António de Faria esforçou alegremente os seus para a peleja, e fazendo sinal aos juncos esperou os inimigos fora no campo, parecendo-lhe que ali se quisessem averiguar com ele, segundo a fanfarronice das suas mostras prometia; eles, tornando de novo à escaramuça, andaram um pedaço à roda como se debulhassem calcadouro de trigo, parecendo-lhes que só aquilo bastava para nos desviarem do nosso propósito, porém vendo que nós não voltávamos o rosto como lhes pareceu ou porventura desejavam, se juntaram todos num corpo e assim juntos e mal concertados se detiveram um pouco sem virem mais para diante.

O nosso capitão, vendo-os daquela maneira, mandou disparar a espingardaria toda junta, a qual até então estivera sempre quieta, e prouve a Deus que se empregou tão bem que dos de cavalo que estavam na dianteira, mais de metade vieram logo ao chão. Nós, com este bom prognóstico arremetemos todos a eles, bradando sempre pelo nome de Jesus, e quis ele por sua misericórdia que os inimigos nos largaram o campo fugindo tão desatinadamente que uns caíam por cima dos outros, e chegando a uma ponte que atravessava a cava, se embaraçaram de maneira que não podiam ir para trás nem para diante. Nesta conjunção chegou até eles o corpo da nossa gente, e os trataram de maneira que mais de trezentos ficaram logo ali deitados uns sobre os outros, coisa lastimosa de ver, porque não houve nenhum que arrancasse espada. Nós, com o fervor desta vitória arremetemos logo à porta e nela achámos o mandarim com cerca de seiscentos homens consigo, o qual estava em cima de um bom cavalo, com umas couraças de veludo roxo de cravação dourada do tempo antigo, as quais depois soubemos que foram de um tal Tomé Pires, que EI-Rei D. Manuel da gloriosa memória mandara como embaixador à China, na nau de Fernão Peres de Andrade, governando o Estado da Índia, Lopo Soares de Albergaria.

o mandarim, com a gente que tinha consigo nos quis fazer rosto ao entrar pela porta, com o que entre eles e nós se travou uma cruel briga, em que por espaço de quatro ou cinco credos se iam eles já metendo connosco com muito menos medo que os outros da ponte, se um moço nosso não derrubasse o mandarim do cavalo abaixo com uma espingardada que lhe deu pelos peitos, com o que os chins ficaram tão assombrados que todos juntamente voltaram logo as costas, e se começaram a recolher sem nenhuma ordem pelas portas dentro, e nós todos de volta com eles, derrubando-os às lançadas, sem nenhum ter acordo de fechar as portas, e levando-os assim como a gado por uma rua muito comprida, saíram por outra porta que ia para o sertão, ao qual se acolheram todos sem ficar nem um só. António de Faria, recolhendo então a si toda a gente, para não haver algum desmancho, se fez todo num corpo e se foi com ela à chifanga, que era a prisão onde os nossos estavam, que em nos vendo deram

uma tamanha grita de . Senhor Deus misericórdia. que fazia tremer as carnes. E mandou logo com machados quebrar as portas e as grades. e como o desejo e o fervor disto era grande. em um momento foi tudo feito em pedaços.

e os ferros com que os cativos estavam presos. logo tirados. de maneira que em muito breve espaço os companheiros todos estavam soltos e livres. E foi mandado aos soldados e à mais gente da nossa companhia que cada um por si apanhasse o que pudesse. porque não havia de haver repartição nenhuma. senão que o que cada um levasse havia de ser tudo seu. mas que lhes rogava que fosse muito depressa. porque lhes não dava mais espaço que só meia hora muito pequena. ao que todos responderam que eram muito contentes.

Então se começaram logo uns a meter pelas casas. e António de Faria se foi às do mandarim. que quis por seu quinhão. onde achou oito mil taéis de prata somente. e cinco boiões grandes de almíscar que mandou recolher. e o mais largou aos moços que iam com ele. que foi muita seda. retrós. cetins. damascos. e barças de porcelana finas.

em que todos carregaram até mais não poderem. de maneira que as quatro barcas e as três champanas em que a gente desembarcara, por quatro vezes se carregaram e descarregaram nos juncos, tanto que não houve moço nem marinheiro que não falasse de caixão e caixões de peças, fora o secreto com que cada um se calou.

Перейти на страницу:

Поиск

Нет соединения с сервером, попробуйте зайти чуть позже