– Mas acho que o senhor quer me consultar a respeito de alguma coisa mais recente e prática.

– Muito recente. É um assunto muito prático e muito urgente, que precisa ser decidido em 24 horas. Mas o manuscrito é curto e está intimamente ligado ao caso. Com sua permissão, vou lê-lo para o senhor.

Holmes recostou-se na cadeira, juntou as pontas dos dedos e fechou os olhos com ar de resignação. O dr. Mortimer aproximou o manuscrito da luz, e leu, numa voz alta e desafinada, esta narrativa antiga e curiosa:

Sobre a origem do Cão dos Baskervilles houve muitos relatos, mas como eu descendo em linha direta de Hugo Baskerville, e como ouvi a história de meu pai, que também a ouviu do seu, eu a registrei acreditando que ela ocorreu do modo como está relatada aqui. E gostaria que vocês acreditassem, meus filhos, que a mesma Justiça que pune o pecado também pode perdoá-lo com benevolência, e que nenhuma condenação é tão pesada que não possa ser anulada pela prece e pelo arrependimento. Então aprendam com esta história a não temer os frutos do passado, de modo que as paixões condenáveis, que fizeram nossa família sofrer de maneira tão atroz, não sejam novamente o motivo de nossa desgraça.

Saibam então que na época da Grande Rebelião (cuja história escrita pelo lorde Clavendon merece a atenção de vocês, e eu recomendo sinceramente) este solar de Baskerville foi dado ao Hugo com este sobrenome, e não se pode negar que ele era um homem violento, profano e ímpio. Isto, na verdade, seus vizinhos podem ter perdoado, já que santos nunca floresceram nessas regiões, mas havia nele uma tendência cruel e insolente que tornou seu nome conhecido em todo o oeste. Acontece que este Hugo se apaixonou (se, de fato, uma paixão tão sinistra pode ser chamada por um nome tão luminoso) pela filha de um pequeno proprietário rural que tinha terras perto da propriedade de Baskerville. Mas a jovem, que era discreta e de boa reputação, sempre o evitava, porque temia a má fama do seu nome.

Num Dia de São Miguel (29 de setembro), este Hugo, com cinco ou seis de seus amigos desocupados e perversos, invadiu a fazenda e levou a jovem, sabendo que o pai e os irmãos dela não estavam em casa. Eles levaram a jovem para a mansão e a instalaram num quarto no segundo andar, enquanto Hugo e seus amigos se acomodaram no andar de baixo para uma longa bebedeira, como costumavam fazer todas as noites. Mas a pobre moça, no andar de cima, estava a ponto de enlouquecer com a cantoria, os gritos e as terríveis blasfêmias que vinham do térreo, porque diziam que as palavras usadas por Hugo Baskerville quando estava bêbado eram do tipo que podia atrair a maldição para o homem que as proferia.

Por fim, impelida pelo medo, ela fez uma coisa que poderia ter intimidado o homem mais corajoso e mais ágil, porque com a ajuda da hera crescida que cobria (e ainda cobre) a parede sul, ela desceu pelo beiral e foi para sua casa atravessando o pântano, uma distância de 3 léguas entre a mansão e a fazenda do seu pai.

Pouco tempo depois, Hugo deixou seus amigos para levar comida e bebida – com outras coisas piores, possivelmente – para sua prisioneira, e descobriu que a gaiola estava vazia e que o pássaro fugira. Então, parece que ele ficou como alguém possuído pelo demônio, porque desceu correndo as escadas, entrou na sala de jantar, pulou por cima da grande mesa fazendo voar canecas e trinchantes, e gritou diante de todo o grupo que naquela mesma noite iria entregar seu corpo e sua alma às Forças do Mal se conseguisse agarrar a rapariga. E enquanto os estróinas ficavam horrorizados diante da fúria do homem, um mais perverso, ou talvez mais bêbado que o resto, gritou que eles deveriam pôr os cachorros atrás dela. Ao ouvir isso, Hugo saiu correndo da casa, gritando para os moços da estrebaria que selassem sua égua e soltassem os cães. Dando a eles um lenço de cabeça da moça, Hugo os atiçou, e partiram pelo pântano sob o luar.

Durante algum tempo os companheiros de farras ficaram boquiabertos, sem entender direito o que acontecera tão depressa. Mas logo suas mentes confusas despertaram e compreenderam o que estava prestes a ser feito naquele terreno pantanoso. Houve um rebuliço generalizado, alguns apanhando suas pistolas, outros procurando os cavalos, e alguns, mais garrafas de vinho. Mas, finalmente, recuperando um pouco da razão, todos eles, 13 no total, montaram nos cavalos e começaram a perseguição.

A lua brilhava no céu, e eles galoparam lado a lado pelo caminho que a moça devia ter seguido se estivesse indo para sua própria casa.

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