– Ou podia ter juntado suas forças às dele para derrubar os Lannister – Davos argumentou. – E por que não? Se ela viu dois futuros, bem… não podem ser
Rei Stannis apontou um dedo para ele:
– É aí que erra, Cavaleiro das Cebolas. Há luzes que lançam mais do que uma sombra. Ponha-se em frente da fogueira da noite e verá por si próprio. As chamas mudam e dançam, nunca estão quietas. As sombras crescem e encolhem, e cada homem lança uma dúzia. Algumas são mais tênues do que outras, é tudo. Pois bem, os homens lançam também as suas sombras sobre o futuro. Uma sombra ou muitas. Melisandre vê todas. Não gosta da mulher. Sei disso, Davos, não sou cego. Meus senhores tampouco simpatizam com ela. Estermont pensa que o coração flamejante foi mal escolhido e pede para lutar sob o veado coroado como antigamente. Sor Guyard diz que uma mulher não devia ser meu porta-estandarte. Outros sussurram que ela não tem lugar em meus conselhos de guerra, que devia mandá-la de volta para Asshai, que é pecaminoso mantê-la em minha tenda durante a noite. Sim, eles sussurram… enquanto ela serve.
– Serve como? – Davos perguntou, temendo a resposta.
– Como é necessário – o rei o encarou. – E você?
– Eu… – Davos lambeu os lábios. – Estou às suas ordens. O que quer que faça?
– Nada que não tenha feito antes. Basta que acoste um barco sob o castelo, sem ser visto, na calada da noite. Pode fazer isso?
– Sim. Esta noite?
O rei confirmou com um brusco meneio.
– Vai precisar de um barco pequeno. O
Davos quis protestar. Era agora um cavaleiro, não mais um contrabandista, e nunca tinha sido um assassino. Mas, quando abriu a boca, as palavras não quiseram vir. Aquele era
– Está quieto – Stannis observou.
– Meu suserano, tem que tomar o castelo, compreendo isso agora, mas certamente deve haver outras maneiras. Maneiras mais
– Eu preciso ter o rapaz, Davos.
Davos procurou outra resposta.
– Ponta Tempestade não tem nenhum cavaleiro que seja capaz de se opor a Sor Guyard ou a Lorde Caron, ou a qualquer outro de uma centena de cavaleiros que tem ao seu lado. Esse combate singular… Será possível que Sor Cortnay procure uma maneira de se render com honra? Mesmo que isso signifique sua vida?
Uma expressão perturbada cruzou o rosto do rei como uma nuvem passageira.
– O mais provável é que planeje alguma traição. Não haverá nenhum combate de campeões. Sor Cortnay estava morto antes mesmo de arremessar aquela luva. As chamas não mentem, Davos.
E foi assim que deu por si atravessando mais uma vez a Baía dos Naufrágios na noite cerrada, manobrando um barco minúsculo com uma vela negra. O céu era o mesmo, e o mar também. Havia o mesmo cheiro salgado no ar, e os risinhos da água contra o casco eram tal e qual se lembrava. Mil fogueiras oscilantes ardiam em torno do castelo, tal como as fogueiras que os Tyrell e os Redwyne tinham dezesseis anos antes. Mas todo o resto era diferente.
Melisandre aconchegou-se em uma bancada, perdida nas dobras de um manto vermelho-escuro que a cobria da cabeça aos pés, com a face pálida sob o capuz. Davos adorava a água. Dormia melhor quando tinha um convés balançando por baixo do corpo, e o suspiro do vento no cordame era para ele um som mais doce do que qualquer coisa que um cantor conseguisse tirar das cordas de sua harpa. Mas nem mesmo o mar lhe trazia conforto naquela noite.
– Consigo cheirar o medo em você, sor cavaleiro – disse a mulher vermelha em voz baixa.