Franzindo a testa, Davos mandou-a se calar. Estavam de novo se aproximando da costa, e as vozes chegavam longe por sobre a água. Remou, fazendo com que o tênue som dos remos se perdesse no ritmo das ondas. O lado virado para o mar de Ponta Tempestade empoleirava-se num pálido penhasco branco, cuja pedra calcária se erguia abruptamente até vez e meia a altura da maciça muralha exterior do castelo. Uma abertura bocejava na falésia, e era para lá que Davos levava o barco, como tinha levado dezesseis anos antes. O túnel abria-se numa caverna sob o castelo, onde os antigos senhores da tempestade tinham construído seu cais.

A passagem só era navegável durante a maré cheia, e nunca era menos que traiçoeira, mas sua perícia de contrabandista não o abandonara. Davos abriu caminho com habilidade por entre os rochedos recortados até que a abertura do túnel se ergueu na frente deles. Deixou que as ondas os levassem para dentro. Esmagavam-se ao redor deles, atirando o barco para um lado e para o outro e ensopando-os até os ossos. Uma ponta de rocha entrevista surgiu de repente da escuridão, rosnando de espuma, e Davos só por pouco conseguiu mantê-los afastados dela com um remo.

E então tinham passado, submersos em escuridão, e as águas se acalmaram. O pequeno barco desacelerou e rodopiou. O som de suas respirações ecoou até parecer rodeá-los. Davos não esperava aquele negrume. Da última vez, ardiam tochas ao longo de todo o túnel, e os olhos de homens esfomeados espreitavam através dos alçapões do teto. Sabia que a porta levadiça estava em algum lugar mais à frente. Ele usou os remos para segurar o barco e deslizaram contra a porta quase com suavidade.

– Não podemos avançar mais, a menos que tenha um homem lá dentro que ice o portão para nós – seus sussurros correram pelas águas que batiam contra o casco como uma fileira de ratos com patas suaves e cor-de-rosa.

– Passamos para dentro das muralhas?

– Sim. Por baixo. Mas não podemos avançar mais. A porta levadiça desce até o fundo. E as barras são tão pouco espaçadas que nem uma criança consegue se esgueirar entre elas.

A única resposta foi um pequeno ruído. E então uma luz germinou nas trevas.

Davos levantou uma mão para proteger os olhos, e ficou com a respiração presa na garganta. Melisandre tinha jogado o capuz para trás e saía de dentro da sufocante veste. Por baixo estava nua, e enormemente grávida. Seios inchados pendiam pesadamente sobre o peito, e a barriga projetava-se como se estivesse prestes a estourar.

Que os deuses nos protejam – Davos sussurrou, e ouviu a gargalhada que ela soltou em resposta, profunda e gutural. Os olhos eram carvões quentes, e o suor que manchava sua pele parecia cintilar com uma luz própria. Melisandre brilhava.

Ofegando, a mulher agachou e abriu as pernas. Sangue escorreu por suas coxas, negro como tinta. Seu grito podia ter sido de agonia, de êxtase ou de ambas as coisas. E Davos viu o topo da cabeça da criança abrindo caminho para fora dela. Dois braços libertaram-se, agarrando-se, com dedos negros que se enrolavam em volta das coxas retesadas de Melisandre, empurrando, até que a sombra deslizou por completo para o mundo e se ergueu, mais alta do que Davos, tão alta como o túnel, pairando por cima do barco. Teve apenas um instante para olhar para ela antes que desaparecesse, contorcendo-se por entre as barras da porta levadiça e correndo pela superfície da água, mas esse instante foi mais do que o suficiente.

Ele conhecia aquela sombra. E conhecia o homem que a lançava.

Jon

O toque chegou, arrastado pelo vento, no escuro da noite. Jon apoiou-se num cotovelo, estendendo a mão até Garralonga por força do hábito enquanto o acampamento começava a se agitar. A trombeta que acorda os adormecidos, pensou.

A longa nota grave demorou-se no limiar da audição. As sentinelas no muro circular imobilizaram-se como estavam, com a respiração congelando e a cabeça virada para oeste. À medida que o som da trombeta se desvanecia, até o vento parou de soprar. Homens saíram de debaixo de suas mantas e alcançaram suas lanças e cintos de espadas, movendo-se em silêncio, escutando. Um cavalo relinchou e foi aquietado. Durante um instante pareceu que a floresta inteira estava segurando a respiração. Os irmãos da Patrulha da Noite esperaram um segundo sopro, rezando para que não o ouvissem, temendo ouvi-lo.

Quando o silêncio se prolongou por um tempo insuportavelmente longo e os homens souberam enfim que a trombeta não soaria de novo, sorriram uns para os outros de forma tímida, como que para negar que tivessem se sentido ansiosos. Jon Snow alimentou a fogueira com alguns gravetos, afivelou o cinto da espada, calçou as botas, sacudiu a terra e o orvalho do manto e o apertou em volta dos ombros. As chamas ardiam ao seu lado, trazendo um calor bem-vindo ao seu rosto enquanto se vestia. Ouvia o Senhor Comandante movendo-se dentro da tenda. Um momento mais tarde, Mormont ergueu a aba:

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