— Mas posso lhe perguntar, monsieur, como aprendeu japonês... pois parece evidente que fala fluentemente.

O estranho soltara uma risada jovial.

— Está sendo muito gentil. Não sou fluente, mas tento. — Ele dera de ombros, divertido. — Com paciência. E porque alguns dos nossos santos padres falam a língua.

Phillip Tyrer franzira o rosto.

— Mas acontece que não sou católico, mas sim da igreja anglicana e... ahn... aprendiz de intérprete na legação britânica. Meu nome é Phillip Tyrer e acabei de chegar, estou meio desorientado.

— Ah, claro, o jovem inglês da Tokaidô. Peço que me desculpe, por favor. Deveria tê-lo reconhecido. Ficamos todos horrorizados ao sabermos do incidente. Permita que me apresente. André Poncin, de Paris. Sou um mercador.

Je suis enchanté de vous voir — dissera Tyrer, falando francês com a maior facilidade, e bem, embora com algum sotaque inglês.

No mundo inteiro, fora da Grã-Bretanha, o francês era a língua da diplomacia, e a língua franca da maioria dos europeus; portanto, era essencial para ocupar um posto no Ministério do Exterior britânico, e para qualquer um que se considerasse instruído. Em francês, ele acrescentara:

— Acha que os padres concordariam em me ensinar ou permitiriam que eu participasse de suas aulas?

— Não creio que eles dêem aulas. Posso perguntar. Vai partir com a esquadra amanhã?

— Vou, sim.

— Eu também, acompanhando monsieur Seratard, nosso ministro. Esteve na legação em Paris antes de vir para cá?

— Infelizmente, não. Só passei duas semanas em Paris, monsieur, em férias... este é o meu primeiro posto no exterior.

— O seu francês é muito bom, monsieur.

— Nem tanto quanto eu gostaria — respondera Tyrer, voltando a falar em inglês. — Posso presumir que também é um intérprete?

— Oh, não, sou apenas um homem de negócios. Mas às vezes procuro ajudar monsieur Seratard, quando seu intérprete oficial de holandês está doente... pois também falo holandês. Deseja aprender japonês, e o mais depressa possível, nem?

Poncin fora até a prateleira, escolhera um livro.

— Já viu um desses? É de Hiroshigue, Cinqüenta e Três Estações na Estrada de Tokaidô. Não se esqueça de que o princípio do livro fica no fim, para nós, já que eles escrevem da direita para a esquerda. As ilustrações mostram as estações de posta até Quioto. — Ele folheara o livro. — Aqui está Kanagawa e aqui é Hodogaya.

As xilogravuras em quatro cores eram requintadas, melhores do que qualquer outra coisa que Tyrer já vira antes, os detalhes extraordinários.

— Mas são maravilhosas!

— Tem toda razão. Ele morreu há quatro anos, o que é uma pena, porque era fantástico. Alguns artistas japoneses são fabulosos, Hokusai, Masanobu, Utamaro, e uma dúzia de outros. — André rira, pegara outro livro. — Este aqui é indispensável, uma cartilha do humor e caligrafia dos japoneses, como eles chamam sua escrita.

Phillip Tyrer ficara espantado. A pornografia era decorosa e absolutamente explícita, página após página, com homens e mulheres muito bem vestidos, as partes nuas exageradas, desenhadas em detalhes precisos, enquanto se uniam com vigor e inventividade.

— Oh, meu Deus!

Poncin soltara uma gargalhada.

— Ah, estou vendo que lhe proporcionei um novo prazer. Em matéria de erotismo, eles são excepcionais. Tenho uma coleção que gostaria de lhe mostrar. As ilustrações são chamadas átshunga-e, e outras de ukiyo-e... imagens do mundo dos salgueiros ou do mundo flutuante. Já visitou algum bordel?

— Eu... ahn... não... ainda não.

— Neste caso, permita que eu seja seu guia?

Agora, durante a noite, Tyrer recordou a conversa, e como se sentira secretamente embaraçado. Tentara fingir que também era um homem do mundo, com muita experiência, mas ao mesmo tempo ressoava em sua cabeça o conselho solene e constante do pai:

— Escute, Phillip, os franceses são indignos, não merecem a menor confiança, os parisienses são a escória da França, e Paris é sem dúvida a cidade do pecado no mundo civilizado... licenciosa, vulgar e francesa!

Pobre papai, pensou Tyrer, ele se enganava em muita coisa, mas também viveu os tempos napoleônicos, e sobreviveu ao banho de sangue em Waterloo. Por maior que fosse a vitória, deve ter sido terrível para um pequeno tambor de dez anos. Não é de admirar que ele nunca tenha perdoado, não fosse capaz de esquecer, nem de aceitar a Nova Era. Ora, não importa. Papai tem a sua vida, e por mais que eu o ame, que o admire pelo que fez, devo levar minha própria vida. A França é quase uma aliada agora... e não é errado escutar e aprender.

Ele corou, lembrando como absorvera as palavras de André... ao mesmo tempo em que sentia secreta vergonha por seu ávido fascínio.

O francês explicara que no Japão os bordéis eram lugares de grande beleza, e suas cortesãs, as damas do mundo flutuante ou do mundo dos salgueiros, como eram chamadas, destacavam-se como as melhores que ele já experimentara.

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