Hoag encontrou no cais, à sua espera, um granadeiro e Lim, que usava um casaco branco, calça preta larga, sandálias e um pequeno solidéu. Assim que ele desembarcou, Hoag fez uma indolente e simbólica reverência.
— Ei, amo, Lim, garoto número um.
— Vamos esquecer essa conversa de cule em pidgin, Lim. — disse Hoag, num cantonês passável, fazendo com que os olhos do chinês se contraíssem. — Sou o Doutor em Medicina Sábio Duminado.
Esse era o nome chinês de Hoag — o significado dos dois caracteres mais próximos do som cantonês de “ho” e “ag”, selecionado entre dezenas de possibilidades por Gordon Chen, o compradore da Struan, um de seus pacientes.
Lim fitou-o fixamente, fingindo não entender, a maneira usual e mais rápida de fazer um demônio estrangeiro perder a compostura, um demônio que tivera a impertinência de aprender umas poucas palavras da língua civilizada.
—
— Doutor em Medicina Sábio Iluminado?
— E em breve ouvirá mais, se eu for chamado outra vez de demônio estrangeiro. Foi Chen da Casa Nobre quem escolheu meu nome.
— Chen da Casa Nobre? — Lim ficou espantado. — Ilustre Chen, que tem mais sacos de ouro do que um boi tem pêlos?
— Concordo — declarou Hoag, para logo acrescentar uma afirmação que não estava longe da verdade:— E ele também me disse que se eu tivesse problemas com qualquer pessoa do reino médio... quer fosse alta ou baixa... ou que não prestasse de imediato os serviços que um amigo seu deveria esperar, que lhe mencionasse o nome do vil fornicador de mãe ao voltar.
—
O Dr. Hoag sentiu que alcançara a grandeza, abençoando seus mestres, em particular os pacientes agradecidos, que haviam lhe ensinado as palavras realmente importantes, e como lidar com certas pessoas e situações no reino médio. O dia era quente e agradável, a aparência da pequena cidade atraente, com templos que podia divisar acima dos telhados, pescadores em atividade nas águas próximas da terra, camponeses por toda parte nos arrozais, pessoas circulando de um lado para outro e o inevitável movimento intenso na
George Babcott estava na sala de cirurgia, ajudado na operação por um acólito japonês, um aprendiz designado pelo
— O pobre coitado é um pescador, ficou com a perna presa entre o barco e o cais, o que nunca deveria ter acontecido, acho que tomou
— Já, sim. Não tem pressa. É um prazer tornar a vê-lo, George. Posso ajudar em alguma coisa?
— Eu agradeceria. Está tudo bem aqui, mas não poderia peneirar a multidão lá fora? Os que são casos urgentes, os que podem esperar. Trate de qualquer um que quiser. Há outra “sala de cirurgia” ao lado, embora seja pouco mais que uma enfermaria. Mura, passe o serrote.
Ele fez o pedido ao assistente, num inglês lento e incisivo, recebeu o serrote e começou a usá-lo.
— Sempre que tenho uma cirurgia aqui, o movimento parece aumentar. Ali naquele armário vai encontrar os placebos comuns, iodo, etc, os medicamentos usuais, analgésicos, xaropes amargos para as doces velhinhas e xaropes doces para as tosses violentas.
Hoag deixou-o e foi examinar os homens, mulheres e crianças à espera, impressionado com sua disciplina e paciência, as mesuras e a ausência de barulho. Logo constatou que nenhum tinha varíola, lepra, catapora, tifo, cólera ou qualquer das outras doenças infecciosas e contagiosas que eram endêmicas na maior parte da Ásia. Mais do que um pouco aliviado, ele começou a interrogá-los individualmente e deparou com a mais profunda desconfiança. Por sorte, havia ali um ido escritor de cartas e adivinho itinerante que era cantonês, Cheng-sin, e que também falava um pouco de japonês. Com a ajuda dele — e depois de ser apresentado como o Mestre do Gigante Curandeiro, e com a promessa de um medicamento novo e muito bom para aliviar sua tosse seca — o Dr. Hoag começou a receber os pacientes na segunda sala de cirurgia.