Mas ele mentiu quando disse isso, porque depois do café encontrei por acaso a sra. Barrymore no longo corredor, com o sol batendo em cheio no seu rosto. Ela era uma mulher grande, impassível, de feições grosseiras e com uma expressão severa e imóvel na boca. Mas seus olhos reveladores estavam vermelhos e olharam para mim por entre pálpebras inchadas. Fora ela, então, quem chorara durante a noite, e se chorara, seu marido devia saber disso. Contudo, ele havia assumido o risco óbvio da descoberta afirmando que não fora ela. Por que ele havia feito isto? E por que ela chorara tão amargamente? Em torno desse homem pálido, bonito e de barba preta já estava se acumulando uma atmosfera de mistério e de melancolia. Fora ele o primeiro a encontrar o corpo de sir Charles, e tínhamos apenas a sua palavra para todas as circunstâncias que levaram à morte do velho. Seria possível que fosse Barrymore, afinal de contas, que víramos no cabriolé na Regent Street? A barba podia ter sido a mesma. O cocheiro havia descrito um homem um pouco mais baixo, mas essa impressão podia facilmente ter sido equivocada. Como eu poderia tirar essa dúvida? Obviamente a primeira coisa a fazer era falar com o agente do correio de Grimpen e descobrir se o telegrama tinha sido entregue realmente nas mãos de Barrymore. Qualquer que fosse a resposta, eu deveria pelo menos ter alguma coisa para informar a Sherlock Holmes.
Sir Henry tinha muitos documentos para examinar após o café, de modo que o momento era propício para a minha excursão. Foi uma caminhada agradável de 4,5 quilômetros pela margem do pântano, levando-me por fim a um lugarejo triste, onde os dois prédios maiores, que eram a estalagem e a casa do dr. Mortimer, se destacavam do resto. O agente do correio, que era também o dono do armazém da aldeia, lembrava-se bem do telegrama.
– Claro, senhor – disse ele –, mandei entregar o telegrama ao Sr. Barrymore, exatamente como foi ordenado.
– Quem o entregou?
– Meu filho aqui. James, você entregou o telegrama ao sr. Barrymore na mansão na semana passada, não entregou?
– Sim, papai, entreguei.
– Nas mãos dele? – perguntei.
– Bem, ele estava lá em cima no sótão naquela hora, de modo que não pude entregá-lo em suas próprias mãos, mas entreguei-o nas mãos da sra. Barrymore, e ela prometeu entregar a ele imediatamente.
– Você viu o sr. Barrymore?
– Não, senhor. Eu disse ao senhor que ele estava no sótão.
– Se você não o viu, como sabe que ele estava no sótão?
– Bem, a mulher dele certamente devia saber onde ele estava – disse o agente do correio irritado. – Ele não recebeu o telegrama? Se houve algum engano, compete ao próprio sr. Barrymore reclamar.
Parecia inútil prosseguir no interrogatório, mas estava claro que, apesar do truque de Holmes, não tínhamos nenhuma prova de que Barrymore não estivesse em Londres o tempo todo. Suponhamos que assim fosse – suponhamos que o mesmo homem tivesse sido o último a ver sir Charles vivo e o primeiro a seguir o novo herdeiro quando este voltou à Inglaterra. E daí? Seria ele o instrumento de outros ou ele tinha algum desígnio sinistro próprio? Que interesse podia ter em perseguir a família Baskerville? Pensei no estranho aviso cortado do editorial do Times. Seria isso obra sua ou seria obra de alguém dedicado a contrariar os seus planos? O único motivo concebível era aquele que havia sido sugerido por sir Henry, que se a família pudesse ser afugentada, um lar confortável e permanente estaria garantido para os Barrymores. Mas certamente essa explicação seria totalmente inadequada para justificar o planejamento detalhado e sutil que parecia estar tecendo uma teia invisível em torno do jovem baronete. O próprio Holmes havia dito que nunca tiveram um caso mais complexo em toda a sua longa série de investigações sensacionais. Rezei enquanto caminhava de volta pela estrada triste e solitária, para que o meu amigo pudesse em breve estar livre de suas preocupações e tirasse esta pesada carga de responsabilidade dos meus ombros.
De repente meus pensamentos foram interrompidos pelo ruído de pés correndo atrás de mim e por uma voz que chamava o meu nome. Virei-me, esperando ver o dr. Mortimer, mas para minha surpresa era um estranho que estava me perseguindo. Era um homem pequeno, magro, bem barbeado, com expressão afetada, louro e de queixo pequeno, entre 30 e 40 anos de idade, vestido com um terno cinzento e usando um chapéu de palha. Uma caixa de metal para espécimes botânicos pendia do seu ombro e ele segurava uma rede verde para borboletas em uma das mãos.
– O senhor certamente vai desculpar minha presunção, dr. Watson – disse ele ao chegar ofegante ao lugar onde eu estava. – Aqui no pântano somos pessoas simples e não esperamos pelas apresentações formais. O senhor provavelmente deve ter ouvido o meu nome do nosso amigo comum, Mortimer. Eu sou Stapleton, da Casa de Merripit.
– A sua rede e a sua caixa teriam me revelado a mesma coisa – eu disse – porque eu sabia que o sr. Stapleton era naturalista. Mas como o senhor me reconheceu?