— Por que tão soturno, meu amigo? — perguntou Sir William, em russo. Zergeyev viu que Angelique se encontrava cercada outra vez, por isso levou-o para um lado, e falou sobre seu novo posto. Mas não sobre “Amizade”. Era o codinome de um plano de Estado ultra-secreto para facilitar a emigração maciça e compulsória de vigorosas tribos siberianas para seus vastos territórios alasquianos-americanos, que se estendiam por centenas de quilômetros para o interior, pelo Canadá, e desciam pela costa para o sul, terminando não muito longe da fronteira americano-canadense. Eram povos vigorosos e resistentes, belicosos, que poderiam, ao longo de uma, duas ou três gerações, se expandir para o sul e para leste, pelas vastas pradarias e exóticas terras quentes da Califórnia, talvez até possuindo toda a América um dia. O plano fora proposto por um tio, vinte e cinco anos antes.

— Dois anos! Uma terrível sentença de prisão!

— Concordo. — Sir William também se sentia contrafeito com as vicissitudes de seu próprio Ministério do Exterior, a aptidão que demonstravam para removê-lo de repente, despachá-lo para postos distantes. — Alasca? Ufa! Não sei nada a respeito... já esteve lá alguma vez? No ano passado, o navio em que eu viajava fez escala em Vancouver, nossa colônia ali. É apenas um posto avançado, e não seguimos mais para o norte.

— Sitka não fica muito longe. Estive lá uma vez, quando era jovem. Agora, temos um povoado permanente, muitos mercadores, algumas centenas de habitações — disse Zergeyev, amargurado. — Peles, gelo, ausência da lei, índios, bêbados, nenhuma sociedade. O lugar é uma horrível terra desolada, descoberto por Bering e Chirikov há cento e tantos anos... a princípio, pensaram que era apenas parte de nossos territórios setentrionais, no outro lado de uma enseada de cerca de oitenta quilômetros, sem perceberem que se tratava de um estreito, a que depois deram o nome de Bering. Há sessenta e poucos anos, um dos meus tios-avôs ajudou a formar a Companhia de Peles Russo-Americana, nosso monopólio do comércio de peles, e designou um arrogante filho de uma prostituta... um primo chamado Baranof... para ser o diretor, e ele transferiu a capital para Sitka. Fica numa ilha perto da costa, desolada e miserável, e chamada... adivinhe... ilha Baranof! Infelizmente, minha família fez do Alasca um interesse especial. Daí a minha transferência para o novo posto. Matyeryeybitz! Os dois!

Sir William riu, e Angelique virou-se para eles.

— Posso partilhar o gracejo?

— Ahn... não foi... não foi muito engraçado, minha cara — disse ele, registrando a informação tão interessante para transmitir a Londres. — Apenas uma vulgaridade russa.

— Humor inglês, Angelique. — Zergeyev soltou uma risada. — E com esse pensamento feliz, é tempo de jantar.

Galante, ele fez uma reverência, adiantou-se e conduziu Maureen para a sala de jantar, Sir William e Angelique logo atrás, depois os outros. Prataria abundante na mesa comprida, criados de libré por trás de cada cadeira, outros para trazer vastas quantidades de carnes, borscht, pastelões, jarros de vodca gelada, champanhe, vinhos franceses e sorvetes. Músicos ciganos do navio russo, e mais tarde dançarinos cossacos, da comitiva de Zergeyev, como entretenimento.

O burburinho de conversas, e todos ainda comparando: pequena e alta, francesa contra uma das nossas, o delicioso sotaque francês, o tranquilo escocês. As duas sedutoras, Angelique muito mais, ambas aceitáveis, as duas casadouras, Maureen muito mais.

54

Sábado, 3 de janeiro:

Mister baixo escada, miss tai-tai.

Mister Gornt?

Ah Soh deu de ombros, parada na porta do boudoir de Angelique.

Kwailoh mister.

Com a mão, ela indicou alguém alto e depois fechou a porta, com a batida costumeira.

Angelique contemplou-se no espelho por um instante. O excitamento reprimido era toda a maquilagem de que precisava. Mais um momento para fechar seu diário e guardá-lo. Uma inspeção final e ela saiu. Vestido preto de seda, com muitas anáguas, os cabelos presos por uma impecável echarpe de chiffon, também preta. O anel de sinete do casamento. E desceu a escada, alheia aos criados, empenhados nas tarefas matutinas.

Entrou na sala do tai-pan. Gornt estava de pé junto da janela, olhando para a baía. Chen esperava, com uma expressão lúgubre.

— Bom dia, Edward.

Ele virou-se, sorriu.

— Bom dia, madame.

— Posso pedir café ou champanhe?

— Não, obrigado. Acabei de comer o desjejum. Só queria lhe falar sobre Hong Kong e sua lista de compras. Espero não estar incomodando.

— Claro que não. Chen, espere lá fora.

No momento em que ficaram a sós, ela disse, em voz baixa:

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