– Achas mesmo que podes atirar com as culpas de tudo isto para a Millie?

– Vê só.

TERCEIRA PARTE

59

MILLIE

A minha cabeça não para de andar à roda.

Desligo a televisão e fecho os olhos por um minuto. Ainda só passou um dia desde que alvejei mortalmente um homem num apartamento no Upper West Side, mas o que acabo de ver mudou tudo.

Tento visualizar o Douglas Garrick. Vejo claramente o seu cabelo penteado para trás, os seus profundos olhos castanhos, as suas maçãs do rosto salientes. Vi-o inúmeras vezes nos últimos meses. E aquele homem na reportagem da televisão não era ele.

Ou, pelo menos, não me parece.

Agarro no meu telemóvel e abro o navegador da Internet. Já anteriormente pesquisei pelo Douglas Garrick, e sempre houve artigos sobre o seu cargo de diretor-executivo da Coinstock, mas nunca qualquer foto. Agora, porém, dúzias de ligações enchem o ecrã, e posso carregar em qualquer uma delas para abrir a mesma foto de rosto do Douglas Garrick.

Estudo a foto no ecrã do meu telemóvel. Este homem tem vagas parecenças com aquele que eu conheço, mas não é ele. O homem na fotografia tem, pelo menos, mais uns dez ou doze quilos do que o que eu conheci, e aquele incisivo esquerdo torto também é diferente. E todas as suas feições são ligeiramente distintas – o nariz, os lábios, a ligeira papada. Embora suponha que algumas pessoas pareçam mesmo diferentes nas fotografias do que são na vida real. Talvez esteja muito retocado?

Talvez seja a mesma pessoa. Tem de ser, não tem? Porque, caso contrário, nada disto faz qualquer sentido.

Oh, meu Deus, sinto que estou a enlouquecer.

Talvez esteja realmente a ficar louca. Talvez tenha andado a ter um caso secreto com o Douglas Garrick. Quer dizer, aquele detetive parecia certamente ter muitas provas. E, ao que parece, a Wendy Garrick disse que era verdade.

Mas eu não passei a noite naquele hotel com o Douglas (ou quem quer que fosse o homem que eu conhecia como tal). E posso prová-lo. Porque regressei à cidade depois de deixar a Wendy. E tenho uma testemunha.

Enzo Accardi.

Estava relutante em contactar o Enzo, mas não tenho alternativa. O meu namorado abandonou-me, o que não foi totalmente surpreendente, mas não deixou de ser desolador. Nos últimos quatro anos, tenho sido terrível a aproximar-me das pessoas, por ter tanto medo do que irão pensar de mim quando souberem do meu passado. E com razão. Mal soube do meu registo criminal, o Brock desapareceu. E por isso aqui estou, sem ninguém do meu lado. Ninguém que acredite em mim.

Exceto o Enzo. Ele acreditará em mim.

E, se não acreditar, é assim que saberei que estou realmente em apuros.

Encontro o nome do Enzo nos meus contactos, à minha espera, como sempre. Hesito por uma fração de segundo, depois carrego no seu nome.

O telefone mal começou a chamar quando atende. Quase desato a chorar ante o som da sua voz familiar.

– Millie?

– Enzo – consigo dizer. – Estou em grandes sarilhos.

– Sim. Eu vi as notícias. O teu patrão está morto.

– Então, hã... – tusso para a mão. – Há alguma hipótese de poderes vir cá?

– Dá-me cinco minutos.

60

Quatro minutos depois, estou a abrir a porta ao Enzo.

– Obrigada – digo-lhe, enquanto entra no meu o apartamento. – Não... não sabia a quem mais ligar.

– O Brócolo não está aqui para ajudar? – zomba.

Baixo os olhos.

– Não. Isso acabou.

O seu rosto esmorece.

– Lamento. Sei que gostavas do Brócolo.

Gostava? Tinha-lhe carinho, mas a verdade é que, de cada vez que dizia que me amava, causava-me arrepios. Não é isso que é suposto sentirmos pelo nosso companheiro. O Brock era praticamente perfeito, mas nunca me consegui apaixonar completamente – sempre me pareceu temporário. Estou certa de que fará alguma outra mulher extremamente feliz, mas nunca iria ser eu.

– Estou bem – acabo por dizer. – Tenho problemas maiores neste momento.

O Enzo segue-me para o interior do apartamento e sentamo-nos no meu sofá maltrapilho. Quando morávamos juntos, o nosso sofá era apenas ligeiramente melhor do que este. Mas tive de desistir desse apartamento quando deixou de estar disponível para pagar a sua metade da renda, e não consegui arranjar uma forma de transportar o sofá, por isso deixei-o para trás. Tento não pensar nisso agora, ainda assim. Não faz sentido ficar irritada com o Enzo quando está a tentar ajudar-me.

– A polícia anda a dizer todo o tipo de coisas malucas a meu respeito – conto-lhe. – A Wendy disse-lhes que eu estava a ter um caso com o Douglas. Não faz sentido, mas distorceram todas estas coisas que aconteceram para dar a ideia de que eu ia lá para dormir com ele.

Lentamente, o Enzo assente.

– Eu disse-te que eles eram perigosos.

– Disseste que o Douglas Garrick era perigoso.

– Vai dar ao mesmo.

– Não, não vai – digo. – Na verdade, quando estava a ver as notícias agora mesmo, percebi uma coisa. O homem que me contratou, que se identificava como Douglas Garrick, não é o mesmo homem das notícias. É alguém completamente diferente.

Agora, o Enzo está a olhar para mim como se eu tivesse perdido o juízo.

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