Hoag encontrou no cais, à sua espera, um granadeiro e Lim, que usava um casaco branco, calça preta larga, sandálias e um pequeno solidéu. Assim que ele desembarcou, Hoag fez uma indolente e simbólica reverência.

— Ei, amo, Lim, garoto número um.

— Vamos esquecer essa conversa de cule em pidgin, Lim. — disse Hoag, num cantonês passável, fazendo com que os olhos do chinês se contraíssem. — Sou o Doutor em Medicina Sábio Duminado.

Esse era o nome chinês de Hoag — o significado dos dois caracteres mais próximos do som cantonês de “ho” e “ag”, selecionado entre dezenas de possibilidades por Gordon Chen, o compradore da Struan, um de seus pacientes.

Lim fitou-o fixamente, fingindo não entender, a maneira usual e mais rápida de fazer um demônio estrangeiro perder a compostura, um demônio que tivera a impertinência de aprender umas poucas palavras da língua civilizada. Aiê, pensou ele, quem é esse fornicador astuto, esse pútrido demônio vermelho comedor de mãe, com o pescoço de touro, esse macaco de cara de sapo, que tem a desfaçatez de falar a nossa língua com uma superioridade tão repulsiva...

Aiê — murmurou Hoag —, também tenho muitas e muitas palavras sórdidas para descrever a mãe de um fornicador e suas partes putrefatas, se um homem de uma aldeia de mijo de cachorro, monte de estrume, tenta me esnobar... fingindo que não me entende.

— Doutor em Medicina Sábio Iluminado? Aiê, é um bom nome! — Lim soltou uma risadinha. — Há muitos anos que não ouço um demônio estrangeiro falar tão bem.

— E em breve ouvirá mais, se eu for chamado outra vez de demônio estrangeiro. Foi Chen da Casa Nobre quem escolheu meu nome.

— Chen da Casa Nobre? — Lim ficou espantado. — Ilustre Chen, que tem mais sacos de ouro do que um boi tem pêlos? Aiê, que privilégio!

— Concordo — declarou Hoag, para logo acrescentar uma afirmação que não estava longe da verdade:— E ele também me disse que se eu tivesse problemas com qualquer pessoa do reino médio... quer fosse alta ou baixa... ou que não prestasse de imediato os serviços que um amigo seu deveria esperar, que lhe mencionasse o nome do vil fornicador de mãe ao voltar.

Oh ko, Doutor em Medicina Sábio Iluminado, é de fato uma honra tê-lo em nossa humilde casa.

O Dr. Hoag sentiu que alcançara a grandeza, abençoando seus mestres, em particular os pacientes agradecidos, que haviam lhe ensinado as palavras realmente importantes, e como lidar com certas pessoas e situações no reino médio. O dia era quente e agradável, a aparência da pequena cidade atraente, com templos que podia divisar acima dos telhados, pescadores em atividade nas águas próximas da terra, camponeses por toda parte nos arrozais, pessoas circulando de um lado para outro e o inevitável movimento intenso na Tokaidô, mais além. Ao chegarem à legação, com o apoio exageradamente atencioso de Lim, Hoag já tinha uma boa noção da situação em Kanagawa, o número de pacientes de Babcott hoje, e o que podia esperar.

George Babcott estava na sala de cirurgia, ajudado na operação por um acólito japonês, um aprendiz designado pelo Bakufu para estudar a medicina ocidental, a ante-sala apinhada de aldeões, homens, mulheres e crianças. A operação era complicada, uma amputação de pé.

— O pobre coitado é um pescador, ficou com a perna presa entre o barco e o cais, o que nunca deveria ter acontecido, acho que tomou saquê demais. Assim que eu acabar aqui, poderemos conversar sobre Malcolm. Já o viu?

— Já, sim. Não tem pressa. É um prazer tornar a vê-lo, George. Posso ajudar em alguma coisa?

— Eu agradeceria. Está tudo bem aqui, mas não poderia peneirar a multidão lá fora? Os que são casos urgentes, os que podem esperar. Trate de qualquer um que quiser. Há outra “sala de cirurgia” ao lado, embora seja pouco mais que uma enfermaria. Mura, passe o serrote.

Ele fez o pedido ao assistente, num inglês lento e incisivo, recebeu o serrote e começou a usá-lo.

— Sempre que tenho uma cirurgia aqui, o movimento parece aumentar. Ali naquele armário vai encontrar os placebos comuns, iodo, etc, os medicamentos usuais, analgésicos, xaropes amargos para as doces velhinhas e xaropes doces para as tosses violentas.

Hoag deixou-o e foi examinar os homens, mulheres e crianças à espera, impressionado com sua disciplina e paciência, as mesuras e a ausência de barulho. Logo constatou que nenhum tinha varíola, lepra, catapora, tifo, cólera ou qualquer das outras doenças infecciosas e contagiosas que eram endêmicas na maior parte da Ásia. Mais do que um pouco aliviado, ele começou a interrogá-los individualmente e deparou com a mais profunda desconfiança. Por sorte, havia ali um ido escritor de cartas e adivinho itinerante que era cantonês, Cheng-sin, e que também falava um pouco de japonês. Com a ajuda dele — e depois de ser apresentado como o Mestre do Gigante Curandeiro, e com a promessa de um medicamento novo e muito bom para aliviar sua tosse seca — o Dr. Hoag começou a receber os pacientes na segunda sala de cirurgia.

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