Nos dias que se seguiram, terminei minhas pesquisas para o documentário, mandei o meu intérprete de volta para Bucareste com o carro alugado e, a partir daquele momento, fiquei em Sibiu apenas porque queria encontrá-la de novo. Embora tenha sempre sido alguém guiado pela lógica, capaz de entender que o amor pode ser construído e não simplesmente descoberto, sabia que se não tornasse mais a vê-la estaria deixando para sempre na Transilvânia uma parte importante de minha vida, embora só muito mais tarde viesse a descobrir isso. Lutei contra a monotonia, daquelas horas sem fim, mais de uma vez fui até a estação para 242

saber os horários de ônibus para Bucareste, gastei em telefonemas para a BBC e para minha namorada mais do que o meu pequeno orçamento de produtor independente permitia. Explicava que o material ainda não estava pronto, que faltavam algumas coisas, talvez um dia a mais, talvez uma semana, os romenos eram muito complicados, sempre ficavam revoltados quando alguém associava a linda Transilvânia à horrorosa história de Drácula. Os produtores pareceram finalmente convencer-se, e me deixaram ficar além do tempo necessário.

Estávamos hospedados no único hotel da cidade, e um dia ela apareceu, me viu de novo no hall, nosso primeiro encontro parece ter voltado à sua cabeça; desta vez me convidou para sair, e procurei conter minha alegria. Talvez eu também fosse importante em sua vida.

Mais tarde descobri que a frase que dissera no final de sua dança era um antigo provérbio cigano.

Liliana, costureira, idade e sobrenome desconhecidos Falo no presente porque para nós não existe tempo, apenas espaço. Porque parece ontem.

O único costume tribal que não segui foi o de ter o homem ao meu lado no momento de Athena nascer. Mas as parteiras vieram, mesmo sabendo que eu tinha dormido com um gaje, um estrangeiro. Soltaram meus cabelos, arrancaram o cordão umbilical, deram vários nós, e me entregaram. Neste momento, a tradição mandava que a criança fosse envolta em uma peça de roupa do seu pai; ele tinha deixado um lenço, que me lembrava seu perfume, que de vez em quando eu aproximava do meu nariz para senti-lo perto, e agora este perfume iria desaparecer para sempre.

Eu a envolvi no lenço e a coloquei no solo, para que recebesse a energia da Terra. Fiquei ali, sem saber o que sentir, o que pensar; minha decisão já estava tomada.

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Elas disseram que eu escolhesse um nome, e que não dissesse para ninguém — só podia ser pronunciado depois que a menina fosse batizada. Entregaram-me óleo consagrado, e os amuletos que devia colocar em seu pescoço duas semanas depois.

Uma delas disse que não me preocupasse, a tribo inteira era responsável por ela, e que eu devia me acostumar com as críticas

— isso iria passar logo. Aconselharam-me também a não sair entre o entardecer e a aurora, porque os tsinvari ( N.R.: espíritos malignos) podiam nos atacar e nos possuir, e a partir daí nossa vida seria uma tragédia.

Uma semana depois, assim que o sol nasceu, fui até um centro de adoção em Sibiu para colocá-la na soleira da porta, esperando que uma mão caridosa viesse recolhê-la. Quando ia fazendo isso, uma enfermeira me pegou e me levou para dentro.

Ofendeu-me o quanto pôde, disse que já estavam preparados para esse tipo de comportamento: sempre alguém ficava vigiando, eu não podia escapar assim tão facilmente da responsabilidade de trazer uma criança ao mundo.

— Claro, não se pode esperar outra coisa de uma cigana: abandonar seu filho!

Fui obrigada a preencher uma ficha com todos os dados, e, como não sabia escrever, ela repetiu mais uma vez: “claro, uma cigana. E não tente nos enganar fornecendo dados falsos, ou poderá ir parar na cadeia”. Por medo, terminei contando a verdade.

Eu a olhei uma última vez, e tudo que consegui pensar foi: “menina sem nome, que você encontre amor, muito amor em sua vida”.

Saí e fiquei caminhando pela floresta durantes horas.

Me lembrava das muitas noites durante a gravidez, onde amava e odiava a criança e o homem que a colocou dentro de mim.

Como toda mulher, vivi com o sonho de encontrar o príncipe encantado, casar-me, encher minha casa de filhos e minha família de cuidados. Como grande parte das mulheres, terminei me apaixonando por um homem que não podia me dar isso — mas com quem 244

dividi momentos que jamais esquecerei. Momentos que eu não poderia fazer com que a criança entendesse, ela seria sempre estigmatizada no seio de nossa tribo, uma gaje, uma menina sem pai. Eu poderia suportar, mas não queria que ela passasse pelo mesmo sofrimento que eu vinha passando desde que descobri que estava grávida.

Chorava e arranhava a mim mesma, pensando que a dor talvez me fizesse pensar menos, voltar para a vida, para a vergonha da tribo; alguém tomaria conta da menina, e eu sempre viveria com a idéia de revê-la um dia, quando estivesse grande.

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