– Um cachorro! – disse Holmes. – Por Deus, um spaniel de pêlos encaracolados. O pobre Mortimer nunca verá o seu animal de estimação outra vez. Bem, pelo que sei, este lugar não contém qualquer outro segredo que já não tenhamos imaginado. Ele conseguiu esconder o seu cão mas não conseguiu calar sua voz, e daí aqueles gritos que, mesmo à luz do dia, não eram agradáveis de se ouvir. Numa emergência ele podia guardar o cão na dependência anexa de Merripit, mas era sempre um risco, e foi só no dia supremo, que ele considerou o fim de todos os seus esforços, que ousou fazer isso. Esta pasta na lata sem dúvida é a mistura luminosa com a qual a criatura era besuntada. Isso foi sugerido, é claro, pela história do cão diabólico da família, e pelo desejo de amedrontar o velho sir Charles até matá-lo. Não admira que o pobre-diabo do condenado corresse e gritasse, da mesma forma como o nosso amigo fez, e como nós mesmos teríamos feito, quando ele viu essa criatura saltando através da escuridão do pântano na sua pista. Foi um artifício esperto, porque, além da possibilidade de levar sua vítima à morte, que camponês se arriscaria a investigar com muito empenho a respeito dessa criatura se a tivesse visto, como muitos viram, no pântano? Eu disse em Londres, Watson, e digo outra vez agora, que nunca tínhamos ajudado a caçar um homem mais perigoso do que esse que jaz lá longe – ele girou seu braço comprido em direção à imensa extensão pantanosa, salpicada de manchas verdes que se estendiam até se fundir com as encostas avermelhadas do pântano.
um retrospecto
Era fim de novembro, e Holmes e eu estávamos sentados, numa noite fria, úmida e nevoenta, ao lado de uma lareira resplandecente em nossa sala da Baker Street. Desde o desfecho trágico da nossa visita ao Devonshire, ele esteve ocupado com dois casos da maior importância, no primeiro dos quais havia denunciado a conduta cruel do coronel Upwood em relação ao famoso escândalo das cartas do Clube Nonpareil, enquanto no segundo havia defendido a infeliz mme. Montpensier da acusação de assassinato que pesava sobre ela em relação à morte da sua enteada, mlle. Carère, a jovem que, como se deve lembrar, foi encontrada seis meses mais tarde viva e casada em Nova York. O meu amigo estava de excelente humor pelo sucesso obtido numa sucessão de casos difíceis e importantes, de modo que pude convencê-lo a discutir os detalhes do mistério de Baskerville. Eu havia esperado pacientemente pela oportunidade, porque sabia que ele nunca permitiria
que os casos se superpusessem, e que sua mente clara e lógica fosse desviada do seu trabalho atual para ficar remoendo lembranças do passado. Mas sir Henry e o dr. Mortimer estavam em Londres, a caminho daquela longa viagem que fora recomendada para a recuperação dos seus nervos abalados. Eles haviam nos visitado naquela mesma tarde, de modo que era natural que o assunto surgisse para discussão.
– Todo o curso dos acontecimentos – disse Holmes –, do ponto de vista do homem que chamava a si mesmo de Stapleton, era simples e direto, embora para nós, que no começo não tínhamos nenhum meio de saber os motivos dos seus atos e podíamos conhecer apenas uma parte dos fatos, tudo parecesse extremamente complexo. Eu tive a vantagem de duas conversas com a sra. Stapleton, e o caso agora foi tão completamente esclarecido que não sei se há alguma coisa que tenha permanecido secreta para nós. Você encontrará algumas anotações sobre o assunto na letra B da minha lista de casos.
– Talvez você pudesse fazer a gentileza de me dar, de memória, um resumo do curso dos acontecimentos.
– Certamente, embora não possa garantir que tenha todos os fatos em mente. A concentração mental intensa tem uma maneira curiosa de apagar o que passou. O advogado que tem o seu caso na ponta da língua e pode discutir com um especialista sobre o seu próprio assunto descobre que uma semana ou duas de tribunal afastará isso tudo da sua cabeça mais uma vez. De modo que cada um dos meus casos substitui o último, e mlle. Carère apagou a minha lembrança da Mansão Baskerville. Amanhã algum outro probleminha pode ser submetido à minha atenção, o que, por sua vez, desalojará a bela dama francesa e o infame Upwood. No que diz respeito ao caso do cão, contudo, vou dar-lhe a sucessão dos fatos da maneira mais aproximada possível, e você sugerirá qualquer coisa que eu possa ter esquecido.