– Vejamos agora, Bannister – disse Holmes. – Deve estar claro para você, pelo que eu falei, que só você poderia ter deixado este jovem sair, já que ficou no escritório, e deve ter trancado a porta quando saiu. Quanto à fuga dele pela janela, era inacreditável. Pode esclarecer este último detalhe do mistério e nos dizer o motivo desse seu ato?

– Seria muito simples, senhor, se soubesse, mas, com toda a sua esperteza, era impossível que pudesse saber. Houve um tempo, senhor, em que fui mordomo do velho sir Jabez Gilchrist, o pai deste jovem cavalheiro. Quando ficou arruinado, vim para a faculdade como criado, mas nunca me esqueci de meu antigo patrão só porque ele estava em má situação. Cuidei de seu filho o máximo que pude, em nome dos velhos tempos. Bem, senhor, quando entrei neste quarto ontem, quando o alarme foi dado, a primeira coisa que vi foram as luvas de couro do sr. Gilchrist em cima daquela cadeira. Conhecia bem aquelas luvas e compreendi sua mensagem. Se o sr. Soames as visse, tudo estaria acabado. Voei para aquela cadeira, e nada me tirou de lá até que o sr. Soames correu para ir procurá-lo. Então saiu o pobre patrãozinho, com quem eu brincara, pulando nos meus joelhos, e confessou tudo para mim. Não seria natural, senhor, que o salvasse, e também não seria natural que eu tentasse falar com ele da mesma maneira que seu pai o faria, e o fizesse compreender que não poderia se beneficiar de um ato desses? Pode me condenar, senhor?

– Não, realmente – disse Holmes com veemência, levantando-se. – Bem, Soames, creio que esclarecemos seu probleminha, e nosso café-da-manhã nos espera em casa. Venha, Watson! Quanto a você, rapaz, acredito que um futuro brilhante o espera na Rodésia. Uma vez você se rebaixou. Vamos ver no futuro, a que altura pode chegar.

a aventura do pincenê dourado

Quando olho para os três grandes volumes manuscritos que contêm nosso trabalho no ano de 1894, confesso que é difícil para mim, em meio a material tão vasto, selecionar os casos mais interessantes e, ao mesmo tempo, mais adequados para demonstrar os talentos especiais que fizeram a fama do meu amigo. Ao virar as páginas, vejo as anotações sobre a história repulsiva da vela vermelha e a morte terrível de Crosby, o banqueiro. Aqui também encontro um relato da tragédia de Addleton, e o estranho conteúdo do antigo túmulo inglês. O famoso caso da sucessão de Smith-Mortimer também ocorreu neste período, assim como a perseguição e a prisão de Huret, o assassino do boulevard – façanha que rendeu a Holmes uma carta de agradecimentos assinada pelo presidente da França e a Ordem da Legião de Honra. Cada um desses poderia ser uma narrativa, mas, no todo, acho que nenhum deles reúne tantos detalhes singulares de

interesse quanto o episódio de Yoxley Old Place, que inclui não somente a morte lamentável do jovem Willoughby Smith, mas também os acontecimentos subseqüentes que lançaram uma curiosa luz sobre as causas do crime.

Era uma noite violenta de tempestade, no fim de novembro. Holmes e eu ficáramos sentados em silêncio durante toda a noite, ele ocupado com uma lente poderosa, decifrando os remanescentes da inscrição original de um palimpsesto, eu mergulhado num tratado recente sobre cirurgia. Lá fora o vento soprava na Baker Street, enquanto a chuva batia com força nas janelas. Era estranho ali, no centro da cidade, com 15 quilômetros de obras feitas pelo homem de cada lado, sentir o punho de ferro da natureza, e estar consciente de que, para a imensa força dos elementos, Londres inteira não era mais do que os montículos de terra que pontilham os campos. Fui até a janela e olhei para a rua deserta. As luzes ocasionais brilhavam ao longo da rua lamacenta e no pavimento reluzente. Uma única carruagem ia espalhando água no seu caminho, saindo do final da Oxford Street.

– Bem, Watson, é bom que não tenhamos de sair esta noite – disse Holmes, pondo de lado a lente e enrolando o palimpsesto. – Já fiz o suficiente por hoje. É muito trabalho para os olhos. Na minha opinião, não há nada mais excitante do que os relatos de Abbey da segunda metade do século XV. Ei, ei! O que é isso?

Em meio ao zumbido do vento, ouvimos as batidas das patas de um cavalo, e o ruído de uma roda raspando no meio-fio. A carruagem que eu vira parou diante da nossa porta.

– O que ele pode querer? – perguntei, quando um homem saltou.

– Querer? Ele quer a nós. E nós, meu pobre Watson, queremos sobretudos, cachecóis, galochas e toda a ajuda que o homem já inventou para enfrentar o clima. Espere um pouco! A carruagem está indo embora! Ainda há esperança. Ele teria mandado esperar se quisesse que nós o acompanhássemos. Corra lá embaixo, Watson, meu caro amigo, e abra a porta, pois o bom sujeito já ficou muito tempo na soleira.

Quando a luz do saguão caiu sobre o nosso visitante noturno, não tive dificuldade em reconhecê-lo. Era o jovem Stanley Hopkins, um detetive promissor, por cuja carreira Holmes várias vezes demonstrara muito interesse.

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