alemão e, já por terra, encolheu-se também, tentando proteger sobretudo a cabeça e o ventre. Esperava que a sua atitude acabasse por desencorajá-los. Não foi, contudo, o que aconteceu. Embalados por um chorrilho de palavras de ordem bradadas com zelo implacável, os anarquistas descarregaram sobre ele toda a sua fúria e os golpes, alguns dos quais desferidos com a biqueira de botas, começaram a tornar-se demasiado dolorosos.

Foi então que Tomás perdeu a noção de espaço e até de tempo.

A realidade tornou-se difusa e o mundo começou a rodopiar em torno dele; era como se estivesse embriagado. A certa altura sentiu-se tão embrutecido que deixou até de ouvir a gritaria animalesca em seu redor e de sentir os golpes desferidos sobre o seu corpo com intensidade selvática, como se a própria dor o tivesse anestesiado e a sua alma se tivesse transferido para uma outra dimensão, feita de torpor e indiferença.

"Professor?..."

A voz parecia vir do fundo de um túnel, longínqua e envolvida num estranho eco, com a ressonância e a irrealidade próprias das coisas imaginadas a meio de um delírio febril, decerto um efeito do sonho em que a sua mente mergulhara, mera fantasia que o sono profundo debitara. Decidiu ignorá-la, não passava de um débil murmúrio que se perdia no labirinto da imaterialidade, coisa menor e tão irrelevante que não merecia a sua atenção.

"Professor?..."

Desta feita a voz soou bem mais perto, quase como se fosse soprada a dois palmos de distância; parecia que irrompera no sonho e o trazia à realidade. Foi uma surpresa e levou-o a considerar a possibilidade de reagir. O que tinha a perder?

"Há?"

Ouviu-se um suspiro.

"Louvado seja Deus!", devolveu a voz, como se se dirigisse a 53

alguém. "Está a recuperar os sentidos!"

Sentindo o corpo dorido e as pálpebras incrivelmente pesadas, Tomás concentrou toda a sua vontade nos olhos e conseguiu enfim abri-los. Um ponto amarelado de luz rompeu a imagem desfocada que se formou no seu campo de visão. Apercebeu-se de uma sombra difusa a cortar o ponto de luz e voltou a achar que estava a sonhar, pelo que cerrou de novo as pálpebras.

"Professor! Acorde!"

Definitivamente, não podia ser um mero sonho, as palavras eram demasiado reais para isso. Apesar da debilidade que se apoderara dele, reabriu os olhos e concentrou a sua atenção na sombra. Tudo lhe parecia baço e lento, como se estivesse com uma ressaca.

"Que... que se passa?"

Os olhos focaram o vulto diante dele e a mancha escura adquiriu contornos até formar primeiro as linhas de um rosto e depois as expressões de uma pessoa. Mirou a face interrogativamente, como uma criança a estudar um animal que nunca vira antes, e após alguns longos segundos reconheceu por fim o que fitava com tanto esforço.

Era o professor Markopoulou que lhe sorria.

54

VI

A esponja estava molhada e era fria, mas revelou-se justamente aquilo de que Tomás mais precisava no momento em que recuperou os sentidos. O professor Markopoulou passou-a devagar sobre a testa e o rosto do colega, sempre com especial cuidado nas partes manchadas por nódoas negras, inchaços e outros hematomas.

O português passou o olhar dormente pela cela. Viu o recluso alemão sentado na esteira vizinha, a cabeça ligada e dois adesivos na cara, a seguir atentamente os cuidados que o arqueólogo grego dedicava ao colega que viera de Lisboa.

"Ach, parece que lhe devo a vida", disse o alemão num inglês levemente gutural. "Muito obrigado pela sua intervenção. Sem ela..."

Bufou, como se nem se atrevesse a pensar no que lhe teria sucedido.

"Mein Gott!..."

Tomás fez um esforço para sorrir.

"Não se preocupe."

O alemão levantou-se do seu lugar e estendeu-lhe a mão.

"O meu nome é Sammer", apresentou-se. "Josef Sammer, mas os amigos chamam-me Sepp."

Tomás apertou-lhe a mão com um esgar de dor; o esforço de levantar o braço revelou-lhe contusões insuspeitadas no ombro.

Depois de trocar algumas amabilidades com o homem pelo qual quase perdera a vida, desviou os olhos para o resto da cela, procurando os anarquistas que o haviam agredido; não vislumbrou 55

sinal deles. Na verdade, o espaço até lhe parecia diferente.

"Onde estamos?"

O arqueólogo grego passou uma última vez a esponja pela cara do ferido e depois recolheu-a; já servira o seu propósito.

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