— Como?

— Aquele rapaz pensa que é a dádiva de Deus para as mulheres, mas não para mim. Estou noiva, eu disse a ele, noiva, diante de Deus, do Sr. Jamie McFay. Ele disse que era seu amigo, Jamie, e o Dr. Hoag me contou que Gornt salvou sua vida, e por isso me mostrei simpática, mas mantive distância. Puxa, meu rapaz, há muito o que saber, muito o que contar.

— Por Deus, — murmurou ele, sem ouvi-la, — foi fácil cometer o erro, com a echarpe em seu rosto, você e Tess são do mesmo tamanho, o mesmo porte...

— Chega! — Os olhos de Maureen faiscaram de repente. — Eu agradeceria se você não usasse o nome do Senhor em vão, e ela é um pouco mais baixa, muito mais corpulenta, muito mais velha, tem os cabelos grisalhos, enquanto os meus são castanhos, e nem mesmo no escuro somos parecidas!

Como o súbito sorriso pelo próprio gracejo não o afetasse, ela suspirou. Exasperada, correu os olhos pela sala. Viu a garrafa de cristal. No mesmo instante foi até lá, farejou para se certificar de que era uisque, torceu o nariz em repulsa, mas serviu-lhe um copo, algumas gotas em outro.

— Tome aqui. — Maureen fitou-o, de perto pela primeira vez, com um sorriso radiante. — Papai sempre precisava de uma dose de uisque quando o choque de a Escócia ser parte das ilhas britânicas o atingia.

O encantamento se desfez. Jamie riu, abraçou-a, dando as boas-vindas; os copos nas mãos de Maureen quase derramaram.

— Cuidado, meu rapaz! — balbuciou ela.

Maureen conseguiu largar os copos na mesa, abraçou-o também, na maior ansiedade, depois de tanta espera, finalmente em sua presença, vendo o choque de Jamie, não a recepção que esperava, tentando ser forte e adulta, sem saber o que fazer ou como dizer que o amava e não pudera suportar o pensamento de perdê-lo, por isso arriscara, deixara seu santuário, depositara sua confiança em Deus, pegara o livro de orações e a Bíblia, pusera a pequena pistola do pai na bolsa e partira às cegas, por quinze mil quilômetros de medo. Por dentro. Mas não por fora... oh, não, jamais, não é esse o estilo da família Ross!

— Puxa, Jamie, meu rapaz...

— Está tudo bem agora — murmurou ele, desejando que Maureen parasse de tremer.

Jamie tirou-lhe a touca, deixou que caísse a trança comprida, de cabelos castanho-avermelhados.

— Assim é melhor. Você é um homem bonito. Obrigada.

Ela entregou-lhe um copo, pegou o outro, bateram num brinde.

— Escócia para sempre — murmurou Maureen, e tomou um gole. — O gosto é horrível, Jamie, mas nem imagina como me sinto contente por vê-lo.

O sorriso era ainda mais hesitante agora, pois ela perdera parte de sua confiança. O abraço de Jamie fora como o de um irmão, não o de um apaixonado, oh, Deus, Deus, Deus... Para ocultar sua expressão, Maureen tornou a olhar ao redor, enquanto tirava o capote e as luvas. O vestido era quente, bem cortado, outra tonalidade de azul, realçava suas curvas, a cintura de ampulheta.

— O seu Sr. MacStruan diz que você pode usar a suíte dele, eu ficarei nos aposentos ao lado, até termos o nosso próprio lugar. Já arrumou outros aposentos, Jamie?

— Ainda não. — Confuso, sem saber como iniciar, mas certo de que tinha de fazê-lo. E o mais depressa possível. — Isto... arrumei primeiro todos os meus papéis e livros; ia começar lá em cima amanhã. Todo o resto, os móveis aqui e lá em cima, pertencem à Struan.

— Não importa. Podemos comprar os nossos.

Maureen sentou na cadeira diante da mesa e fitou-o. Com as mãos no colo. Esperando. Certa, agora, de que tinha de morder a língua e esperar que ele começasse. Fizera sua parte, ao chegar. Talvez até tivesse exagerado, chegando sem avisar, mas pensara a respeito com todo cuidado e fizera o melhor que podia, escrevendo a carta, e imaginara o reencontro, hora após hora, ao longo dos meses nauseantes no mar, durante as tempestades, e uma ocasião, nos mares da China, ao largo de Cingapura, durante um motim dos passageiros chineses da terceira classe, entre os quais havia piratas, e que fora reprimido de forma sangrenta. Jamie era sua estrela guia e agora chegara o momento do ajuste de contas.

— Ele é um homem que não presta, esse Jamie McFay — dissera sua mãe, quando anunciara a decisão. — Já falei e repeti, ele não será bom para você, menina. Suas cartas são tudo menos encorajadoras, justamente o contrário.

— Quero ir de qualquer maneira, mamãe. Será que papai me emprestaria o dinheiro?

— Acho que sim, se pedir a ele.

— Tenho de ir. Estou com vinte e oito anos, já velha, além da idade normal de casamento. Esperei por muito tempo, e esperaria mais três anos, se fosse necessário, mas... é agora ou nunca. Já decidi. Pode compreender, mamãe?

— Posso, sim. Mas... pelo menos você estará com ele, com o seu homem, se casar, não como eu.

Ela vira as lágrimas, escutara os conselhos nunca oferecidos antes, segredos jamais sussurrados, e depois a mãe arrematara:

— Abençoada seja, menina, vá com Deus. Vamos falar com seu pai.

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