Contei tudo ao Brock sobre a família Garrick e, durante uma bebida pós-jantar no seu apartamento, sugere-me algumas explicações nada úteis para o porquê de eu lá ter estado meia dúzia de vezes e Wendy Garrick nunca ter saído daquele quarto de hóspedes, apesar de eu ter a certeza de que está lá dentro. Aquela vez em que a porta se entreabriu foi o mais perto que estive de a ver.

– Não é uma vampira – digo, enfiando as pernas debaixo de mim no sofá do Brock.

– Não sabes isso.

– Sei. Porque os vampiros não existem.

– Um lobisomem, então?

Dou-lhe uma palmada no braço que quase o faz entornar o copo de vinho que tem na mão.

– Isso nem sequer faz sentido. Por que teria ela de ficar no quarto se fosse um lobisomem?

– Está bem, então talvez... – diz, pensativo. – Talvez tenha uma pequena fita verde à volta do pescoço e, se alguém a desatar, cai-lhe a cabeça?

Bebo um gole do vinho caro que o Brock me serviu. As garrafas caras são de longe melhores do que as baratas, mas nunca consigo detetar todas as notas subtis de melada ou lavanda ou seja lá o que for. Está sempre a perguntar-me, pelo que agora minto e digo-lhe que as consigo sentir, mas não consigo realmente. Estou a fingir o vinho.

– Tenho um pressentimento estranho – observo. – Só isso.

– Bem, já te dei todas as minhas melhores ideias – rodeando-me com o braço, puxa-me mais para si. – Portanto, se não é uma vampira, um lobisomem ou uma cabeça cortada, o que achas tu que se passa?

– Eu... – Pouso o meu copo de vinho na mesa de café e mordo o lábio inferior. – Sinceramente, não faço ideia. É só um mau pressentimento.

Por um momento, o Brock parece distraído, olhando para o meu copo quase cheio em cima da mesa.

– Não vais acabar isso?

– Não sei. Acho que não.

– Mas é um Giuseppe Quintarelli – diz, como se isso explicasse absolutamente tudo.

– Suponho que não tenho sede.

– Sede? – Parece traumatizado com a minha afirmação. – Millie, não se bebe vinho por se estar com sede.

– Está bem. – Agarro no copo e bebo outro gole. Às vezes, pergunto-me por que anda sequer comigo, além de, segundo diz, me achar bonita. Age como se tivesse imensa sorte por estar comigo. Mas isso é de loucos. Não sou eu o bom partido. Ele é que é. – Tens razão. É muito bom.

Acabo o resto do copo de vinho, mas a verdade é que passo todo esse tempo a pensar nos Garrick.

9

Adquiri o hábito de me pôr à escuta de cada vez que passo pela porta do quarto de hóspedes.

É bisbilhotar. Sei que sim – não o nego mas não consigo evitar. Há um mês que trabalho para os Garrick e ainda não conheci oficialmente Wendy Garrick. Ouvi ruídos vindos daquele quarto, ainda assim. E, em pelo menos três ocasiões, vi a porta entreaberta. Mas fechou-se sempre antes que eu me conseguisse apresentar.

Não seria um eufemismo dizer que a minha imaginação anda em roda viva. Vi muitas coisas estranhas nos meus anos a limpar casas. E muitas coisas más. Houve um período em que costumava tentar resolver algumas dessas coisas más. Mas há já muito tempo que não o faço.

Desde que o Enzo partiu.

Quando vou a descer o corredor, oiço nitidamente algo vindo do quarto de hóspedes. Geralmente, está tudo bastante sossegado lá dentro, pelo que isto é algo diferente. Paro, de aspirador na mão, e encosto o ouvido à porta. E desta vez consigo ouvir o som com muito mais clareza.

É um choro.

Está alguém a soluçar lá dentro.

Prometi a Douglas que não batia à porta. Mas, por alguma razão, vem-me à cabeça Kitty Genovese. Ainda que o Brock diga que toda a história foi um exagero, sei que acontecem coisas más quando as pessoas normais passam ao largo.

Assim, bato com os nós dos dedos na porta. Imediatamente, o choro cessa.

– Olá? – chamo. – Senhora Garrick? Sente-se bem?

Não obtenho resposta.

– Senhora Garrick? – repito. – Está bem?

Nada.

Tento uma tática diferente.

– Não saio daqui até ver que está bem. Fico aqui o dia inteiro, se for preciso.

E então fico ali parada, à espera.

Ao fim de alguns segundos, oiço passos suaves atrás da porta. Recuo um passo enquanto esta se entreabre uns cinco centímetros, até eu poder ver aquele olho verde a fitar-me. Com efeito, o branco do olho está manchado por veias vermelhas e a pálpebra está inchada.

– O. Que. Quer? – silva-me a proprietária do olho.

– Sou a Millie – digo. – A sua empregada de limpeza.

Não reage a isso.

– E ouvi chorar – acrescento.

– Estou bem – responde firmemente.

– Tem a certeza? Porque eu...

– Estou certa de que o meu marido lhe disse que não me tenho andado a sentir bem. – O seu tom é seco. – Só quero descansar.

– Sim, mas...

Antes que eu possa dizer mais uma palavra, Wendy Garrick fecha-me a porta na cara. Lá se vai a minha intenção de chegar a ela. Pelo menos tentei.

Pesadamente, volto a descer as escadas, arrastando o aspirador comigo. Estou a perder o meu tempo ao tentar sequer envolver-me. Sempre que falo no assunto ao Brock por estes dias, diz-me que tenho de me meter na minha vida.

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