– Mas não o fiz. – Endireita o queixo. – Porque, por uma vez, não me sentia inteiramente sozinha. E lembrei-me do que me tinha dito sobre falar com alguém que o Douglas não conhecesse. Alguém do meu passado que nunca tivesse conhecido. E lembrei-me da minha velha amiga da faculdade, a Fiona. Era uma das minhas melhores amigas, não falamos há séculos e não tinha qualquer contacto com ela através das redes sociais.
Arqueio as sobrancelhas.
– Vai tentar encontrá-la, então?
– Já encontrei. – As maçãs do rosto geralmente pálidas da Wendy ruborizam-se. – Consegui o número de telefone dela ligando a outra amiga da faculdade... e é claro que a fiz jurar segredo. E esta manhã a Fiona e eu conversámos durante horas. Tem uma quinta mesmo à saída de Potsdam, no norte de Nova Iorque. Está maioritariamente desligada do mundo, exceto pelo telefone fixo. Contei-lhe tudo sobre a minha situação e disse-me que posso ficar com ela o tempo que precisar.
Embora aplauda a sua iniciativa, isto não resolverá o problema. Mesmo que não a encontre lá, não pode ficar escondida para sempre no norte de Nova Iorque. Nem sequer terá forma de arranjar emprego sem algum tipo de identificação ou número de segurança social. Era nisso que o Enzo costumava ajudar. Com o tipo de recursos que Douglas tem, encontrá-la-á num instante quando ela utilizar o seu verdadeiro nome. Aprendi também, por experiência própria, que de nada adianta ir à polícia quando se trata destes homens incrivelmente ricos e poderosos –sabem como untar as mãos certas.
– Sei que não é uma solução permanente – admite. –Mas não faz mal. Desde que possa ficar lá algum tempo e planear os meus próximos passos. Talvez possa arranjar um advogado que me ajude a lidar com o sistema enquanto estou escondida dele. Ou talvez possa encontrar alguém que me ajude a recomeçar. – Trémula, respira fundo. – O importante é que deixarei de estar com ele. E que não será capaz de me alcançar.
– Isso é fantástico, Wendy – digo. E digo-o a sério, apesar de estar prestes a perder um emprego muito lucrativo. É certo que guardei a pulseira que me impingiu no outro dia, e podia provavelmente pô-la no prego por um mês de renda. Além do mais, tenho um pressentimento que, depois da minha conversa com o Brock amanhã, talvez acabemos por ir viver juntos, afinal. (Ou por acabar para sempre. Ou uma ou outra.)
– Mas eis a questão – acrescenta Wendy. – Preciso da sua ajuda.
– Com certeza! Tudo o que precisar.
– É algo a modos que grande – diz. – Mas eu compenso-a.
– Seja o que for.
– Preciso de boleia. – Treme-lhe ligeiramente a mão ao puxar a gola. – O meu plano é partir amanhã, quando o Douglas sair da cidade. Estará do outro lado do país, por isso, mesmo que tenha alguma suspeita de que eu parti, não haverá nada que possa fazer a esse respeito... não de imediato, pelo menos.
– Certo...
– A Fiona diz que me pode ir buscar, se eu conseguir chegar a Albany – prossegue. – Não pode deixar a quinta o dia todo. Portanto, preciso de boleia até Albany. Podia alugar um carro, mas teria de lhes dar a minha identificação e...
– Eu faço-o – interrompo. – Alugo o carro. Levo-a a Albany. Sem problemas.
– Obrigada, Millie. – Aperta-me as mãos nas suas. – Prometo que lhe dou o dinheiro em numerário. Não sabe o quanto lhe agradeço por isto.
– Não se preocupe com o dinheiro – digo, apesar de estar muito preocupada com o dinheiro em geral. – Precisa mais dele do que eu.
Wendy rodeia-me com os braços e só então sinto quão
frágil é realmente o seu corpo. Podia esmagá-la, se a abraçasse com um pouco mais de força.
Ao afastar-se, tem lágrimas nos olhos.
– Tem de saber que, se me ajudar, estará a pôr-se em perigo.
– Compreendo isso.
– Não, não compreende. – Lambe os lábios ligeiramente gretados. – O Douglas é um homem extremamente perigoso e, digo-lhe, fará o que for preciso para me encontrar e trazer de volta, o que for preciso.
– Não tenho medo – respondo.
No fundo da minha mente, porém, há uma voz que me diz que talvez devesse ter medo. Que seria um erro grave subestimar Douglas Garrick.
26
Na manhã seguinte, alugo um carro.
Apesar de lhe ter dito que não era necessário, Wendy deu-me o valor em dinheiro do aluguer, ainda que eu vá utilizar o meu cartão de crédito para o fazer. Não quero o aluguer deste carro associado a ela seja de que maneira for.
Claro que há probabilidades razoáveis de Douglas Garrick vir a suspeitar que eu tive algo a ver com o desaparecimento da mulher. Mas nunca, jamais, a denunciarei. Nem que me torture, o que sinceramente não excluiria. Um homem capaz de fazer aquilo ao rosto da mulher é capaz de tudo.
– Olá, bem-vinda à
– Reservei um