— Ninguém importante. Mas não lhe perguntei seu nome: perguntei quem é. E porque se aproximou de mim. E por que eu senti a mesma necessidade de conversar com você. Será que foi o fato de sermos as duas únicas mulheres naquele bar? Não creio: e está me dizendo coisas que fazem sentido na minha vida.

Tornou a pegar as malas, e continuamos a caminhar em direção à estação de ônibus.

— Eu também tenho um segundo nome: Edda. Mas ele não foi escolhido ao acaso. Como tampouco creio que o acaso nos colocou juntas.

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Diante de nós estava a porta da estação de ônibus, com várias pessoas entrando e saindo, militares em seus uniformes, camponeses, mulheres bonitas mas vestidas como se vivessem há cinqüenta anos.

— Se não foi o acaso, você acha que foi o quê?

Ainda faltava meia hora para que seu ônibus partisse, e eu podia ter respondido: foi a Mãe. Alguns espíritos escolhidos emitem uma luz especial, devem se encontrar, e você — Sherine ou Athena — é um destes espíritos, mas precisa trabalhar muito para usar esta energia em seu favor.

Podia ter explicado que estava seguindo o caminho clássico de uma feiticeira, que busca através da individualidade o seu contato com o mundo superior e inferior, mas termina sempre destruindo sua própria vida — serve, dá energia, e jamais a recebe de volta.

Podia ter explicado que, embora os caminhos sejam individuais, existe sempre a etapa onde as pessoas se unem, celebram juntas, discutem suas dificuldades, e se preparam para o Renascer da Mãe. Que o contato com a Luz Divina é a maior realidade que um ser humano pode experimentar, e mesmo assim, na minha tradição, este contato não podia ser feito de maneira solitária, porque existiam anos, séculos de perseguição, que nos ensinaram muitas coisas.

— Você não quer entrar para tomar um café, enquanto espero o ônibus?

Não, eu não queria. Ia terminar dizendo coisas que, a esta altura, seriam mal interpretadas.

— Certas pessoas foram muito importantes na minha vida

— continuou ela. — O proprietário do meu apartamento, por exemplo. Ou um calígrafo que conheci no deserto perto de Dubai.

Quem sabe me diga coisas que eu possa dividir com eles, e retribuir tudo que me ensinaram.

Então, ela já tivera mestres em sua vida: ótimo! Seu espírito estava maduro. Tudo que precisava era continuar seu 235

treinamento; caso contrário, iria terminar perdendo o que tinha conquistado. Mas seria eu a pessoa indicada?

Em uma fração de segundo, pedi que a Mãe me

inspirasse, me dissesse algo. Não tive resposta — o que não me surpreendeu, porque Ela sempre agia assim quando eu precisava arcar com a responsabilidade de uma decisão.

Estendi meu cartão de visitas, e pedi o seu. Ela me deu um endereço de Dubai, que eu não tinha a menor idéia de onde ficava.

Resolvi brincar um pouco, e testar um pouco mais.

— Não é um pouco de coincidência que três ingleses se encontrem em um bar de Bucareste?

— Pelo que vejo no seu cartão, você é escocesa. O tal homem parece trabalhar na Inglaterra, mas eu não sei nada a respeito dele.

Respirou fundo.

— E eu sou... romena.

Expliquei que precisava voltar correndo para o hotel e arrumar minhas malas.

Agora ela sabia onde me encontrar, e, se estivesse escrito, nos veríamos de novo; é importante permitir que o destino interfira em nossas vidas, e decida o que é melhor para todos.

Vosho “Bushalo”, 65 anos, dono de restaurante Esses europeus chegam aqui achando que sabem de tudo, que merecem um melhor tratamento, que têm o direito de nos inundar de perguntas, e somos obrigados a respondê-las. Por outro lado, acham que trocando nosso nome para algo mais complicado, como “povo viajante”, ou “os roma”, podem corrigir os erros que cometeram no passado.

Por que não continuam nos chamando de ciganos, e procuram acabar com as lendas que sempre nos fizeram parecer malditos diante dos olhos do mundo? Nos acusam de frutos da união 236

ilícita entre uma mulher e o próprio demônio. Dizem que um de nós forjou os cravos que pregaram o Cristo na cruz, que as mães deviam ter cuidado quando as nossas caravanas se aproximam, porque costumamos roubar crianças e transformá-las em escravas.

E por causa disso permitiram massacres ao longo da história — fomos caçados como as bruxas na Idade Média, durante séculos os tribunais alemães não aceitavam nosso testemunho.

Quando o vento nazista varreu a Europa eu já havia nascido, e vi meu pai sendo deportado para um campo de concentração na Polônia, com o humilhante símbolo de um triângulo negro costurado em sua roupa. Dos 500.000 ciganos enviados para trabalho escravo, sobreviveram apenas 5.000 para contar a história.

E ninguém, absolutamente ninguém, quer escutar isso.

Nesta região esquecida da terra, onde a maior parte das tribos resolveu se instalar, até o ano passado nossa cultura, religião e língua eram proibidas. Se perguntarem a qualquer pessoa da cidade o que acham dos ciganos, dirão sem pensar muito:

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