-lhe às suas cartas com uma geral, em que todos assinaram como consulta de câmara, lha mandaram com duas lanteas de muito refresco, por um tal Jerónimo do Rego, homem fidalgo e com cãs, e de muito saber e autoridade, na qual lhe relataram com palavras de grande agradecimento, a muita obrigação em que todos lhe estavam, tanto pela mercê que lhes fizera em lhes livrar suas fazendas das mãos dos inimigos, como pelo muito amor que lhes mostrara na liberalidade que usara com eles, a qual esperavam que Deus Nosso Senhor lhe pagaria com abundan-
tíssimos bens na sua glória. E que quanto a se temer de invernar ali pelo que fizera em Nouday, estivesse nisso muito descansado, porque não andava a terra ao presente tão quieta que isso se pudesse lembrar, tanto pela morte do rei da China como pelas dissensões que havia em todo o reino em treze opositores que pretendiam o ceptro dele, os quais todos estavam já postos em armas com seus exércitos em campo, para pela força averiguarem o que se não podia determinar por justiça; e que o tutão Nay, que era a suprema pessoa depois do rei em todo o governo com mero e místico império da majestade real, estava cercado na cidade de Quoansy, pelo Prechá Muão, imperador dos conchins, em cujo favor se tinha por certo que vinha o rei da Tartária, com um exército de 900 mil homens; assim, que a coisa andava tão baralhada e dividida entre eles, que ainda que sua mercê assolasse a cidade de Cantão, se não faria caso disso, quanto mais a cidade de Nouday, que na China em comparação com muitas outras, era muito menos que em Portugal pode ser Oeiras com Lisboa. E que, pela certeza de tão boa nova pediam todos a sua mercê, alvíssaras, que se deixasse ali estar surto seis dias, para que neles tivessem eles tempo de lhe negocia-
rem umas casas em que se agasalhasse, já que não prestavam para mais, nem por então podiam mostrar o muito que lhe deviam, conforme o desejo que todos tinham disso, e outras palavras de cumprimentos muito copiosos a que ele respondeu como entendeu que era razão, e lhes quis fazer a vontade no que lhe pediam. E nas duas lanteas em que lhe trouxeram o refresco, mandou os feridos e os doentes que havia na armada, os quais os de Liampó agasalharam com muita caridade, e os repartiram pelas casas dos mais abastados, onde foram curados e providos de tudo o necessário muito cumpridamente sem lhes faltar nada. E em todos estes seis dias que António de Faria aqui esteve, não ficou homem de nome na povoação ou cidade, como todos lhe chamavam, que o não viesse visitar com muitos presentes de muitas invenções de manjares e refrescos, e frutas, em tanta abundância que todos pasmávamos do que víamos, e principalmente do grande concerto e aparato que estas coisas traziam consigo.
O Corsário dos Sete Mares - Fernão Mendes Pinto
Fernão Mendes Pinto é uma figura singular da nossa História e Literatura, tanto pela vida que viveu como pela sua obra Peregrinação. Foi também, como é frequente acontecer com os que mais contribuem para o conhecimento e valorização de Portugal, injustiçado e desacreditado pelos seus compatriotas, incapazes de apreciarem o valor do seu livro, publicado em 1614, trinta e um anos após a sua morte.
Nesse século XVII, a sua obra (de difícil leitura nos nossos tempos) teve uma enorme repercussão na Europa, com vinte edições em várias línguas, contribuindo para o conhecimento pelos europeus dos povos do Oriente, dos costumes e mentalidades de variadíssimas civilizações até então totalmente desconhecidas. Independentemente das imprecisões e dos erros cronológicos ou dos exageros e das efabulações que contribuem para o fascínio da Literatura de Viagens, em que se insere a Peregrinação.
Posteriormente, nos finais do século xix e também no século xx, as opiniões dos críticos dividiram-se sobre a importância e o valor do autor e da sua obra. Os portugueses, seguindo, como é seu hábito, as vozes dos críticos ingleses – que se esforçam por enaltecer os seus heróis e apagar ou destruir os das outras nações que lhes foram rivais, em particular o Portugal dos Descobrimentos –, encarniçaram-se contra a inveracidade da sua narração.
O galardão que lhe ofereceram pela singularidade do seu génio e pela sua obra única – sem comparação na Europa do seu tempo – foi o chiste que perdurou, denegrindo o seu nome e o seu trabalho: Fernão, Mentes? Minto.
No entanto, Fernão Mendes Pinto faz também parte da Literatura e História de países tão longínquos como o Japão, a Birmânia ou a Tailândia, surgindo como um dos primeiros portugueses a tocar solo japonês e o noivo do primeiro matrimónio de uma japonesa com um ocidental, um caso que servirá de suporte ao mito da Madame Butterfly, na tradição oral e escrita de cerca de quatrocentos anos; ou ainda como cronista quase único das guerras da Birmânia com o Sião, nos finais da década de 1540, que serviram de base para o impressionante filme histórico A Lenda de Suriyothai, de Chatrichalerm Yukal (2001).