– Falastes em desprezo meu e destes homens, que com risco de suas vidas tomaram estes cativos. Quanto melhor vos fora, Moulana, para salvação da vossa alma, repartirdes com os pobres soldados do vosso que vos sobeja, do que com palavras hipócritas tentardes roubar-lhes o seu, como tendes por ofício fazer continuamente.

Um silêncio pesado caiu sobre a multidão, pasmada com o que o capitão ousava dizer ao poderoso Moulana, que parecia ter igualmente perdido a fala.

– Se não quereis levar as mãos vazias – continua Geinal imperturbável – para por vosso interesse peitardes os cacizes de Medina, fazei-o com o património que o vosso pai vos deixou e não com estes cativos que custaram as vidas de muitos dos nossos e muito sangue a nós que estamos vivos.

– Como ousas, vilão, insultar um homem de Deus? Maldito sejas, com toda essa corja de assassinos que te acompanha! Condeno-vos ao.

E mais não pôde dizer, porque os soldados de Geinal, turcos e mouros, desembainham as armas contra ele, porém, as gentes da cidade, que são a favor do Moulana, fazem barreira, tomando cacetes, punhais e tudo o que possa servir de arma, enfrentam os soldados. Ferhâd chega-se aos brigões, tentando aquietar os ânimos, mas ninguém o quer ouvir e um bando de exaltados rodeia-o, ameaçador, sem que os seus guarda-costas ousem impedi-los. Um golpe traiçoeiro corta-lhe um braço e só a muito custo os da sua comitiva logram retirá-lo da praça e levá-lo para casa, deixando-o entregue aos cuidados do seu físico.

Todos criam que as autoridades da cidade em breve poriam fim ao confronto e castigariam os prevaricadores; porém, a briga degenerou num combate feroz que se saldou por mais de seiscentos mortos e no saque de meia cidade. Entre os mortos acharam-se o Moulana com as suas sete mulheres, os nove filhos e toda a restante família que os soldados mataram e lançaram ao mar depois de lhes roubarem a casa que era muito rica.

Os cativos portugueses só souberam destes sucessos depois de Dragut ter pacificado a cidade, em nome do sogro que convalescia do ferimento, porque, durante o leilão, Fernão e os seus companheiros pouco perceberam da disputa entre o Moulana e Geinal, por isso, quando a briga estalou entre as duas partes, sentiram um grande júbilo na esperança de que se matassem uns aos outros. Mas, ao verem o capitão da cidade ser retirado em braços da praça gravemente ferido e os leiloeiros porem-se em fuga, seguidos pelos oficiais da justiça, deixando-os entregues à sua sorte, os cativos entreolharam-se aterrados, sem saberem o que fazer.

– Quando se cansarem de lutar entre si, vão virar-se contra nós – lembrara Fernão, passando a língua pelos lábios ressequidos – porque esta querela tem a ver connosco, já que aquele capitão turco foi o que me caçou.

– Não duvido! Vão fazer-nos em pedaços!

– E ninguém nos acudirá! – soluçara um moço grumete. – Não nos podemos esconder?

Falavam todos ao mesmo tempo, atropelando as palavras, tremendo no terror de serem apedrejados ou feitos em pedaços por uma multidão em fúria. Alheio à agitação dos companheiros Fernão tentava descobrir um buraco onde se pudessem esconder.

– O cárcere! – bradara de súbito. – Se chegarmos à prisão estaremos em segurança!

– Mas da masmorra viemos nós! Tens assim tanta pressa de te enfiar naquele buraco imundo?

– Ele tem razão – dissera o mestre da fusta Santa Cecília. – No cárcere quedaremos a salvo. E como eles estão entretidos a matarem-se uns aos outros, talvez logremos chegar ao tronco, que não está longe daqui, sem que nos detenham. Fujamos e que Deus nos ajude.

Muito juntos e escondendo as correntes o melhor que podiam, esgueiraram-se do pátio do mercado e tomaram o caminho da prisão, seguindo pelas ruas quase sem gente, porque os moradores, atraídos pelo tumulto, se tinham concentrado na praça principal e os poucos retardatários corriam para lá desatinados, sem lançarem sequer um olhar ao grupo de pedintes ou faquires com que se cruzavam. Fernão jamais julgaria possível que um imundo cárcere mouro, de onde só desejaria fugir, pudesse afinal vir a salvar-lhe a vida e as dos cinco companheiros.

Fora curto o interregno na sua desgraça, porque mal a cidade se pacificou, os cativos voltaram ao mercado de escravos e o leilão processou-se sem novos incidentes. Fernão foi vendido a um grego renegado que, durante três meses, o fez comer o pão que o diabo amassou, com trabalho e maus tratos.

Desesperado da vida, deixou de comer, não tardando a perder as forças e as poucas carnes que lhe cobriam os ossos, de modo que o dono, temendo o prejuízo que lhe adviria com a sua morte, o entregou por doze mil-réis de tâmaras ao judeu Abraão Muça que o tratou e levou para Ormuz, onde D. Fernando de Lima, o capitão da fortaleza, o resgatou por duzentos pardaus, do seu bolso e de esmolas da gente de terra, lhe deu pousada para recuperar a saúde e as forças e o enviou de novo para a Índia.

18 Os descendentes, respectivamente, do bisavô e avô de Maomé.

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