Rajadas de vento agitavam mais folhas em torno de seus pés. Desesperado, ele se aconchegou no casaco. A noite parecia cada vez mais escura. Com um suspiro profundo, Tyrer levantou-se, foi andando pelo caminho sinuoso, mas parou abruptamente, quando um samurai quase esbarrou nele.
— Deus Todo-Poderoso! — explodiu ele. — Nakama!
Hiraga estendeu a mão para a espada e Tyrer pensou que ia morrer. Mas a espada permaneceu pela metade na bainha e ele viu os olhos avaliarem-no, compreendendo que fora por um triz.
— Não — balbuciou Tyrer, meio sufocado com a súbita aparição. — Eu... não estou armado.
Ele ergueu os braços em rendição, ficou imóvel, censurando-se por sua estupidez, quase morreu de novo quando Hiraga bateu com a espada na bainha.
— Taira-sama, eu não machucar você. Pensar era inimigo. Mas ser amigo.
Hiraga sorriu, estendeu a mão. Atordoado, Tyrer apertou-a e depois não pôde mais se conter:
— O que está fazendo aqui? Pensamos que havia fugido para Iedo. Que história é essa de ser um
— Não aqui! — advertiu Hiraga. Ele pegou o braço de Tyrer, que sentiu o aperto de ferro. — Vir comigo.
Gesticulando para que ele se mantivesse em silêncio, Hiraga conduziu-o por outro caminho e, depois, por um labirinto de pequenas trilhas, separadas por sebes, até que Tyrer perdera por completo todo e qualquer senso de direção.
— Dentro, por favor.
Trêmulo de medo e desamparado, Tyrer obedeceu. Não havia a menor possibilidade de fugir. Viu Hiraga esquadrinhar a noite, para verificar se haviam sido seguidos. A porta de
— Sente! Por favor. Agora, dizer de novo, mas não depressa, a voz baixa. — Com uma expressão sinistra, Hiraga tirou a espada curta do cinto, largou-a no tatame, ao seu lado. — E então?
Tentando conter o temor que se misturava de forma nauseante com sua aflição, Tyrer relatou sobre Yoshi e Abeh, o assassinato de Utani e como todos pensavam que Hiraga já havia fugido para outro lugar.
— Temos de entregá-lo a Yoshi, aos guardas no portão, porque o capitão Abeh voltou para Iedo, Nakama, e... Como devo chamá-lo, Nakama ou Hiraga?
— Como quiser, Taira-sama.
— Hiraga então, pois esse é seu verdadeiro nome, não é?
— Sou chamado assim. Mas os japoneses ter muitos nomes, um no nascimento, outro sete anos, outro adulto, e tomar outro, se quiser. Sou Nakama ou Hiraga, seu amigo.
— Amigo? — repetiu Tyrer, amargurado, esquecendo o medo. — Por que não me disse que era um assassino? Você matou Utani, não é mesmo?
— Sim, ele um alvo, homem muito mau. Yoshi outro. Isto não ser
Solene, Hiraga explicou da melhor forma que podia sobre os
— Nós querer devolver Nipão ao imperador, fazer governo justo para todas pessoas.
Por “todas pessoas” Hiraga se referia a todos os samurais, embora Tyrer presumisse que incluía todos os japoneses. E enquanto interrogava Hiraga, fascinado por aquela janela singular para a estrutura interna do Nipão — e a mentalidade dos japoneses —, ele foi se convencendo cada vez mais de que havia mérito no lado de Hiraga. Só tinha de considerar a história inglesa e a luta do povo para prevalecer sobre o “direito divino dos reis” e o domínio dos tiranos para se tornar mais e mais simpático. Não era difícil recordar o imenso custo em vidas para criar o Parlamento e o governo do povo pelo povo: a cabeça de um rei, outros humilhados, revolução, tumultos, mortes, antes de florescerem o
— Mesmo assim, não vejo qualquer esperança para você. No momento em que for avistado, será capturado, por seu povo ou pelo meu. E não há nada que eu possa fazer para evitar.
Hiraga respirou fundo e lançou-se no vazio.
— Uma coisa sim, poder fazer me ajudar. Ajudar entrar navio, navio ir
Tyrer ficou aturdido.
— O quê? Você enlouqueceu!