Não fora Tomás que falara numa orgia? Que coisas mais seria ela forçada a fazer para manter o disfarce? Será que o mestre-de-cerimónias também lhe meteria a cabeça entre as pernas, como nesse mesmo instante fazia à mulher deitada sobre o altar? Pior ainda, será que ela, Raquel, teria de lhe fazer o mesmo? As perspectivas pareciam-lhe demasiado grotescas para poderem ser contempladas. Por que raio concordara ela com aquele plano 450

louco? Como sairia daquele imbróglio?

A situação no altar evoluíra entretanto. Magus tinha-se libertado também do manto escarlate e a mulher que estava deitada sobre a mesa erguera-se e tinha a cabeça mergulhada entre as pernas dele, fazendo movimentos rítmicos para cima e para baixo. À distância não se viam os pormenores, mas era evidente o que se passava. Depois ela voltou a estender-se de costas sobre o altar e o mestre-de-cerimónias pôs-se em cima dela e levou o acto sexual até ao termo. Terminou entre vagidos e urros e, quando por fim se levantou, pegou num pequeno sino e tocou-o três vezes.

Tratava-se com certeza de um sinal, pois, logo que soou o terceiro toque, os acólitos nus abraçaram-se e começaram a beijar-se com volúpia e gula carnal. Vendo o que se passava em redor, e percebendo que teria de imitar a congregação, Tomás abraçou Raquel e beijou-a nos lábios. A espanhola permanecia hesitante, sem perceber se deveria cooperar ou pôr um travão àquela loucura desenfreada.

"Confesso que estava ansiosa por fazer isto contigo, cariño", sussurrou-lhe ela ao ouvido. "Mas não aqui, não nestas circunstâncias nem desta maneira. O que vamos agora fazer?"

"Teatro", devolveu ele. "Vemos o que eles fazem e fingimos que fazemos o mesmo. Estão todos entretidos, ninguém vai notar."

A espanhola soltou uma risadinha baixa.

"Muy bien", assentiu. "Mas com uma condição: quando esta confusão acabar, fazemos tudo isto, mas a sério e em privado."

Tomás calou-a com um beijo, os olhos meio abertos para espreitar o que se passava em redor. A certa altura os acólitos puseram-se a copular e, sob o olhar virginal da Vénus de Bottieelli, o português deitou-se sobre a sua companheira e ambos fingiram que o faziam também.

Por esta altura Magus pronunciava estranhas palavras rituais, como uma litania concebida para acompanhar o acto, segurando 451

diante da boca uma bola de quartzo tetraedro.

"Nee-thrar-ethun-aye-att-arz-oth", entoou. "Binn-ann-ath-ga-waf-amm."

De rosto colado ao de Tomás, Raquel fez um sinal na direcção do mestre-de-cerimónias.

"O que raio está ele para ali a fazer?"

"Usa uma fórmula de Paracelso para invocar Satanás e os demónios, pedindo-lhes que se juntem à orgia", esclareceu o historiador, mantendo os movimentos rítmicos da anca a simular a cópula. "As seitas satânicas acreditam que as orgias libertam a energia sexual reprimida pelo cristianismo. Essa energia é canalizada para a bola de quartzo que ele tem na mão, conferindo-lhe assim maior força. Essa força será depois usada para o Magus cimentar o seu poder."

A espanhola manteve os olhos presos no companheiro por cima dela; parecia na dúvida sobre como o deveria avaliar.

"Como diabo sabes tudo isso?"

"Sou historiador", sorriu ele. "As missas negras vêm da Idade Média e tive de as estudar. Até li o Malleus Maleficarum."

"Maleus... quê?"

"É um velho manual sobre bruxaria." Ergueu as sobrancelhas.

"Muito instrutivo."

Terminaram o acto simulado ao fim de um curto minuto, fingindo o êxtase no final. Quando concluíram olharam em redor. Alguns acólitos também já haviam terminado o sexo ritual e vestiam as túnicas, pelo que os imitaram.

Os mais retardatários da congregação puseram fim à orgia uns cinco minutos mais tarde. Magus encerrou então a formulação das palavras mágicas diante da bola de quartzo tetraedro, escolhida devido às suas vibrações especiais, e regressou ao altar. Pegou na lâmpada e voltou a espalhar incenso pelo espaço em redor.

"Glória a ti, senhor Belzebu, mestre dos Infernos, rei da..." "Dá 452

licença, poderoso Magus?"

A prece foi interrompida pelo homenzarrão que guardava o cortile e que entrou nesse momento na sala. O mestre-de-cerimónias pousou no chão a lâmpada com o incenso.

"Ah, Mefistófeles! Que se passa?"

O guarda aproximou-se de Magus e segredou-lhe umas palavras imperceptíveis à distância. O mestre-de-cerimónias fez um sinal, mandando o homenzarrão de volta para a porta, e encarou a congregação.

"Meus irmãos, a hora aproxima-se", disse Magus. "É meia-noite e Mefistófeles acabou de me anunciar que os nossos convidados chegaram. Dêmos graças ao Senhor dos Infernos."

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