– Um caso simples, e mesmo assim, em certos aspectos, muito instrutivo – observou Holmes, na viagem de volta para a cidade. – Dependia desde o começo do pincenê. Mas sem a sorte de o moribundo tê-lo agarrado, não sei se conseguiríamos ter chegado à solução. Estava claro para mim, pelo grau das lentes, que o seu usuário ficaria muito cego e desamparado sem eles. Quando me pediu para acreditar que ele havia andado por uma estreita faixa de grama sem dar um único passo em falso, notei, como deve se lembrar, que seria um desempenho digno de nota. Em minha mente o defini como um desempenho impossível, a não ser no caso improvável de que tivesse um segundo par de óculos. Assim, fui obrigado a considerar seriamente a hipótese de que ela havia permanecido na casa. Ao perceber a semelhança entre os dois corredores, ficou claro que ela poderia facilmente cometer esse erro, e, neste caso, era evidente que devia ter entrado no quarto do professor. Portanto, eu estava atento para qualquer coisa que confirmasse essa suposição, e examinei o quarto detalhadamente, buscando algo que se assemelhasse a um esconderijo. O tapete parecia inteiriço e firmemente preso, portanto desisti da idéia da existência de um alçapão. Poderia muito bem haver uma saída por trás dos livros. Como sabe, esses acessos são comuns nas velhas bibliotecas. Observei que os livros estavam empilhados no chão em todos os outros lugares, mas aquele armário foi deixado livre. Esta, então, deveria ser a porta. Não consegui ver marca que me guiasse, mas o tapete estava desbotado, o que merecia uma investigação. Daí fumei uma grande quantidade daqueles excelentes cigarros, e joguei as cinzas por todo o espaço diante daquele armário suspeito. Era um truque simples, mas extremamente eficaz. Depois desci e verifiquei, em sua presença, Watson, sem você perceber a intenção de minhas perguntas, que o consumo de comida do professor aumentara – como alguém esperaria, se estivesse alimentando uma segunda pessoa. Depois voltamos ao quarto, quando, derrubando a caixa de cigarros, obtive uma ótima visão do chão, e pude ver bem claramente, pelos traços deixados nas cinzas de cigarro, que o prisioneiro, em nossa ausência, tinha saído de seu esconderijo. Bem, Hopkins, aqui estamos em Charing Cross, e eu o congratulo por ter levado seu caso a uma conclusão bem-sucedida. Está indo para a chefatura, sem dúvida. Acho, Watson, que você e eu iremos juntos à embaixada russa.

a aventura do “three-quarter”

desaparecido

Estávamos acostumados a receber telegramas estranhos na Baker Street, mas lembro-me especialmente de um que chegou numa melancólica manhã de fevereiro, há sete ou oito anos, e deixou Holmes intrigado durante uns 15 minutos. Estava endereçado a ele, e dizia o seguinte:

Por favor espere-me. Terrível infortúnio.

Three-quarter direito desaparecido, indispensável amanhã.

Overton.

– Carimbo postal de Strand e despachado às 22:36h – disse Holmes, lendo-o e relendo-o. – O sr. Overton estava evidentemente bastante excitado quando o mandou e, em conseqüência, um tanto incoerente. Bem, acho que ele estará aqui depois que eu tiver dado uma olhada no Times, e então saberemos de tudo. Até mesmo o problema mais insignificante seria bem-vindo nestes dias monótonos.

De fato as coisas tinham estado meio paradas conosco, e eu aprendera a temer esses períodos de inatividade, pois sabia por experiência que o cérebro do meu companheiro era tão anormalmente ativo que era perigoso deixá-lo sem material com que pudesse trabalhar. Durante anos eu o afastei gradativamente das drogas, que certa vez chegaram a ameaçar sua notável carreira. Agora eu sabia que em condições normais ele não procurava estímulo artificial, mas tinha consciência de que o demônio não estava morto, apenas dormia, e sabia que era um sono leve e o despertar ficava muito próximo quando, em períodos de ociosidade, observava a tensão no rosto austero de Holmes e a melancolia de seus olhos parados e inescrutáveis. Portanto, abençoei esse sr. Overton, quem quer que fosse, já que viera, com sua mensagem enigmática, interromper a perigosa calma que traria mais perigo ao meu amigo do que todas as borrascas de sua vida tempestuosa.

Como esperáramos, o telegrama foi logo seguido de seu remetente, e o cartão do sr. Cyril Overton, Trinity College, Cambridge, anunciou a chegada de um rapaz enorme, 16 stone* de ossos e músculos sólidos, que ocupou a moldura da porta com seus ombros largos, e olhou para nós com o rosto agradável crispado de ansiedade.

– Sr. Sherlock Holmes?

Meu amigo inclinou-se.

– Estive na Scotland Yard, sr. Holmes. Conversei com o inspetor Stanley Hopkins. Aconselhou-me a procurá-lo. Disse que o caso, pelo que lhe parecia, estava mais em sua linha do que na da polícia oficial.

– Por favor, sente-se e me fale do assunto.

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