Fiz um resumo do que tinha acontecido desde o nosso último encontro: o novo método de Holmes para encontrar a Aurora e o êxito; o aparecimento de Athelney Jones, a nossa expedição à tarde e a caçada feroz pelo Tâmisa. Ela ouviu o relato das nossas aventuras com os lábios entreabertos e os olhos cintilantes. Quando falei do dardo que por um triz não nos atingira, ela ficou tão pálida que temi que desmaiasse.

– Não é nada – disse ela quando eu quis ir buscar água para borrifar-lhe o rosto. – Já estou bem. Foi um choque saber do perigo que correram por minha causa!

– Está tudo acabado, não foi nada. Não lhe contarei mais detalhes tenebrosos. Vamos falar agora de coisas mais alegres. Aqui está o tesouro. Tive licença para trazê-lo, pensando que gostaria de ser a primeira a vê-lo.

– Seria do maior interesse para mim – ela disse. Mas não havia ansiedade na sua voz. Ela compreen-

deu que seria indelicado de sua parte não demonstrar interesse por um prêmio que custara tanto para ser conquistado.

– Que cofre bonito – disse, examinando-o. – É um trabalho indiano?

– É trabalho em metal feito em Benares.

– E como é pesado! – exclamou, tentando levantálo. – Só a caixa deve valer muito. Onde está a chave?

– Small atirou-a no Tâmisa – eu respondi. – Dê-me o atiçador do fogão.

Na frente da caixa havia uma imagem de Buda sentado. Enfiei por baixo da figura a ponta do ferro e levantei a tampa. A fechadura partiu-se com um estrondo. Com as mãos tremendo, ergui a tampa. Ficamos atônitos. O cofre estava vazio!

Não admirava que fosse pesado. O trabalho de ferro tinha quase dois centímetros de espessura em toda a volta. Era maciço, bem-feito e sólido; um cofre feito para carregar objetos de grande valor. Mas não havia nenhum sinal de jóias dentro; estava completamente vazio.

– O tesouro está perdido – disse a srta. Morstan calmamente.

Quando ouvi estas palavras e compreendi o que elas significavam, tive a impressão de que uma grande sombra se afastava da minha alma. Eu não sabia o mal que este tesouro me fizera até este momento, quando finalmente eu me livrava deste peso. Não há dúvida de que era egoísta, desleal, errado; mas a única coisa que eu percebia agora era que aquela barreira de ouro não estava mais entre nós.

– Graças a Deus! – suspirei do fundo da alma.

Ela me olhou com um sorriso repentino e inquiridor:

– Por que diz isso?

– Porque agora você está ao meu alcance novamente – eu disse, segurando-lhe a mão. Ela não a retirou. – Porque a amo, Mary, tão sinceramente quanto se pode amar uma mulher. Porque este tesouro, estas riquezas fechavam meus lábios. Agora que se foram, posso dizer quanto a amo! Por isso eu disse “Graças a Deus”.

– Então, eu também direi graças a Deus – ela murmurou quando a puxei para perto de mim.

Alguém pode ter perdido um tesouro, mas o que sabia é que eu ganhara um naquela noite.

Capítulo 12

a estranha narrativa de jonathan

inspetor que ficou esperando era muito paciente, porque me demorei um tempo infinito.

Seu rosto tornou-se sombrio quando eu lhe mostrei que o cofre estava vazio.

– Lá se vai a recompensa – disse ele com tristeza. – Quando não há dinheiro, não há pagamento. Esta noite de trabalho valeria uma nota de 10 libras para mim e para Sam Brown, se o tesouro fosse encontrado.

– O sr. Tadeu Sholto é um homem rico, esteja certo de que será gratificado, com tesouro ou sem tesouro.

Mas o agente sacudiu a cabeça, desapontado:

– É um mau negócio, e o sr. Jones também vai pensar assim.

A sua previsão estava correta porque o policial empalideceu quando lhe mostrei o cofre vazio em Baker Street. Tinham acabado de chegar, ele, Holmes e o prisioneiro, porque tinham parado no caminho. O meu companheiro estendeu-se na sua poltrona com a sua expressão apática habitual e Small sentou-se em frente e, imperturbável, cruzou a perna-de-pau sobre a outra. Quando mostrei a caixa vazia, recostou-se na cadeira e caiu na gargalhada.

– Isso é coisa sua, Small – disse Jones, irritado.

– É. Eu o escondi num lugar onde nunca poderão ir buscá-lo – disse exultante. – O tesouro é meu, e já que não posso ter a minha parte, ninguém terá coisa alguma dele. Já disse que nenhum ser vivo tem direito a ele, além de três homens que moram nas barracas dos degredados nas Andamã e eu. Sei agora que não posso usá-lo, e eles também não. Fiz tudo para mim mesmo e para eles. Nós agimos sempre juntos sob O sinal dos quatro. Tenho a certeza de que eles teriam feito exatamente o que eu fiz. Joguei o tesouro no Tâmisa para que não fosse parar nas mãos de descendentes ou parentes de Sholto ou de Morstan. Não foi para enriquecê-los que demos cabo de Achmet. Podem achar o tesouro no lugar onde estão a chave e o pequeno Tonga. Quando vi que a sua lancha ia nos alcançar, pus tudo em lugar seguro. Para o trabalhinho de hoje não há rubis.

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