Sem deixar à espanhola tempo para levantar objecções, Tomás regou de vinho as roupas dos dois e deixou-os inanimados num canto escuro do passeio coberto pela galeria; quem por ali passasse e os visse pensaria que não passavam de uns ébrios que dormiam naquele canto. Depois pegou num saco e fez sinal à companheira de que o imitasse. Não muito convencida, Raquel agarrou no saco da mulher que tinham posto sem sentidos e acompanhou-o em direcção à 444
entrada dos Uffizi, ambos assumindo a identidade do casal encapuzado.
"Estás louco!", sussurrou ela com a voz dominada pelo alarme.
"Não podemos entrar sem ler primeiro esse versículo da Bíblia!..."
"Não há tempo."
"Mas... vamos ser apanhados!"
"Temos de arriscar, não há alternativa!"
Cruzaram a entrada pela fachada de Vasari e depararam-se imediatamente com o homem corpulento que vigiava o acesso e lhes cortou o caminho no início do cortile, o pátio interior dos Uffizi.
"Como te chamas?"
Tomás ficou embasbacado, sem saber o que responder.
"Domenico", acabou por dizer, improvisando com o primeiro nome que lhe veio à cabeça. "O meu nome é Domenico."
O homem arreganhou os dentes, numa expressão de contrariedade.
"Não é isso, idiota!", repreendeu-o. "A contra-senha. 'Como te chamas?'"
O historiador percebeu nesse instante que a própria pergunta era a senha; teria de dar a contra-senha. Mas que contra-senha seria adequada a uma senha daquelas? Reflectiu durante uma fracção de segundo e concluiu que só podia tratar-se de uma citação do Evangelho de Marcos, mencionado no papelinho que haviam encontrado nos bolsos do casal que tinham posto fora de combate junto ao Ponte Vecchio. Fez um esforço para se lembrar do que lera no Evangelho de Marcos e ocorreu-lhe então o episódio do exorcismo de Jesus em Gerasa, descrito pelo evangelista, no qual Jesus perguntou a um espírito maligno como se chamava.
"Legião", disse Tomás de repente, quase como se a palavra fosse a sua bóia de salvação. "Chamo-me Legião, porque somos muitos.'"
O guarda deu um passo para o lado.
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"Podem passar", autorizou, apontando para uma porta à direita.
"Subam por ali até ao terceiro andar. Os homens vestem-se na Sala Lippi, as mulheres na Sala Leonardo, e a cerimónia começou na Sala Botticelli, entre a Lippi e a Leonardo. Despachem-se, já vão atrasados!"
Antes que fizessem algo que os denunciasse, Os dois retardatários apressaram o passo e desapareceram para lá da porta indicada, Raquel pasmada com a presença de espírito do historiador.
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LXVII
A sala estava mergulhada na escuridão, apenas iluminada pelas chamas trémulas de quatro velas assentes em cruz, cada uma num ponto cardeal. Vestidos com as tónicas ásperas que haviam retirado dos sacos, Tomás e Raquel entraram em passo leve na Sala Borticelli e juntaram-se ao grupo de acólitos que, também de túnica, se encontrava de costas, toda a gente virada para a parede interior. Diante dessa parede, decorada com um tríptico de Van der Goes a representar a adoração ao menino Jesus, estava uma mesa que, ornamentada por Uma enorme cabeça de bode, parecia desempenhar a função de altar; o contraste entre o altar demoníaco e o tríptico cristão era evidentemente uma maldade intencional.
Os recém-chegados espreitaram e perceberam que havia uma mulher estendida sobre a mesa, deitada de costas com uma vela negra em cada mão, as chamas trémulas a bambolearem como serpentes hipnotizadas. Um homem envolvido num manto escarlate brilhante e com um capuz a ocultar-lhe a cara, como de resto toda a gente naquele espaço, aproximou-se dela em passos lentos e, com um movimento brusco, meteu-lhe a mão por dentro da túnica para lhe apalpar uni seio. De seguida inclinou-se e beijou-a lascivamente na boca.
"Madre mia!", sussurrou Raquel, chocada. "Que é isto?" "Uma missa negra", retorquiu Tomás num sopro. "Chiu." "E aquele? Quem é?"
Aquele era o homem de manto escarlate que, inclinado a beijar a mulher, parecia dominar o altar e dirigir o que se passava na Sala Botticelli.
"É Magus, o mestre-de-cerimónias." O português colou as palmas das mãos e esboçou um gesto de súplica. "Agora cala-te, por favor. Ainda nos 447
denuncias!..."
Depois de executar os preliminares de natureza sexual, designadamente beijos concupiscentes e prolongadas carícias nos seios e entre as pernas da mulher estendida sobre o altar, Magus endireitou-se e, voltando-se para Os fiéis, passou para um acólito um cálice de bronze com um pentagrama invertido.