Como todos os que navegavam pelo Mediterrâneo ou pelos mares da Arábia nos últimos anos, Fernão cansara-se de ouvir histórias a seu respeito, onde o terror se mesclava com a admiração pelos seus feitos. Dragut era filho de camponeses de uma terreola dos arredores de Rhodes e guardara rebanhos na sua infância; com a idade de doze anos, fora levado para o Cairo por um oficial bombardeiro que lhe ensinara a sua arte, na qual em breve se fizera melhor do que o mestre. Ansioso por ganhar fortuna, partira para Alexandria e lançara-se no corso a bordo de um pequeno bergantim, tomando muitas presas cujo saque lhe permitira armar a sua própria galera, não tardando a enriquecer e a fazer-se poderoso.
A fama de Khair ed-Din, o Barba-Roxa, atraíra-o de seguida a Alger a fim de se juntar ao formidável corsário que aterrorizava o Mediterrâneo. Dragut capturou em pouco tempo inúmeros barcos de mercadores cristãos e a sua reputação de bom piloto e grande artilheiro levara Barba-Roxa a contratá-lo para capitão de uma armada de doze galés com a qual se dedicara a fazer constantes razias nas costas da Sicília e de Nápoles.
Com o recrudescer da rivalidade e dos confrontos entre os portugueses recém-chegados e os muçulmanos há muito estabelecidos na Índia, Dragut achava-se em missão de espionagem e inspecção ao mar Roxo, ao serviço de Soleimão, o Magnífico, quando as duas fustas se tinham vindo incautamente meter na boca do lobo. Com este mau passo Fernão Mendes Pinto iniciava, sem o saber, o rol de desventuras que haviam de fazer dele o mais martirizado de todos os aventureiros do Oriente onde, no decurso de vinte e um anos, seria feito treze vezes cativo e dezassete vendido nas partes da Índia, Etiópia, Arábia Feliz, China, Tartária, Macassar e Samatra.
12 Cabo do mar Roxo.
13 Barcos do mar Roxo. As gelvas eram como pequenas caravelas movidas a remos e velas; as tarradas eram barcos em forma de barril para transporte de cavalos e cavaleiros.
14 Peregrinação, capítulo IV.
15 Gelbas ou jelbas eram embarcações pequenas, subtis e ligeiras, sem pregadura, com as tábuas atadas por cairo, com mastro bípede e duas velas, governadas a dois remos, não podendo navegar de noite.
16 Terradas são embarcações largas e sem quilha, de proa baixa e popa muito alta, de um só mastro com vela latina, triangular, também movida a remos, muito rápidas. O leme é governado por cordas que vêm sair no centro da terrada.
17 Mastro.
V
Uma boca que reza e uma mão que mata
(árabe)
De alguns preceitos da jihad:
Se for feita presa, que [o capitão] a mande juntar e dar o despojo do morto ao matador, despojo que consiste nas suas roupas, sapatos, cinturão e fato; quanto aos objectos encontrados com ele, braceletes, armamento de guerra, arreios, selas e rédeas, mandá-las dividir em cinco quinhões, e um deles em cinco outros; o primeiro para beneficiação dos muçulmanos, por exemplo, a defesa da fronteira, a construção de fortalezas, de pontes, de mesquitas, e honorários de juízes e sacerdotes; o segundo para os próximos parentes do profeta, os Háxeme e os Almotálebe18; o terceiro para os órfãos; o quarto para os desprotegidos da sorte, incluindo os faquires; o quinto para os viajantes; e os quatro quintos restantes para os apresadores que realmente tomaram parte na luta.
(O Mimo do Campeão da Fé ou a História dos Portugueses no
Malabar, de Zinadim Benalí Benhamede19)
Ferhâd Paxá, o capitão da cidade de Al Mukhâ ou Mocaa, como ouviam pronunciar os portugueses, tendo sido avisado da vitória e chegada do seu genro Soleimão Dragut, preparara-lhe um recebimento digno de um herói, com a artilharia do porto a disparar estrondosas salvas. Dezenas de galeras engalanadas saem ao encontro das galeotas, saudando com grandes gritas e fanfarra de muitos instrumentos os macabros estandartes pendurados nas pontas dos mastros que são os oito pedaços ensanguentados de dois cativos portugueses que não tinham sobrevivido aos ferimentos do combate e os seus algozes haviam esquartejado para os exibir como troféus.
Dragut responde com disparos da sua artilharia e vai desembarcar na praia, onde já o espera o sogro com muito povo e uma força de algumas centenas de soldados, perfilados em boa ordem. Mal põe o pé em terra, soam os tiros das bombardas, tanto das defesas da cidade, como dos navios que o escoltaram, com tal estrondo que a terra estremece e os pássaros fogem espavoridos. Incontáveis músicos tocam oboés, címbalos, flautas e tambores com um estrugido igualmente ensurdecedor que, todavia, não logra abafar as vaias com que Fernão e os oito companheiros são recebidos pela multidão, quando os soldados os lançam na praia presos uns aos outros por uma corrente.