e, logo depois, ele fechou a porta do cofre, pegou o sobretudo, jogou as ferramentas dentro dos bolsos e correu para trás da cortina, mandando-me fazer o mesmo.

Só quando me escondi foi que ouvi o que alarmara os seus sentidos aguçados. Havia um barulho em algum lugar dentro da casa. Uma porta bateu um pouco distante. Então um murmúrio confuso, surdo, se transformou nas passadas pesadas e ritmadas que se aproximavam com rapidez. Estavam no corredor. Pararam diante da porta da sala. A porta se abriu. Houve um barulho áspero quando se acendeu a luz elétrica. A porta se fechou de novo, e o bafo pungente de um charuto forte chegou às nossas narinas. Depois os passos continuaram para trás e para a frente, para trás e para a frente, a poucos metros de nós. Por fim ouvimos o estalido de uma cadeira, e os passos cessaram. Então uma chave estalou na fechadura, e ouvi o farfalhar de papéis.

Até aqui não ousara olhar para fora, mas agora afastei delicadamente a divisão das cortinas à minha frente e olhei pela abertura. Pela pressão do ombro de Holmes contra o meu, sabia que também estava observando. Bem à nossa frente, e quase ao nosso alcance, estavam as costas largas de Milverton. Era evidente que calculáramos mal os movimentos dele, que nunca estivera em seu quarto, e sim sentado em alguma sala para fumar ou jogar bilhar, na ala mais afastada da casa, cujas janelas não tínhamos visto. Sua cabeça grande e grisalha, com a parte calva brilhante, era visível bem à nossa frente. Ele estava recostado na cadeira de couro vermelho, as pernas esticadas, um charuto comprido preto pendurado no canto da boca. Vestia um casaco semimilitar, cor de sangue, com o colarinho de veludo preto. Segurava um documento legal extenso, que lia com displicência, enquanto soprava círculos de fumaça de tabaco. Sua pose tranqüila e sua atitude confortável não indicavam que sairia logo.

Senti a mão de Holmes segurar a minha e me dar um aperto confortador, como se dissesse que a situação estava sob controle, e que ele permanecia calmo. Não tinha certeza se ele vira o que parecia óbvio de minha posição, isto é, que a porta do cofre não estava bem fechada, e que Milverton poderia a qualquer momento ver isso. Por conta própria decidi que, se estivesse certo, pela fixação do seu olhar, de que ele havia percebido, eu pularia imediatamente para fora, jogaria meu sobretudo sobre a cabeça dele, o amarraria, e deixaria o resto com Holmes. Mas Milverton não olhou. Estava indolentemente concentrado nos papéis em sua mão, páginas e páginas foram viradas enquanto ele seguia a argumentação do advogado. Pelo menos, pensei, quando acabar de ler o documento e de fumar o charuto, irá para o quarto. Mas antes que tivesse chegado ao final dos dois, houve um fato extraordinário que mudou nossos pensamentos para outro canal.

Várias vezes eu observara que Milverton olhava para o relógio, e uma vez chegou a levantar-se e sentara-se de novo com um gesto de impaciência. Mas a idéia de que ele pudesse ter um encontro numa hora tão estranha nunca me ocorreu até que um som fraco chegou aos meus ouvidos, vindo da varanda. Milverton largou seus papéis e sentou-se rígido na cadeira. O som se repetiu, e então houve uma batida delicada na porta. Milverton levantou-se e abriu.

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