"É verdade que a nossa economia é atrasada", concedeu o professor Markopoulou. "Mas o euro devia servir para a modernizar. Foi o que sempre nos disseram."
O alemão suspirou.
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"Oiça, uma economia não se moderniza por artes mágicas", sublinhou. "Quem faz a economia da Grécia são os Gregos, não são os restantes europeus. Como poderia a vossa economia mudar se vocês não a mudaram? Pior anda, o dinheiro que vos chegou foi esbanjado à grande e à francesa! Vocês gastaram o crédito que o euro vos proporcionou em importações e subsídios e a vossa economia continuou a funcionar nos mesmos termos medievais. Aliás, nada funciona a não ser através da ilegalidade. A fuga ao fisco é generalizada e a corrupção também."
O arqueólogo voltou a corar.
"Temos alguns problemas nessa área, reconheço, mas não é assim tão grave!..."
"Ai não? Então não foi o senhor que ainda há pouco teve de subornar o médico para nos tratar?"
"A fakelaki é uma velha tradição cultural."
"A fakelaki é corrupção institucionalizada. Aqui na Grécia pagam-se subornos para receber tratamento no serviço público de saúde e pagam-se subornos para obter autorizações de construção. Até se pagam subornos aos inspectores do fisco, ou não é verdade?"
O professor Markopoulou engoliu em seco e baixou os olhos.
"Não vou dizer que não."
"Cada família grega paga em média mil e quinhentos euros por ano em fakelaki e toda a gente acha isso normal. Até conheço os preços que se praticam! São trezentos euros por baixo da mesa para passar numa inspecção automóvel e dois mil e quinhentos euros para avançar numa lista de espera para uma operação num hospital do estado. E isto é apenas a ponta do icebergue da festarola que o FMI aqui encontrou As filhas dos funcionários públicos reformados .
recebiam pensões vitalícias mesmo depois da morte dos pais desde que não casassem. O estado grego iniciou um programa chamado Turismo para Todos em que pagava aos pobres para irem passar férias. Os caminhos-61
-de-ferro gregos têm tantos prejuízos que se calculou que ficaria mais barato pagar um táxi a cada um dos seus utentes. O país não produz nada, mas o salário mínimo quando o FMI aqui chegou andava nos setecentos e cinquenta euros, quase o dobro de Portugal. E quando chegamos às pensões?" O alemão soltou uma gargalhada. "Ui, aqui a fantasia atinge o clímax! O valor da reforma dos Gregos foi fixado em noventa e seis por cento do seu salário, mais do dobro da proporção alemã. A idade de reforma na Grécia era de apenas cinquenta e oito anos, quando na Alemanha chega aos sessenta e sete. Vocês até davam reforma mais cedo a quem tinha profissões supostamente árduas, profissões de incrível dureza física como cabeleireiros, lavadores de automóveis, técnicos de rádio, recepcionistas de banhos turcos..."
O arqueólogo fez um gesto irritado com a mão direita.
"Está bem, exageramos um bocadinho", admitiu. "Mas isso não é motivo para nos tratarem dessa maneira!"
"A única coisa que se vos pede é que tenham juízo e só gastem o dinheiro que o vosso país efectivamente produz, não o dinheiro que os outros produzem" disse Sepp. "Vocês adoptaram uma política social irrealista e decidiram pagá-la com o dinheiro dos outros. Chamaram a essa fantasia desmedida 'modernização da economia'. Mas, como é evidente, a pândega não podia durar para sempre. Não era sustentável. Quando a realidade se impôs, o que fizeram vocês?
Estenderam a mão e exigiram que pagássemos pelos vossos desmandos! O resgate de um país que usou tão mal O nosso dinheiro é um roubo aos contribuintes alemães! E em vez de perceberem o que realmente fizeram de mal e entenderem os nossos protestos preferiram transformar-nos em bodes expiatórios." Abriu os braços. "Até parece que a culpa é dos Alemães!"
Fez-se um silêncio pesado na cela. O professor Markopoulou parecia ter desistido de contra-argumentar e Sepp Sammer, vendo-o baixar 62
os braços, decidiu poupá-lo a mais embaraços. Restava Tomás, que assistira à conversa em silêncio e que se sentia cada vez mais surpreendido com a avalancha de dados debitados pelo alemão. Não lhe parecia normal ver um turista tão bem informado sobre a economia da Grécia.
"Diga-me uma coisa, Sepp", disse. "O que faz você na vida?"
"Tenho uma estalagem em Darmstadt."
A revelação adensou a perplexidade e a curiosidade do historiador português.
"Como é que um estalajadeiro de Darmstadt sabe tanta coisa sobre a economia grega?"