Há diversos graus, é claro, e mulheres procurando fregueses nas ruas, na maioria das cidades. Mas aqui temos o nosso próprio quarteirão do prazer chamado Yoshiwara. Fica no outro lado da ponte, além da cerca. — Outra vez risada agradável.— Nós chamamos de ponte do paraíso. Mas já deve saber disso, oh, peço desculpas por interromper suas compras.

— Mas não se preocupe com isso! — respondera Tyrer, no mesmo instante consternado com a perspectiva de perder o fluxo de informações, aquela rara oportunidade. Depois, em seu francês mais floreado e suave, apressara-se em acrescentar: — Eu consideraria uma honra se quisesse continuar. É muito importante aprender tanto quanto for possível, e as pessoas a quem estou ligado, com as quais converso, são... lamentavelmente, não são parisienses, mas enfadonhas, sem a sofisticação dos franceses. Para retribuir sua gentileza, posso lhe oferecer chá ou champanhe na English Tea House ou noYokohama Hotel...ainda não sou sócio do clube.

— É muito generoso, e eu gostaria muito.

Agradecido, Tyrer chamara o dono da loja e pagara o livro, com a ajuda de Poncin, surpreso por descobrir que era bem barato. Saíram para a rua.

— Estava falando sobre o mundo dos salgueiros...

— Não há nada de sórdido, ao contrário do que acontece na maioria dos nossos bordéis, e em quase todos os outros lugares do mundo. Aqui, como em Paris, só que ainda mais, o ato sexual é uma forma de arte, tão delicado e especial quanto a grande cuisine, a ser encarado, praticado, saboreado e pensado como tal, e não... por favor, perdoe-me por dizer isso, não com o deturpado sentimento de “culpa” do anglo-saxão.

Numa reação instintiva, Tyrer se irritara. Por um momento, sentira-se tentado a corrigi-lo, a proclamar que havia vasta diferença entre culpa e uma saudável atitude em relação a moral, a todos os bons valores vitorianos. E acrescentar que, infelizmente, os franceses nunca haviam feito qualquer distinção com sua tendência para uma vida desregrada, que seduzia até augustos nobres, como o príncipe de Gales, que dizia considerar Paris como um lar (uma fonte de grande preocupação nos mais altos círculos ingleses), dissera o Times, furioso. “A vulgaridade francesa não tem limites, com sua lamentável ostentação de riqueza, com suas desavergonhadas danças novas, como o cancã, em que as dançarinas, segundo informantes confiáveis, deliberadamente se abstêm, e não são nem obrigadas, a usar roupas de baixo.”

Mas ele não dissera nada disso, sabendo que seria apenas uma repetição das palavras do pai. Pobre papai, pensara mais uma vez, e tornara a se concentrar em Poncin, enquanto seguiam pela High Street, o sol agradável, o ar revigorante, com a promessa de um belo dia amanhã.

— Mas aqui no Japão, monsieur Tyrer — continuara o francês, na maior felicidade —, há regras e regulamentos maravilhosos, tanto para os clientes quanto para as mulheres. Por exemplo, nem todas se mantêm disponíveis durante todo o tempo, exceto nos lugares de classe inferior, e mesmo nesses não se pode entrar e dizer quero aquela.

— Não se pode?

— Claro que não. A mulher sempre tem o direito de recusá-lo, sem que isso lhe acarrete qualquer desdouro. Há protocolos especiais... posso explicar em detalhes mais tarde, se assim desejar... mas cada casa é dirigida por uma madame, -chamada mama-san, o san sendo um sufixo que indica senhora, madame, ou senhor. Ela se orgulha da elegância de sua casa e de suas damas. Variam em preço e excelência, é claro. Nas melhores, a mama-san o inspeciona, essa é a palavra certa, decide se você tem condições de honrar sua casa e tudo o que contém, em suma, se você pode ou não pagar a conta. Aqui, um bom freguês pode ter o maior crédito, monsieur Tyrer, mas ai daquele que não pagar, ou atrasar o pagamento, quando uma conta for discretamente apresentada. Todas as casas do Japão passarão a lhe proibir todos os tipos de entradas.

Tyrer soltara uma risada nervosa pelo trocadilho.

— Não sei como a informação é transmitida, mas é o que acontece, daqui até Nagasáqui. Portanto, monsieur, sob certos aspectos, isto é o paraíso. Um homem pode fornicar a crédito durante um ano, se assim desejar.

Poncin fizera uma pausa, e sua voz mudara, de maneira quase imperceptível, quando continuara:

— Mas o homem sábio compra o contrato de uma dama e a reserva para o seu prazer particular. Elas são encantadoras e saem muito baratas, quando se considera o enorme lucro que obtemos na troca de dinheiro.

— É isso o que aconselha?

— É, sim.

Eles tomaram chá e depois champanhe, no clube, onde André era um sócio bem conhecido e popular. Antes de se separarem, André dissera:

— O mundo dos salgueiros merece o maior cuidado e atenção. E me sentiria honrado em ser um dos seus guias.

Перейти на страницу:

Все книги серии Asian Saga (pt)

Похожие книги