– Não, não, meu caro Watson! Com todo o respeito pela sua argúcia, não creio que seja um adversário para o ilustre doutor. Acho possível chegar ao nosso objetivo por meio de algumas explorações independentes que farei. Devo deixá-lo com seus próprios afazeres, pois o aparecimento de dois estranhos perguntadores numa cidadezinha sonolenta desperta mais mexericos do que eu gostaria. Sem dúvida vai descobrir algumas paisagens para entretê-lo nesta cidade venerável, e espero trazer um relato mais favorável antes do anoitecer.
Entretanto, uma vez mais meu amigo estava destinado a ficar desapontado. Voltou à noite, cansado e sem êxito.
– Tive um dia infrutífero, Watson. Sabendo a direção em que o doutor costuma ir, passei o dia visitando todas as cidadezinhas daquele lado de Cambridge, comparando informações com taberneiros e outros estabelecimentos em que se sabe das notícias locais. Percorri um bom pedaço. Chesterton, Histon, Waterbeach e Oakington foram explorados, e cada um deles foi decepcionante. O aparecimento diário de uma carruagem e uma parelha dificilmente deixaria de ser notado naquelas paragens sonolentas. O doutor marcou um ponto de novo. Há algum telegrama para mim?
– Sim, eu o abri. Aqui está:
Pergunte por Pompey a Jeremy Dixon, Trinity College.
– Não entendi.
– Oh, está bem claro. É do nosso amigo Overton, e é em resposta a uma pergunta minha. Mandarei um bilhete ao sr. Jeremy Dixon, e então não tenho dúvida de que nossa sorte vai mudar. Falando nisso, há alguma notícia sobre o jogo?
– Sim, o jornal vespertino local fez um excelente relato em sua última edição. O Oxford ganhou por um gol e dois tries. A última frase da descrição diz:
A derrota dos Light Blues pode ser inteiramente atribuída à lamentável ausência do craque internacional Godfrey Staunton, que foi sentida em todos os momentos do jogo. A falta de entrosamento entre a linha de three-quarter e sua fragilidade tanto no ataque como na defesa mais do que neutralizou os esforços de um time sólido e diligente.
– Então as previsões do nosso amigo Overton estavam corretas – disse Holmes. – Pessoalmente estou de acordo com o dr. Armstrong, futebol não está no meu horizonte. Vou cedo para a cama hoje, porque estou prevendo que amanhã pode ser um dia cheio.
Fiquei horrorizado quando vi Holmes na manhã seguinte, pois estava sentado diante do fogo segurando sua fina seringa hipodérmica. Associei aquele instrumento à única fraqueza de sua natureza, e temi o pior quando a vi cintilando em sua mão. Ele riu ao ver minha expressão de aflição e a deixou sobre a mesa.
– Não, não, meu caro amigo, não há motivo para alarme. Nesta ocasião não é um instrumento do mal, mas será a chave que desvendará nosso mistério. Nesta seringa deposito todas as minhas esperanças. Acabei de voltar de uma pequena expedição de reconhecimento, e tudo está favorável. Tome um bom café-da-manhã, Watson, pois pretendo ficar na pista do dr. Armstrong hoje, e quando estiver nela não vou parar para descansar ou comer até chegar à sua toca.
– Nesse caso – eu disse – seria melhor levar conosco nosso desjejum, pois ele está saindo cedo. Sua carruagem já está esperando.
– Não se preocupe. Deixe-o ir. Ele seria mais esperto se tomasse um caminho por onde eu não o pudesse seguir. Quando você tiver terminado, desça comigo e eu o apresentarei a um detetive que é um grande especialista no trabalho que temos pela frente.
Quando descemos, segui Holmes até o estábulo, onde abriu a porta de uma espécie de jaula e libertou um cachorro malhado, atarracado, de orelhas caídas, algo entre um beagle e um cão de caça.
– Deixe-me apresentá-lo a Pompey – disse. – Pompey é o orgulho dos farejadores locais – não muito veloz, como sua constituição mostrará, mas um cão seguro numa pista. Bem, Pompey, você pode não ser veloz, mas acho que será rápido demais para uma dupla de cavalheiros de meia-idade de Londres, de modo que tomarei a liberdade de atar esta tira de couro em sua coleira. Agora, garoto, venha e mostre o que pode fazer. – Levou-o até o portão da casa do doutor. O cão farejou por um instante, e depois, com uivo agudo de excitação, correu pela rua, puxando a tira de couro, em seu esforço para andar mais depressa. Em meia hora estávamos fora da cidade, correndo por uma estrada do campo.
– O que fez, Holmes? – perguntei.
– Um ardil batido e venerável, mas útil nesta ocasião. Fui até o pátio do doutor esta manhã e esvaziei minha seringa cheia de erva-doce na roda traseira. Um farejador seguirá a erva-doce daqui até a China, e nosso amigo, Armstrong, teria que atravessar um rio para tirar Pompey de sua pista. Oh, o patife esperto! Foi assim que me despistou naquela noite.
O cachorro saiu de repente da estrada principal e entrou numa pastagem. Meio quilômetro adiante havia outra estrada larga, e a trilha virava para a direita, em direção à cidade que acabáramos de deixar. A estrada fazia uma curva para o sul da cidade e continuava no sentido oposto ao daquele de onde partimos.