O meu olhar encontra o do Enzo. Os seus olhos arregalam-se por um momento, e então corre para a cozinha e agarra no guardanapo com a morada antes que eu o possa alcançar. Amarrota-o na mão e segura-o sob o lava-loiça até a tinta se esvair.

– Não – diz com firmeza. – Não te vou deixar fazer algo estúpido.

– Tarde de mais – respondo. – Já memorizei o endereço.

– Millie! – fala com uma voz incisiva, de olhos arregalados. – Não vás à cabana. Não estás a pensar com clareza neste momento. Não fizeste nada de errado e não irás para a prisão a menos que lhes dês uma razão para te enviarem para lá!

– Estás enganado. – Ergo o queixo. – Vou para a prisão seja como for. Mais vale merecê-lo.

– Millie. – Enzo agarra-me o pulso com a sua grande mão. – Não te vou deixar fazer algo estúpido. Promete-me que não irás àquela cabana.

Olho-o fixamente.

– Promete-me. Não sairás daqui a menos que prometas.

Não me agarra com força suficiente para me magoar, mas com a necessária para eu não poder escapar. Está a esforçar-se tanto por me salvar de mim mesma. É querido. O Brock não se cansava de o dizer, mas o Enzo ama-me verdadeiramente. E acredito que, mesmo que eu seja presa, fará tudo o que puder para me libertar. Fará tudo o que puder para expor a verdade.

– Tudo bem – digo. – Não vou.

– Prometes?

– Prometo.

Solta-me o pulso. Dá um passo atrás, com ar lastimoso.

– E eu prometo que vou resolver isto.

Anuo. Deixei a minha bolsa no seu sofá e estendo agora a mão para a agarrar.

– Mais vale voltar para o meu apartamento e enfrentar a situação.

– Queres que vá contigo?

– Não. – Ponho a bolsa ao ombro. – Não quero que vejas quando me algemarem.

O Enzo estende os braços para mim. Dá-me um último beijo, que sinceramente quase basta para me permitir suportar um par de anos na prisão. Ninguém beija como este homem. O Brock não era certamente capaz de o fazer.

– Prometo – sussurra-me ao ouvido. – Não te deixarei voltar para a prisão.

Afasto-me, a tremer ligeiramente.

– Vou para casa agora.

Aperta-me a mão.

– Vou procurar-te um bom advogado. Arranjarei maneira de o pagar.

O seu pequeno estúdio está cheio de móveis do lixo, e mordo a língua para me impedir de dizer algo sarcástico.

– Vou ter saudades tuas.

– E eu tuas – responde-me.

– E... amo-te.

Não parecia certo quando o dizia ao Brock, mas parece certo agora. Não podia sair daqui sem lho dizer.

– Também te amo, Millie – diz. – Tanto.

Amo-o deveras. Sempre amei. E é por isso que odeio mentir-lhe.

Mas não o posso deixar saber que tenho as chaves do seu carro escondidas na minha bolsa.

Descobri-lo-á em breve.

QUARTA PARTE

66

WENDY

Q Russell e eu estamos a celebrar com uma garrafa de champanhe.

Apesar de ser um pouco arriscado, trouxe-me para a sua cabana no lago para fugir ao enorme número de jornalistas acampados em frente ao apartamento e à casa em Long Island. Tecnicamente, esta cabana pertence à Marybeth e, quando a deixar, voltará a ser dela. Mas não faz mal, pois sou agora mais rica do que nos meus sonhos mais loucos. Sou rica para lá de toda a compreensão humana. Não preciso desta pequena cabana de dois quartos.

Embora tenha um incrivelmente agradável sistema de hidromassagem na banheira extra grande. É como estar num jacúzi.

Durante a viagem, mantivemo-nos de olho no retrovisor para garantir que não havia jornalistas a seguir-nos. O último troço do trajeto estava bastante deserto, pelo que, se houvesse alguém no nosso encalço, facilmente teria sido visto. O Russell disse à Marybeth que ia numa viagem de negócios. Prospeção de móveis ou assim. A mim, não interessa o que lhe disse. Ela já não tem importância.

– Estou tão feliz – murmuro. – Acho que já não me sentia tão feliz há muito tempo.

O Russell sorri, embora haja algo tenso na sua expressão. Não fez segredo de que não queria matar o Douglas.

Ainda não posso acreditar que me obrigou a fazer o trabalho sujo enquanto se encolhia de medo na cozinha. Tem sorte em ser atraente, pois perdi muito do respeito que lhe tinha nessa noite. Devia estar agradecido, não a olhar para mim como se eu fosse alguma espécie de monstro, por amor de Deus.

Bem, se não estiver feliz, pode voltar para a megera da sua mulher e eu arranjarei alguém novo com quem gozar os meus milhões de dólares.

Verto o resto do champanhe no copo do Russell.

– É delicioso – observo. – Onde o arranjaste?

– A Marybeth gosta. – Ultimamente, parece ter começado a falar da mulher com mais frequência e menos ressentimento do que antes. Não é bom sinal.

– Tens mais? – pergunto.

– Acho que não há mais champanhe. Mas talvez haja algum vinho na cozinha.

Irrita-me que o Russell não se ofereça para o ir buscar. Os homens são todos iguais – no início, fazem todos os esforços para nos dar tudo o que queremos, mas depois acabam por nos tomar por garantidas. Que tipo de cavalheiro não se oferece para ir buscar uma garrafa de vinho a uma mulher?

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