Alguns tinham apenas problemas menores. Uns poucos eram casos mais sérios. Febres, disenteria e assim por diante. Ele conseguiu diagnosticar alguma doenças, outras não foi possível. Membros fraturados, ferimentos de espadas e facas, úlceras. Uma jovem em adiantado estado de gravidez sentia dores intensas.

A experiência do Dr. Hoag indicou que o parto, o quarto da mulher, seria difícil, e que a maior parte do problema derivava de ter casado muito cedo, trabalhar nos campos por tempo demais e carregar um excesso de peso. Ele deu à moça um vidro de extrato de ópio.

— Diga a ela que se a dor for muito forte, quando chegar o momento, para tomar uma colher.

— Uma colher? De que tamanho, Honorável Sábio Iluminado?

— Uma colher do tamanho normal, Cheng-sin. A mulher fez uma reverência.

Domo arigato gozaimashita — murmurou ela, ao se retirar, patética em seus agradecimentos, as duas mãos tentando sustentar o peso da barriga.

Crianças com febre, resfriado e lombrigas, ferimentos diversos, mas nada tão grave quanto ele imaginara. Nenhum caso de malária. Os dentes bons e fortes, de um modo geral, olhos claros, nada de piolhos... todos os pacientes surpreendentemente limpos e saudáveis, em comparação com aldeões similares na China. Nenhum viciado em ópio. Depois de uma hora, Hoag se absorvera por completo no trabalho, bastante satisfeito. Acabara de pôr no lugar um braço quebrado quando a porta foi aberta, e uma moça atraente e bem vestida entrou, hesitante, fez uma reverência. Seu quimono de seda era estampado em azul, a obi verde, o cabelo preso por travessas. Sombrinha azul.

Hoag notou que os olhos de Cheng-sin se estreitavam. Ela respondeu às perguntas do chinês, falando de uma forma ainda mais persuasiva, a voz suave, embora fosse evidente que estava bastante nervosa.

— Doutor em Medicina Sábio Iluminado. — disse Cheng-sin, a fala pontuada pela tosse seca permanente que Hoag já diagnosticara como tuberculose terminal —, esta dama diz que seu irmão precisa de ajuda importante, quase morte. Suplica que a acompanhe... sua casa fica perto.

— Diga a ela para trazê-lo até aqui.

— Infelizmente, tem medo de movê-lo.

— O que há com ele?

Depois de mais perguntas e respostas, que para Hoag pareciam mais uma barganha do que qualquer outra coisa, Cheng-sin disse:

— A casa fica uma ou duas ruas lá fora. Seu irmão está... — Ele tossiu, enquanto procurava pela palavra. — Dorme como morto, mas vivo, com delírio e febre.

Cheng-sin fez uma pausa, e sua voz se tornou ainda mais insinuante quando acrescentou:

— Ela tem medo de mexer no irmão, Honorável Doutor em Medicina Sábio Iluminado. Seu irmão samurai, ela diz que pessoas muito importantes muito felizes se ajudasse seu irmão. Acho que ela fala verdade.

Pelos jornais de Hong Kong, Hoag tinha conhecimento dos samurais como a classe dominante absoluta no Japão e sabia que qualquer coisa que conquistasse a confiança deles, e com isso sua cooperação, ajudaria a influência britânica. Ele estudou a moça, que no mesmo instante baixou os olhos. Seu nervosismo aumentou. Parecia ter quinze ou dezesseis anos, e suas feições a tornavam bem diferente dos aldeões, a pele adorável. Se o irmão é samurai, então ela também é, pensou Hoag, intrigado.

— Como ela se chama?

— Uki Ichikawa. Por favor, tenha pressa.

— Seu irmão é um samurai importante?

— É, sim — garantiu Cheng-sin. — Eu vou junto, não tenha medo.

Hoag riu.

— Medo? Eu? De jeito nenhum! Espere aqui.

Ele foi para a outra sala de cirurgia, abriu a porta sem fazer barulho. Babcott se concentrava em extrair um dente com abscesso, o joelho no peito do rapaz, a mãe transtornada retorcendo as mãos, falando sem parar. Hoag decidiu não incomodá-lo.

Nos portões, o sargento da guarda deteve-os, com toda polidez, e perguntou aonde Hoag ia.

— Mandarei dois dos meus homens acompanhá-lo. É melhor ter segurança em excesso do que se arrepender depois.

A moça ainda tentou dissuadi-los de levar os soldados, mas o sargento se mostrou intransigente. Ela acabou concordando e conduziu-os pela rua, cada vez mais nervosa, entraram por uma viela, depois outra, e mais outra. Os aldeões por que passavam no caminho desviavam os olhos e se afastavam apressados. Hoag levava sua maleta de médico. Por cima dos telhados, ainda podia avistar o templo, e sentiu-se seguro, contente pela companhia dos soldados, sabendo que seria uma terneridade sair sem eles. Cheng-sin seguia a seu lado, um cajado alto na mão.

Essa moça não é o que finge ser, pensou Hoag, um tanto excitado pela aventura.

Entraram em outra viela. A moça parou diante de um portão em uma cerca alta e bateu. Uma grade pequena foi aberta, depois o portão. Quando o corpulento criado viu os soldados, fez menção de fechar de novo, mas a moça lhe ordenou autoritária, que desistisse.

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